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ESPAÇO CULTURAL

Prefeitura de Ricardo Nunes "rouba" Teatro de Contêiner dos paulistanos

Grupo Munguzá denuncia impedimento de retirada de acervo e equipamentos

16 JAN 2026 • POR TERO QUEIROZ • 20h41
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Teatro de Contêiner Munguzá foi roubado dos paulistados pelo governo de extrema direita de Ricardo Nunes. Foto: Reprodução

O colorido industrial que rompia a paleta cinzenta da região da Luz, no centro de São Paulo, foi oficialmente apagado na 5ª feira (15.jan.26). Em um ato final que encerra quase 10 anos de uma das experiências mais radicais e revolucionárias de ocupação cultural da cidade, a Prefeitura de São Paulo, sob gestão do extremista de direita Ricardo Nunes (MDB), 'roubou' Teatro de Contêiner Munguzá dos paulistanos. 

O espaço, que desde 2016 funcionava como um híbrido de palco, centro comunitário e refúgio em meio à complexidade da chamada Cracolândia, foi lacrado por determinação da 5ª Vara da Fazenda Pública do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP).

A operação de retomada não ocorreu sem atritos. Segundo integrantes da Cia. Munguzá, o ato administrativo pegou o grupo no contrapé logístico. Embora a decisão judicial fosse conhecida, os artistas afirmam que não houve notificação prévia sobre a data exata da lacração, o que resultou no bloqueio do acesso aos pertences do grupo.

Equipamentos de luz, som, cenários e o acervo histórico da companhia permaneceram trancados dentro da estrutura agora interditada. O grupo preparava a transição para uma nova sede na Rua Helvétia, também no centro, mas foi impedido de concluir a mudança antes que os selos da Prefeitura fossem afixados. Veja como é o espaço: 

ATO HISTÓRICO

A relação entre o Teatro de Contêiner sempre foi de resistente latente aos desmandos de Nunes, que escalou drasticamente no último ano.

A batalha judicial culminou na redução do prazo de permanência do grupo. Uma liminar que inicialmente garantia 180 dias para a desocupação foi derrubada, reduzindo o tempo para 90 dias, prazo este que se esgotou agora.

IMPACTO NO TECIDO SOCIAL

Para especialistas em política cultural, o fechamento do Contêiner representa mais do que a perda de um endereço físico; é o desmonte de uma tecnologia social. Ao lado da ONG Tem Sentimento, o teatro não oferecia apenas espetáculos, mas cidadania. Era um ponto de intersecção onde a arte dialogava diretamente com populações vulneráveis, oferecendo banheiros, água e dignidade em um território conflagrado.

Ao longo de uma década, o Teatro de Contêiner provou que a arte pode ser um agente regulador da violência urbana, criando zonas de respiro onde a política de segurança pública falha.

O impacto do teatro mobilizou até nomes como Fernanda Montenegro e Marieta Severo, que enviaram cartas ao prefeito defendendo a permanência do grupo como essencial para a segurança e a vida do bairro.

OS GESTORES E ARTISTAS

Para o gestor do espaço Lucas Beda, o cenário no Centro ultrapassa a “higienização”.

“Estamos vendo um cenário de esterilização. Os lugares são cercados para não terem marcas das pessoas. É realmente o apagamento cultural do território". 

Em entrevista ao Brasil de Fato, Beda classificou a ação como uma “violação” e afirmou que o grupo tem sido criminalizado. Ele apontou uma contradição na gestão pública: enquanto secretarias de cultura investem no espaço via editais, outras pastas ordenam sua destruição.

“Isso causa um conflito de prioridades e um mau uso do recurso público. Como se empenha dinheiro em algo que está predestinado à destruição?”, questionou Beda. 

O projeto nasceu em 2016, quando a Cia. Mungunzá ocupou um terreno abandonado que servia como descarte de lixo. O local transformou-se em um premiado centro cultural que, ao longo dos anos, recebeu cerca de R$ 2,5 milhões em verbas públicas via editais. 

SUPOSTO FUTURO DO TERRENO

A justificativa oficial da gestão Ricardo Nunes para a retomada do imóvel é a destinação da área para a construção de unidades habitacionais populares e a revitalização do entorno. A alegação é de que o projeto visa combater o deficit de moradia no centro expandido.

Resta saber se a futura construção conseguirá preencher a lacuna subjetiva deixada pela saída da Cia. Munguzá, que agora busca reorganizar sua existência e resistência a poucos quarteirões para seguir projetando esperança história na selva de pedra.  

Fonte: Com Brasil de Fato.