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"ATRIZ DE QUINTA"

Em protesto pela memória, atriz estreia monólogo sobre Beth Terras

'Quase filha', relação da protagonista e da mestre atravessa todo o processo criativo

27 ABR 2026 • POR TERO QUEIROZ • 12h26
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Giovanna Zottino estreia o solo 'Atriz de Quinta Beth Terras por Trás das Luzes'. Fotos: Reprodução (Uma das imagens criadas com IA)

A atriz Giovanna Zottino estreia o solo “Atriz de Quinta – Beth Terras por Trás das Luzes” às 19h do domingo (3.mai.26), no Teatro Aracy Balabanian, no Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande (MS).

Segundo apurado pela reportagem, o espetáculo aborda a trajetória da fundadora do grupo ADOTE, atriz, diretora, dramaturga e professora, Beth Terras (Elisabeth Cristina Chiesi Terras), que faleceu aos 65 anos, em setembro de 2024.

O título, como defendeu Zottino, nasce diretamente da história construída por Beth Terras nos palcos.

Para a atriz, a referência é inevitável.

"Tem tudo a ver com a Beth Terras. Primeiro de tudo que a Beth criou e construiu o espetáculo Arte de Quinta — arte de quinta categoria — que foi o maior sucesso do grupo, que teve várias edições durante anos, que esse ano completa 19 anos de existência".

O espetáculo não tenta organizar essa história de forma cronológica rígida — prefere circular entre lembranças, afetos e episódios que ajudam a desenhar a figura da artista e da mulher.

Nesse percurso, o impacto do projeto mais popular do grupo aparece como eixo.

"O Arte de Quinta, [espetáculo] que foi muito importante para a história do grupo. Teve um público fiel assistindo, prestigiando. O Arte de Quinta antigamente acontecia três vezes por mês, duas vezes por mês, e o público ia, se divertia, amava".

Fundadora do grupo ADOTE, Beth Terras, segura cartaz de anúncio ao espetáculo 'Arte de Quinta'. Foto: Arquivo/ AdoteFundadora do grupo ADOTE, Beth Terras, segura cartaz de anúncio ao espetáculo 'Arte de Quinta'. Foto: Arquivo/ Adote

O monólogo alterna registros, ora mais contido, ora mais expansivo, conforme revisita personagens e situações que marcaram a vida de Beth Terras, incluindo a relação com a comédia Arte de Quinta.

Ao lembrar a recepção do espetáculo, Zottino apontou um contraste.

"Ao mesmo tempo que era um espetáculo muito amado, era também muito criticado. Por ser uma comédia do povão, do cotidiano, onde a gente fala da gente para a gente, ou seja, a gente representa o público no palco".

A direção do monólogo é de Rapha Oliveira, que propõe esse jogo entre presença e ausência, com mudanças de tom e ritmo para evitar que a narrativa se acomode.

É também nesse ponto que surge o próprio título da montagem.

"Então, eu acho que nada mais do que chamar esse espetáculo de atriz de quinta, para homenagear o arte de quinta e também para fazer uma crítica, de que a Beth sempre foi vista como essa artista de quinta categoria, porque fazia comédia para o povo, humor do cotidiano, porque fazia teatro para o povo e ela sempre foi muito criticada".

O resultado caminha entre o riso e um certo peso inevitável de quem olha para trás. Haverá momentos mais leves, quase anedóticos, mas também passagens que encostam em perdas e despedidas — sem dramatização excessiva.

Beth Terras e Giovanna Zottino na audiência em prol de uma lei que solucione o abandono aos artistas idosos de MS. Foto: Tero Queiroz(5.set.23) — Beth Terras e Giovanna Zottino na audiência em prol de uma lei que solucione o abandono aos artistas idosos de MS. Foto: Aly Freitas

Outro trabalho da trajetória de Beth Terras também atravessa a encenação.

Sobre essa conexão, Zottino explicou:

 "Beth Terras Por Trás das Luzes tem dois significados. Primeiro, que Por Trás das Luzes foi um espetáculo que a Beth fez, um espetáculo que tem tudo a ver com a trajetória dela e a outra pessoa que fez esse espetáculo com a mesma personagem da Beth fui eu, é um espetáculo muito especial e muito importante para nossa relação, para nós duas, onde ela me dirigiu, onde ela fez esse personagem".

A produção é assinada por Daniel Smidt, com realização da Companhia Teatral Ator Domingos Terras (ADOTE), grupo que carrega o nome do avô de Beth Terras, veterano do cinema nacional conhecido por estrelar títulos como “A Baronesa Transviada”, com roteiro de Chico Anysio, entre outros.

A relação entre atriz e homenageada atravessa todo o processo criativo.

"É uma conexão muito grande entre a gente. A Beth era apaixonada por esse espetáculo, pelo Por Trás das Luzes, pela personagem Madame Helene".

A proposta, segundo ela, também passa por revelar camadas menos visíveis da artista.

Nesse sentido:

"As pessoas vão conhecer o que existe por trás da Beth que todo mundo conhecia, que era vista sempre com humor, sempre cômica, sempre com alegria ou sempre muito explosiva, mas não viam outros lados de Beth Terras: as perdas, os lutos, as batalhas, as lutas, as tristezas, os choros".

Os ingressos estão no primeiro lote, com valores a partir de R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), com vendas até o dia da apresentação. Clique AQUI para comprar

Além da personagem central, a atriz ampliou o jogo em cena. 

“Porque no espetáculo eu não faço apenas a Beth, mas também as personagens que ela fez durante a vida".

Carioca radicada sul-mato-grossense, Beth Terras formou muitos artistas da cena em MS. E a base do texto vem de vivências pessoais.

"Eu conto desde o dia que ela nasceu até o dia em que ela partiu. E essas histórias que eu conto no espetáculo são histórias que ela me contou, tomando um café, na sala de ensaio, ou almoçando, ou viajando juntas, ou saindo juntas, porque éramos muito amigas. Então, todas essas histórias ela me contou. Eu não vi em nenhum lugar. Foram histórias pessoais que ela me contou sobre a vida artística e a vida pessoal também".

Ao olhar para fora da cena, Zottino também tensiona a forma como a memória de Beth Terras vem sendo tratada.

Para Zottino, a memória da Beth deveria ser mais vista.

"Ela deveria ser mais lembrada. Porque a Beth foi uma das grandes atrizes do Mato Grosso do Sul. Ela passou quase toda sua carreira aqui formando atores, fazendo espetáculos, fazendo essa comunicação entre o povo e a arte".

Sede da ADOTE é inaugurada em memória de Beth Terras. Foto: Tero Queiroz(13.jul.25) — Sede da ADOTE é inaugurada em memória de Beth Terras. Foto: Tero Queiroz

A trajetória, segundo a atriz, foi marcada por resistência diante do abandono institucional. 

"Ela sempre esteve trabalhando, a Beth nunca parou sem incentivo público, sem edital, sempre na raça, vendendo ingresso, fazendo o que podia. Então ela foi realmente uma lutadora da arte, uma operária do ofício".

Mesmo assim, a percepção é de reconhecimento desigual.

"Eu acho sim que ela merecia ter mais projetos e mais homenagens, mas eu sinto que a comunicação em si tem um carinho muito grande pela Beth, a imprensa tem um carinho muito grande pela Beth, mais do que talvez o próprio mundo artístico".

A crítica se aprofunda na dimensão pessoal e política dessa trajetória.

"Eu sinto falta dessa valorização, mas a Beth foi muito criticada e muito esquecida por ser a mulher que ela era, uma mulher sem papas na língua, que não aturava desaforo, sempre à frente de projetos, festivais e espetáculos. Então, ela foi sim muito esquecida, muito criticada. Depois do falecimento, existe essa lembrança, mas ela é pouco falada".

No palco, essa complexidade se traduz em forma.

"Esse espetáculo é um espetáculo com um gênero trágico cômico. Tem momentos de muita comédia e humor, mas também pontos de drama, de tragédia, de revolta".

O trabalho também marca um movimento pessoal da atriz.

"Primeiro de tudo é me desafiar. A Beth sempre me incentivou a fazer minhas próprias coisas, meus próprios personagens, meus próprios espetáculos. Confesso que sempre tive receio de fazer um monólogo, mas, lembrando dos ensinamentos da Beth, percebi que precisava fazer isso", comentou. 

A motivação passa também por uma escolha de lugar.

"Acho que isso que me motiva mais: contar a história da Beth Terras, pela minha visão. Eu pensei que muitas pessoas podem fazer um espetáculo sobre Aracy Balabanian, Glauce Rocha, Conceição dos Bugres, mas só eu ou a Kiohara podemos fazer um solo sobre a Beth Terras", avaliou.  

E a homenagem se impõe como resposta.

"Então, por que não homenagear essa pessoa que me colocou no palco, que me fez artista, que me ensinou a estar entre as luzes e por trás delas?". 

A data da estreia também foi pensada como um gesto pela valorização de Beth:

"Dia 3 de maio era o aniversário de vida da Beth, onde ela comemorava o aniversário do ADOTE e do Arte de Quinta. Então, é uma data muito especial".

Por fim, a atriz ampliou o alcance do espetáculo para além da homenagem individual.

"A meta é que as pessoas entendam não só a história de Beth Terras, mas também a de qualquer artista que vive da própria arte numa cidade que não consome teatro. Então, eu acho que esse espetáculo é para todo mundo, para quem conheceu e para quem não conheceu, e para que as pessoas entendam o quanto é difícil ser artista nesse mundo", concluiu.