Graciela Chamorro dedicou a vida à preservação da memória Guarani e Kaiowá
Sua obra ecoa em bibliotecas da América do Sul à Europa
10 FEV 2026 • POR TERO QUEIROZ • 11h13
A historiografia das populações originárias da Bacia do Prata perdeu, neta 3ª feira (10.fev. 26), uma de suas vozes mais importantes. Faleceu, aos 67 anos, a professora e pesquisadora Graciela Chamorro, que dedicou quatro décadas à tradução acadêmica e cultural dos universos Guarani e Kaiowá.
Docente da Faculdade Intercultural Indígena (FAIND/UFGD), Chamorro enfrentava um tratamento contra o câncer. A doença levou-a jovem, mas não antes que ela deixasse uma contribuição histórico e cultural de valor incalculável.
Sua obra ecoa em bibliotecas da América do Sul à Europa. Mais do que observadora, Graciela habitava as fronteiras culturais. Nascida no Paraguai, em 1958, veio para o Brasil em 1977, onde construiu sua trajetória acadêmica e militante.
Formou-se em Música, em 1981, e em Teologia, em 1982, ambas as graduações realizadas no Recife (PE). Entre 1983 e 1989, iniciou seu trabalho como ativista indígena e pesquisadora em Dourados (MS), quando estabeleceu vínculos com a comunidade Guarani-Kaiowá da Aldeia Panambizinho.
A partir da base empírica dos cantos, narrativas e costumes dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, doutorou-se em História, em 1994, e em Teologia, em 1997, ambos os títulos obtidos em São Leopoldo (RS).
Entre 1999 e 2005, foi docente na Academia de Missão da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, onde aprimorou o rigor metodológico no estudo das línguas indígenas. Posteriormente, realizou doutorado em Marburgo (ou Marburg em alemão) e pós-doutorado em Romanística, em Münster (Renânia do Norte-Vestfália), dedicando-se à análise de fontes escritas em línguas indígenas do século XVII.
Em 2014, realizou novo pós-doutorado na França, voltado ao estudo do vocabulário político presente nessas fontes históricas. Ao longo de sua carreira, dedicou-se de forma consistente à pesquisa sobre os povos Guarani e Kaiowá. Graciela tinha uma missão clara: documentar e salvaguardar a memória e a língua dos povos indígenas. E ela foi exitosa.
Desde 2015, presidia a Associação Casulo, em Dourados, onde coordenava ações artístico culturais junto aos povos indígenas.
Seus estudos sobre o conceito de Yvy Marã'ey — conceito central na cosmologia e na espiritualidade dos povos Guarani, incluindo os Kaiowá, Nhandeva e Mbya — ultrapassaram o campo teológico e tornaram-se documentos fundamentais para a compreensão da ocupação territorial em Mato Grosso do Sul.
Na UFGD, atuou como professora titular e teve papel central na criação e fundação da FAIND, a primeira faculdade do país voltada exclusivamente à formação de professores indígenas.
Distante da historiografia tradicional, a produção intelectual de Chamorro caracteriza-se pela imparcialidade científica aliada à sensibilidade cultural. Suas obras tornaram-se referências indispensáveis para a compreensão da resistência indígena, entre elas:
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Cuerpo social: história y etnografia de la organización social en los pueblos Guaraní (2018);
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Povos Indígenas em Mato Grosso do Sul: história, cultura e transformações sociais (2017);
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História Kaiowá: das origens aos desafios contemporâneos (2015);
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Decir el cuerpo - historia y etnografia del cuerpo en los pueblos guarani (2009);
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Terra madura, Yvyaraguyje: fundamento da palavra Guarani (2008);
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Kurusu Ñe'engatu, oalabras que la historia no podería olvidar (1995).
Entre outros títulos, que incluem o Dicionário Kaiowá-Português: singular tradutor da língua indígena para o português brasileiro.
Segundo a UFGD, a atuação de Chamorro foi decisiva para a implementação de políticas de ações afirmativas na pós-graduação. Chamorro também colaborou com o Ministério Público Federal (MPF) e com órgãos indigenistas, oferecendo embasamento histórico para a análise de conflitos fundiários sob a perspectiva da ocupação tradicional.
No plano pessoal, Graciela era casada com o professor Walter e deixa duas filhas, Arami e Jaciara. Sua morte gerou manifestações em redes acadêmicas internacionais, especialmente na Alemanha e no Paraguai, onde seus estudos sobre bilinguismo são amplamente citados.
A morte de Chamorro ocorre em um momento de fragilidade para a educação intercultural, marcada por desafios de financiamento e reconhecimento. Para a comunidade acadêmica de Dourados, a melhor homenagem à professora é a manutenção da FAIND como espaço de produção autônoma do saber indígena.
Graciela Chamorro alcançou o que poucos intelectuais conseguem: transformou a densidade acadêmica em instrumento de dignidade humana para os povos que estudou.
