Após nove anos de tentativas, família do RJ abre 9ª Pantalhaç@s em MS
'Levem as crianças ao circo e ao teatro, para encher a cabeça delas de paz', disse Guga Morales
7 DEZ 2025 • POR TERO QUEIROZ • 16h00
O Teatro Prosa Sesc foi palco da solenidade de abertura da 9ª Pantalhaç@s – Mostra de Palhaç@s do Pantanal na noite de 4 de dezembro de 2025.
Com casa cheia, a noite inaugural contou com a apresentação de "Noites de Circo", da Família Montes e Morales, do Rio de Janeiro (RJ).
O espetáculo, que mescla a técnica circense com o humor inspirado em programas de auditório, serviu como plataforma para um discurso veemente sobre a dedicação, a resiliência e a necessidade de políticas públicas para a cultura.
"Noites de Circo" é conduzido pelos intérpretes Guga Morales e Manu Montes. A direção artística de Fábio da Silva Freitas e a dramaturgia (assinada por Freitas, Morales e Montes) buscaram criar uma atmosfera vintage, utilizando truques e números que vão do malabarismo ao ilusionismo.
Espetáculo de família do Rio Janeiro abriu a 9ª Panatalhaç@s | Foto: Tero QueirozApesar da descrição da obra sugerir um "ritmo acelerado", a performance no Teatro Prosa foi marcada por um andamento mais cadenciado. Os artistas demonstraram um controle rítmico que, ao invés de cair na lentidão, permitiu a plena fruição da precisão dos números.
Guga Morales levou ao palco números já vistos no seu trabalho anterior "O Homem Foca", destacando o malabarismo com objetos de alto grau de dificuldade, como claves, faca, bola e taças de cristal.
Manu Montes contribuiu com elementos de humor e surpresa, notavelmente no número em que estourou bexigas, vendada, lançando um dardo ou flecha de uma zarabatana a uma distância superior a um metro.
Outro ponto que gerou forte engajamento da plateia foi o número de ilusionismo em que a artista tira todo tipo de coisa de dentro de uma bolsa. Manu arranca risadas de adultos a crianças no Sesc lotado.
Além disso, o duo promoveu uma apresentação musical inesquecível de 'La Cucaracha', no tom certo de comédia, complementando a proposta estética e humorística do espetáculo circense.
O trabalho conta com o figurino de Raquel Theo e a trilha sonora original de Roberto Kauffmann.
Espetáculo 'Noites de Circo' foi apresentado no 1º dia da Pantalhaç@s | Foto: Tero QueirozARTE, RESILIÊNCIA E PAZ
Ao final da apresentação, a reportagem do TEATRINETV realizou uma entrevista exclusiva com os artistas, que utilizaram o palco para ir além da celebração da performance, oferecendo uma profunda reflexão sobre a vida na arte.
O casal defendeu a ideia de que a arte circense é a materialização do esforço contínuo e da resiliência.
Guga Morales enfatizou o papel da persistência para conquistar uma vaga como atração na 9ª Pantalhaç@s:
"Eu acho que isso é uma resposta também de perseverança. Eu acho que mais do que dificuldade é perseverança. Tem que tentar, tentar, tentar porque um dia vai. Sabe, se não foi num dia, foi por algum motivo, vai ser no outro. E o circo nada mais é do que perseverança, paciência e tentar, tentar, tentar, tentar. Até a vida deixar", introduziu.
Manu Montes, por sua vez, relacionou o trabalho circense como objeto de reinvenção:
"Acredito muito que o circo é um pouco da nossa reinvenção diária, é o treino, é uma consolidação do trabalho e é essa caminhada, essa busca, não só de agora, mas como 10 anos tentando vir para o Pantanal, para a Pantalhaç@s no Pantanal, aqui do Mato Grosso do Sul. É, a gente acredita que o nosso trabalho, que a nossa arte pode contribuir, pode agregar e por isso que a gente tenta, é resiliente, treina mais um pouco, melhora o nosso trabalho, melhora o figurino. Eu acho que é um pouquinho de cada coisa que faz o tudo acontecer", argumentou.
Cena do espetáculo 'Noites de Circo apresentado durante a 9ª Pantalhaç@s | Foto: Tero Queiroz
Durante discurso à plateia lotada do Sesc Teatro Prosa, Guga pediu aos presentes que levassem crianças ao teatro para encher a cabeça dos pequenos de paz. A reportagem questionou o que ele propôs ao público com tal afirmação.
"Acredito que as crianças têm que ter no mínimo uma opção, elas têm que conhecer, sabe? É, a opção de escolher assistir um teatro, a opção de escolher fazer circo ou de não fazer também, mas eu acho que o importante é a opção. E por isso que eu digo sempre, da gente levar nossas famílias ao circo, levar nossas famílias ao teatro para encher a cabeça dessas crianças de paz, porque a arte nos traz paz. E se a gente conseguir passar essa nossa arte para as crianças, elas vão ter paz e vão ter a escolha de vida", disse.
Provocada a revelar como atingem tal conexão com as crianças e se a filha deles, a pequena Melissa, tem influência no resultado tão forte no público infantil, Manu explicou:
"Melissa acompanha a gente desde que ela nasceu, então ela acompanha a gente em todo o trabalho, todo o festival que a gente vai. Em alguns países, outras cidades, outros estados, ela sempre foi com a gente, sempre assistiu muito. Mas eu acho que é mais uma conexão [com o público infantil]. A gente tenta se conectar com as crianças, ver o que que elas gostam, o que faz rir, o que faz a surpresa, o 'uau', o que faz o olho da criança brilhar. Então, eu acho que é por aí que a gente segue o trabalho", detalhou.
Guga Morales em cena de "Noites de Circo", durante abertura da 9ª Pantalhaç@s | Foto: Tero Queiroz
Guga Morales aproveitou a oportunidade para reforçar a defesa das políticas de fomento à cultura, contextualizando o caráter logístico da vinda a Campo Grande:
"Acho que a gente está no momento que a gente tem que mostrar a importância da cultura, a importância das leis de incentivo, a importância do financiamento público, porque sem ele é muito difícil construir. A gente veio para cá ficar num bate-volta, foi só três dias, só mesmo para passar o nosso trabalho e voltar porque a gente já está realizando outros trabalhos no Rio de Janeiro, a gente não para, a gente continua... E acho que ademais vir para cá, para Campo Grande, um lugar que eu nunca tinha vindo, trazer minha filha, conhecer o Mato Grosso do Sul. Eu acho que é demais para mim, porque eu nunca havia pensado em vir, sabe? Nunca antes de começar a fazer circo e o circo me deu essa possibilidade, de poder viajar, de conhecer outros países e principalmente conhecer essa equipe maravilhosa aqui da Pantalhaç@s", completou.
Manu Montes e Guga Morales em cena de 'Noites de Circo' | Foto: Tero Queiroz
Manu Montes encerrou, resumindo a experiência e destacando a natureza contínua da vida artística:
"Eu acho que é isso, é uma realização de um sonho! A gente tenta isso há muitos anos e a gente sempre que vai para os festivais, a gente tenta aproveitar o máximo até para assistir outros trabalhos; enfim, acho que isso agrega também ao nosso trabalho, a gente aprende muito com isso, só que realmente não temos datas, assim, é, um trabalho chama o outro, então a gente sábado já tá apresentando, então amanhã a gente volta para o Rio, sábado a gente apresenta fora do Rio, mas no estado, mas é essa vida de circo, essa vida mambembe, essa vida que nos leva, né? Que é o circo que nos leva", concluiu.
A 9ª Pantalhaç@s – Mostra de Palhaç@s do Pantanal segue com sua programação em Campo Grande até 10 de dezembro de 2025.

Cena do espetáculo 'Noites de Circo apresentado durante a 9ª Pantalhaç@s | Foto: Tero Queiroz
Guga Morales em cena de "Noites de Circo", durante abertura da 9ª Pantalhaç@s | Foto: Tero Queiroz
Manu Montes e Guga Morales em cena de 'Noites de Circo' | Foto: Tero Queiroz