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XAMÃS NO ESPAÇO

Indígenas de MS lançam álbum com europeus pioneiros da música eletrônica

Receita será destinada às comunidades indígenas 

19 ABR 2026 • POR TERO QUEIROZ • 08h56
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O álbum Shamans in Space reúne artistas internacionais e lideranças indígenas Guarani e Kaiowá em uma produção conjunta.

Desde de o sábado (18.abr.26) que está disponível para compra o álbum Shamans in Space (Xamãs no Espaço).

E neste 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, @ TeatrineTV celebra a artes como mecanismo de transformação e destaca esse projeto musical lançado internacionalmente numa colaboração entre anciãos Guarani e Kaiowá e artistas pioneiros da cena eletrônica europeia.

A iniciativa surge em um contexto em que a arte tem sido utilizada como meio de visibilidade para povos originários e também como espaço de debate sobre relações históricas entre Europa e América Latina.

Em Mato Grosso do Sul, estado que concentra a terceira maior população indígena do país, os Guarani e Kaiowá mantêm práticas culturais ligadas ao canto e ao uso de instrumentos tradicionais em rituais espirituais. Nessas comunidades, o som é compreendido como Mba'ekuaa termo associado à ideia de conhecimento ou tecnologia.

"Esta é a nossa Mba'ekuaa. Nossa tecnologia. Vocês têm a sua Mba'ekuaa, e nós temos a nossa", afirmou o xamã Nhanderu Tadeu, que participou do projeto.

O álbum reúne registros sonoros produzidos por lideranças indígenas junto aos produtores estrangeiros, numa visão decolonial, considerados pela história recente inimigos dos povos indígenas e capturadores de narrativas e produções artísticas.

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Mas nesse projeto, segundo os idealizadores, os cantos considerados sagrados não foram alterados durante a produção, e as faixas passaram por revisão dos anciãos envolvidos.

"A gente fez questão de que tudo seja construído com os anciãos, etapa por etapa. Eles são os diretores de tudo", afirmou a pesquisadora Fabi Fernandes, que acompanha o projeto.

As gravações incluem o uso de instrumentos como o mimbí (apito), o maraká (chocalho) e o takuapu (bastão de bambu), elementos presentes em práticas rituais dos Guarani e Kaiowá.

Vamos lembrar que nas tradições dos Guarani e Kaiowá, o som é utilizado em contextos espirituais e de organização da vida comunitária.

Vale destacar também que essa união entre músicos europeus e indígenas sul-americanos ocorre em um momento em que instituições culturais do continente têm ampliado parcerias com povos indígenas, frequentemente apresentadas como iniciativas de intercâmbio ou cooperação.

O álbum foi produzido durante encontros realizados em estúdio e em ambientes de pesquisa, com envolvimento de pesquisadores e produtores culturais.

No caso deste projeto, os responsáveis informaram que parte da receita será destinada às comunidades indígenas participantes.

A reportagem d@ TeatrineTV fez buscas em sites de comercialização do álbum, e o disco está sendo comercializado por 13.64 euros, o que equivale a R$ 79,95 numa conversão realizada neste dia 19 de abril.

"A transmissão xamânica indígena encontra a música eletrônica pioneira em uma colaboração multicultural única, abrindo um portal entre o ritual e os futuros eletrônicos", disse os organizadores do projeto numa publicação no Facebook.

Uma prévia de 6 minutos do álbum, foi lançada em 9 de abril no canal Liquid Sound Design (LSD), nome do selo criado em 1998 por Youth (Martin Glover), produtor que trabalhou com nomes como Pink Floyd e também integra projetos ligados a Paul McCartney.

E nesse canal, explicou-se que o albúm Shamans in Space é:

"Resultado de um encontro intercultural, um diálogo entre mundos possibilitado pelo som. A colaboração surgiu a partir do projeto "Sounding Futures", coordenado pelo laboratório de Antropologia Multimídia da University College London (UCL)".

Ainda conforme apuração, o primeiro encontro entre os anciãos Guarani e Kaiowá do Brasil com dois nomes pioneiros da música eletrônica do Reino Unido, Youth (Martin Glover) e Matt Black, aconteceu em outubro de 2024, em um laboratório de som ambisônico na UCL, seguido por uma sessão improvisada no estúdio de Youth, que deu origem à base do disco.

O projeto também conta com a participação do músico Tymon Dogg, que atuou ao lado do The Clash, e do rapper indígena Kelvin Mbaretê, do primeiro grupo de Rap indígena do Brasil, Brô MC's.

Kelvin destacou o caráter espiritual do encontro.

"A música deixa de ser só música. Ela vira reza, vira mensagem, vira cura", afirmou.

Segundo ele, o projeto também amplia a visibilidade das pautas indígenas.

"Antes, nossa luta era ouvida só aqui. Hoje, com a música, o mundo começa a ouvir".

Já Youth comentou o processo de criação a partir do contato com os rezadores.

"Sempre senti que o som tem um efeito de cura e regeneração. A música pode nos reconectar com nós mesmos, com a Terra e com o cosmos", disse.

FICHA TÉCNICA 

As composições são assinadas por Youth (Martin Glover), Matt Black, Tymon Dogg e pelos xamãs Guarani e Kaiowá.

A produção e os arranjos ficaram a cargo de Youth, com produção adicional de Matt Black. A gravação e engenharia de som também foram realizadas por Youth.

A mixagem foi feita por Youth e Matt Black no Meridian Studios. A masterização é de Graham Collins, pelo estúdio 4DA.

O projeto gráfico e o design são de Katy Hearne, com layout e capa adicionais assinados por Robin Triskele.

O álbum foi lançado em 2026 pelo selo Liquid Sound Design.

Faixas do álbum: