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'TERRITÓRIOS DA AMÉRICA MORENA'

Selecionado por galeria internacional, artista de MS quer 'reescrever o Pantanal'

Pesquisador une moda, fotografia e história em projeto de artes visuais

20 MAR 2026 • POR TERO QUEIROZ • 19h50
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Artista Tucco Pintanga exibe série sobre o Pantanal em Galeria de SC. Fotos: Reprodução | Tucco Pintanga

O artista, pesquisador e diretor criativo sul-mato-grossense Tucco Pitanga (Arthur Freitas) teve a série fotográfica “Territórios da América Morena” selecionada por uma galeria de arte internacional em Balneário Camboriú (SC).

"A exposição acontece na Design & Art, em Balneário Camboriú (SC), onde as obras ficarão expostas por cerca de um ano. Entre elas está a fotografia 'Terra: territórios de uma América Morena”', que integra o projeto Latinos do Pantanal decidi abrir o editorial com uma sessão fotográfica, antes de lança a coleção e o editorial", explicou Tucco, em entrevista ao TeatrineTV. 

Tucco Pintanga em imagem capturada pela avó. Foto: Marlene FreitasTucco Pintanga em imagem capturada pela avó. Foto: Marlene Freitas

De acordo com Tucco, as imagens selecionadas são inspiradas no Pantanal e nas identidades culturais da região de fronteira, conectando Mato Grosso do Sul a referências da América Latina.

A conexão com a galeria surgiu a partir de uma amiga de Tucco. 

"Ela [uma amiga] me avisou sobre a inscrição aberta e aí fui o artista selecionado do Brasil", contou. 

A galeria em questão tem 25 anos em atividade e possui o maior catálogo de arte do Brasil com mais de 15.000 opções de obras, que são comercializadas on-line para o Brasil todo e 20 países.

Para Tucco, o momento em que soube que havia sido selecionado foi indescritível:

"Foi um choque pra mim. Eu chorei muito quando recebi a notícia, foi um daqueles momentos que parecem irreais, sabe? Ainda nem caiu totalmente a ficha. Na hora, a primeira pessoa em quem eu pensei foi na minha avó — ela é tudo para mim, é minha maior inspiração, inclusive na fotografia. Quando contei pra ela, foi muito emocionante… ela simplesmente amou e chorou. Acho que esse momento não é só meu, é nosso, e abrir espaço, né", declarou.

Procurada pela reportagem, a galeria confirmou a seleção de Tucco: "Ele passou por seleção foi aprovado e faz parte da Galeria", disse.

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Questionado de quais foram os critérios utilizados na seleção, a correspondente da Galeria disse: "Temos uma equipe na Galeria que faz a curadoria.  Os critérios, detalhes e as informações são privadas". 

Ainda segundo a Galeria Design & Art, aos interessados, poderão ver e adquirir as obras de Tucco por meio do site: https://www.galeriadesign.art/

'REESCREVER O PANTANAL'

Além da exposição, o artista desenvolve novos projetos autorais, como um editorial de moda, uma campanha sobre latinos pantaneiros e uma coleção conceitual baseada em vestígios culturais da região.

Tucco Pintanga: 'Pantanal não é cenário: é sagrado.Tucco Pintanga: 'Pantanal não é cenário: é sagrado.

O trabalho de Tucco parte do cruzamento entre pesquisa acadêmica e criação visual. Estudante do último ano de História na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), ele usa a fotografia como ferramenta de registro e leitura do território.

Na prática, a pesquisa se transforma em ensaios fotográficos que combinam moda, cenário e narrativa.

Exposição de fotos de Tucco terá instalação de um ano na Galeria Design & Art, em Balneário Camboriú (SC). Foto: Tucco PitangaExposição de fotos de Tucco terá instalação de um ano na Galeria Design & Art, em Balneário Camboriú (SC). Foto: Tucco Pitanga

Para ele, “a moda não é tendência, é linguagem. Quando não é conceitual, vira só roupa. Eu uso a moda e a imagem para contar histórias”.

“E a história que me atravessa é a do Mato Grosso do Sul, um território marcado pela fronteira. Nossa identidade nasce dessa mistura de culturas indígena, paraguaia, pantaneira, urbana”, introduziu.

Entre os projetos em andamento está “Piratas do Sul”, que aborda a exploração histórica das riquezas naturais e simbólicas do Pantanal.

“Piratas do Sul nasce dessa sensação de que muita coisa foi tirada da gente, não só riqueza material, mas principalmente imagem, narrativa e identidade. Quando o mundo olha para o Pantanal, geralmente vê só destruição. O que eu tento fazer é construir outro olhar”, disse.

“Um olhar de potência, de cultura viva, de território que resiste”, acrescentou.

Segundo o artista, a produção também reage à estética mais comum associada ao bioma.

“Minha arte é uma forma de reivindicar esse lugar e dizer que o Pantanal não é só paisagem. É história, é povo, é patrimônio. E esse patrimônio vai muito além da natureza”, afirmou.

“Ele está nas pessoas, nos ribeirinhos, nas práticas culturais, na viola de cocho, nas formas de viver. Quando esse espaço é ameaçado, não é só o meio ambiente que sofre, é uma memória inteira que corre risco”, sustentou.

O debate também passa pela forma como o estado é visto no restante do país.

“Existe uma simplificação muito grande sobre o Centro-Oeste, como se fosse um lugar homogêneo. Mas o Mato Grosso do Sul é fronteira, é travessia, é mistura”, argumentou.

“A gente é atravessado por influências paraguaias, indígenas, pantaneiras, bolivianas, urbanas e até asiáticas. É um território ao mesmo tempo tradicional e contemporâneo”.

“Porque muitas das referências que o Brasil consome vêm daqui, mas raramente são reconhecidas como nossas”, apontou.

Na coleção “Vestígios”, ele usa a arqueologia como metáfora para discutir identidade.

“A gente não é margem. O Brasil ainda vai escutar o rugido do Pantanal".

Mesmo com a expansão do trabalho para outras regiões, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belém, ele diz que não pretende se afastar da origem.

“Para mim, crescer não é sair do lugar, é levar o lugar com você. Levo o Pantanal na minha estética, na minha memória e no meu corpo”.

“É essa sensação de casa que me acompanha e que eu também quero levar para o mundo”.

A relação com o território, segundo ele, vem de família.

“Meus avós são minha maior inspiração. Eles sempre me ensinam que a única coisa que ninguém pode tirar da gente é a nossa história”, revelou.

“Eu cresci cercado por criação, e isso me fez entender que, se eu não encontro o que busco, talvez seja meu papel criar”, ponderou.

Para Tucco, o trabalho também é uma disputa de narrativa.

“Se eu pudesse reescrever, eu começaria dizendo que o Pantanal não é vazio. Ele não é só natureza, nem paisagem. É cultura, memória e identidade”, comentou.

“Essa história precisa ser contada por outras mãos, por quem vive esse território”, defendeu.

Ele resume o movimento como uma retomada.

“O Pantanal não é cenário, é sagrado. E a nossa história não vai mais ser escrita de fora: agora é a gente que toma a palavra”, concluiu.