Sesc MS vende o último Cinema de Rua de Campo Grande
Apenas um lance foi dado. Conheça a história dos cinemas independentes e o que precedeu a venda do último na capital de MS
26 MAR 2026 • POR TERO QUEIROZ • 06h15
Campo Grande assistiu, na 4ª feira (25.mar.26), a um desfecho marcado por silêncio, pressa e desvalorização. Sem disputa real e com um único lance, o antigo Cine Campo Grande — último exemplar dos cinemas de rua da capital — foi vendido em leilão online por R$ 4.954.755,22, apenas R$ 10 mil acima do valor mínimo.
O imóvel, na Rua 15 de Novembro, foi arrematado sem concorrência. O edital, ao exigir pagamento imediato de 40% em até três dias e permitir compra sem vistoria, restringiu interessados. O que deveria ser disputa pública virou ato protocolar.
A venda encerra uma tradição urbana que moldou a identidade cultural de Campo Grande por mais de um século e sinaliza que sem políticas públicas efetivas de preservação, esses espaços desaparecem ou perdem seu sentido original, o que resulta no enfraquecimento da memória urbana e do patrimônio cinematográfico campo-grandense.
Cinema de Rua Campo Grande
Reconstrução da fachada do Cine Ideal, primeiro cinema de Rua de Campo Grande. O desenho é de Nicoly VargasA história do cinema na capital sul-mato-grossense começa de forma precária — e, ao mesmo tempo, simbólica. Em 1910, projeções improvisadas ao ar livre reuniam moradores diante de um tecido branco esticado entre árvores. Era o primeiro contato de uma cidade ainda em formação com a modernidade das imagens em movimento.
De acordo com a pesquisadora e cineasta Marineti Pinheiro, o Cine Brasil é primeiro Cinema de Rua de Campo Grande. Ela narra a história no curta-metragem Salas de Sonhos. O primeiro cinema da Capital foi transformado em uma igreja católica. Confira o filme abaixo:
Já em 1912, surgiu o Cine Ideal, 1º espaço fechado dedicado às exibições. Ir ao cinema, naquele momento, era mais do que entretenimento: era um ritual social. A elite agrária e uma classe média emergente encontravam nas salas escuras um espelho do mundo que aspiravam habitar.
Representação de como era a fachada do Cine Guarani. Foto: Marinete PinheiroEm 1914 surgiu o Cine Rio Branco, na Rua 13 de Maio.
Já em 1920 surgiu o Cine Guarani, que instalado na Avenida Afonso Pena, trouxe sofisticação ao circuito, com camarotes inspirados nos teatros tradicionais. Mais tarde, reformado pelos Irmãos Neder, deu origem ao Cine Central — um dos marcos da vida cultural da cidade por décadas.
Como era a fachada do Cineteatro Santa Helena de Campo Grande. Foto: ReproduçãoA consolidação do cinema como eixo da vida urbana da Capital de MS veio nos anos seguintes. Em 1929, o Cineteatro Santa Helena elevou o padrão das salas locais. Com capacidade para 1.300 pessoas, foi um dos primeiros edifícios planejados especificamente para abrigar cinema e teatro.
Uma performance teatral em frente ao Cine Santa Helena, na Dom Aquino, centro. Peça 'Foi no Belo Sul Mato Grosso'. Texto: Cristina Mato Grosso e direção: Américo CalheirosA presença do Santa Helena redefiniu o entorno da Rua Dom Aquino, até então associado à boemia marginalizada. O cinema reorganizou o espaço urbano, atraiu público e mudou a dinâmica da região.
Poucos anos depois, em 1932, o Cine-teatro Trianon ampliou a experiência cinematográfica. Em uma era ainda marcada pelo cinema mudo, sessões contavam com orquestras ao vivo. Músicos locais e maestros conduziam a trilha sonora das exibições, preenchendo os intervalos das trocas de rolos e criando uma experiência coletiva que ia além da tela.
A ruptura tecnológica veio em 1937. O Santa Helena, já sob nova direção, incorporou equipamentos que permitiam a exibição de filmes com som sincronizado. Era o fim das orquestras e o início de uma nova relação entre público e cinema.
Alhambra

Se houve um símbolo máximo dessa era, ele atende pelo nome de Cine Alhambra. Inaugurado em 1936, com capacidade para 1.700 espectadores, o espaço se tornou o principal polo cultural de Campo Grande por décadas.
Para além de um cinema, o Alhambra se converteu em palco de espetáculos, shows e eventos sociais. Durante o Carnaval, transformava-se em salão de festas. Sua programação ditava o ritmo do centro, influenciando comércio, circulação e vida noturna.

O destino do prédio, porém, antecipou o que viria a seguir. Em 1987, foi demolido para dar lugar a um empreendimento que nunca se concretizou. No lugar, restou um vazio — físico e simbólico.
Abandono institucional
Imagem do Cine Rialto lotado durante uma de suas sessões. Era considerado um cinema de elite. Foto: ArquivoA partir dos anos 1970, o modelo de cinema de rua começou a perder força. A televisão primeiro, e os shopping centers depois, alteraram o comportamento do público.
Salas tradicionais foram fechando ou mudando de função. O Cine Rialto, que chegou a exigir traje formal após reforma nos anos 1950, começou a ser escanteado pelo poder público.
Cine Acapulco, um dos mais importantes cinemas de rua de Campo Grande, também foi abandonado. Foto: Marinete PinheiroO Cine Acapulco, inaugurado em 1960, encerrou atividades em 1980 e hoje sobrevive em ruínas. Outros prédios foram demolidos, descaracterizados ou convertidos em usos comerciais e religiosos.
O padrão se repetiu: ausência de políticas de preservação, falta de tombamento e avanço da especulação imobiliária.
Cine Campo Grande e a promessa não cumprida
Ao longo de 13 anos, o Sesc MS colocou apenas tapumes e concertinas no prédio do Cine Campo Grande para então levar o prédio histórico a leilão. Foto: Tero QueirozÚltimo sobrevivente desse ciclo, o Cine Campo Grande encerrou suas atividades em 2012. Um ano depois, foi adquirido pelo Sesc MS sob a promessa de se tornar um centro cultural multifuncional.
A proposta previa manter salas de cinema, além de incorporar teatro, dança e atividades formativas. A expectativa mobilizou o setor cultural local.
Mas o projeto nunca saiu do papel.
Durante treze anos, o prédio permaneceu fechado. A justificativa oficial — ausência de estacionamento — foi contestada por artistas e produtores culturais, que apontavam o papel institucional do Sesc como agente de fomento, não de mercado.
Com o tempo, o abandono deixou de ser exceção e virou estratégia. O imóvel deteriorado perdeu valor simbólico e urbano, abrindo caminho para a venda.
Um leilão sob medida
Sem exigência de vistoria técnica e com condições financeiras rígidas, o edital afastou possíveis interessados independentes.
O resultado foi previsível: um único lance.
Além disso, o valor por metro quadrado ficou abaixo do praticado em áreas centrais da cidade, onde imóveis comerciais alcançam cifras significativamente mais altas. Houve subavaliação — intencional ou não — para acelerar a negociação diante da pressão dos trabalhadores do audiovisual contra a venda do cinema.
O fim de uma lógica urbana
Com a venda do Cine Campo Grande, Campo Grande encerra definitivamente o ciclo dos cinemas de rua. Não há mais salas desse tipo em funcionamento na capital.
O impacto vai além da cultura. Esses espaços eram elementos estruturantes do centro urbano — atraíam fluxo, iluminavam ruas, conectavam comércio e convivência.
Sua ausência acelera um processo já visível: esvaziamento, perda de identidade e fragmentação da vida urbana.
Um patrimônio convertido em ativo
A trajetória dos cinemas de rua na cidade segue um roteiro conhecido: ascensão, centralidade, abandono e desaparecimento.
O leilão de 2026 não é um ponto fora da curva — é o desfecho lógico de décadas de omissão e decisões orientadas por conveniência econômica.
O Cine Campo Grande, último representante dessa história, foi vendido como um ativo qualquer. Sem cláusulas culturais, sem garantias de preservação, sem compromisso com a memória.
O prédio está de pé, mas para o Sesc sua função, sua história e seu papel na cidade já foram liquidados.
Desta vez, o Sesc MS garantiu que não haverá sessão seguinte.
