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'O AGENTE SECRETO'

Carta revela elo do 'embaixador de Hollywood' com a ditadura no Brasil

Documento de 1972 revela que representante de Hollywood manteve contato com a ditadura militar no Brasil e informou autoridades sobre exibição de filme crítico ao regime

14 MAR 2026 • POR TERO QUEIROZ • 07h46
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Associação Brasileira Cinematográfica era a fachada da Motion Picture no Brasil.

Uma carta de 1972, guardada no Arquivo Nacional em Brasília, mostra que o principal representante de Hollywood no Brasil mantinha comunicação direta com a cúpula da segurança pública durante a ditadura militar.

O documento foi enviado por Harry Stone, então responsável no país pela Motion Picture Association (MPA), entidade que representava os grandes estúdios americanos.

O destinatário era o diretor-geral da Polícia Federal na época: o general Nilo Caneppa Silva, figura ligada à estrutura de censura do regime.

A correspondência foi localizada pelo pesquisador Marcelo Mello durante seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Entre os papéis, há um anexo vindo de Nova York com detalhes sobre a exibição do filme “O Caso dos Irmãos Naves”, dirigido por Luiz Sergio Person.

A sessão aconteceu no Carnegie Hall.

Lançado em 1967, o filme reconstrói a história real de dois irmãos torturados pela polícia durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. No início dos anos 1970, a obra vinha sendo exibida fora do Brasil em debates e mostras organizadas por exilados e críticos do regime militar.

Na pacata cidade de Araguari (MG), os irmãos Sebastião e Joaquim Naves denunciam à polícia o desaparecimento de seu sócio, com o dinheiro da venda de uma grande safra de arroz. De denunciantes passam a réus, depois que o tenente que investiga o caso chega à conclusão de que os dois mataram o sócio para ficar com o dinheiro. Barbaramente torturados, os irmãos confessam o crime que não cometeram e são condenados. O filme é baseado em um caso real, ocorrido em 1937 durante o Estado Novo, e considerado um dos piores erros jurídicos da história do Brasil.

O informe encaminhado por Stone menciona esse contexto. Diz que o longa estava sendo apresentado como exemplo de “brutalidade policial brasileira”.

Ao enviar o material ao comando da Polícia Federal, o executivo informava às autoridades onde e em que circunstâncias o filme estava sendo exibido.

Stone era, naquele momento, uma figura central na presença da indústria cinematográfica americana no país. Representava interesses de estúdios como Warner, Paramount e Universal e mantinha interlocução frequente com autoridades brasileiras.

Os documentos também indicam uma relação de proximidade.

Em um dos anexos, outro executivo ligado à Motion Picture Association, J. William Piper, refere-se ao general Caneppa em tom informal: “seu amigo, o general”.

Segundo pesquisadores que analisaram o material, esse contato era acompanhado de gestos de cortesia. Stone organizava sessões privadas de filmes para integrantes do governo e enviava cópias de produções americanas a militares de alto escalão.

Há registros de exibições da série 007 para o marechal Costa e Silva. Em outro episódio citado pelos pesquisadores, uma cópia do filme “O Corcel Negro” teria sido enviada ao general João Figueiredo, conhecido pelo interesse por cavalos.

Para Marcelo Mello e a pesquisadora Tarsila Araújo, que trabalham no documentário Os Ruminantes, o conjunto de documentos ajuda a entender o ambiente enfrentado por cineastas brasileiros críticos ao regime.

Luiz Sergio Person, diretor de “O Caso dos Irmãos Naves”, tentou pouco depois buscar financiamento nos Estados Unidos para um novo projeto — “A Hora dos Ruminantes”, inspirado no romance de José J. Veiga e com forte conteúdo alegórico sobre autoritarismo.

O projeto não avançou.

Não há evidência, segundo os pesquisadores, de uma política formal de colaboração entre os estúdios de Hollywood e a ditadura brasileira. Ainda assim, a correspondência mostra que informações sobre a circulação internacional de filmes brasileiros considerados sensíveis chegavam diretamente às mãos de autoridades do regime.

Inclusive quando vinham de quem representava a indústria do cinema americano no país.

Fonte: The Intercept Brasil