Festival bate o FIC e OSC paulista custa R$ 11 milhões à Cultura em MS
Organização teve contrato ampliado em 62% em relação ao ano passado
28 ABR 2026 • POR TERO QUEIROZ • 13h30
A Associação dos Artistas (CNPJ: 03.890.545/0001-09) teve, na 2ª feira (27.abr.26), o aditamento para R$ 11 milhões do contrato de execução do 19º Festival América do Sul (FAS 2026), em Corumbá (MS). A prova.
O festival ocorre de 14 a 17 de maio na Cidade Branca e já chamava atenção pelos altos cachês das atrações musicais. Entenda abaixo.
Em 2025, a mesma Organização da Sociedade Civil (OSC), sediada em Santos (SP), já havia realizado o festival sul-mato-grossense e, por meio do que a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) classifica como 1º termo aditivo ao termo de colaboração, teve a parceria prorrogada até 30 de outubro de 2026, além de um aumento de cerca de 62% no valor do plano de trabalho, que passou de R$ 6,8 milhões para R$ 11 milhões. A prova.
Um dos pontos criticados na execução do FAS 2026 é o valor repassado às atrações musicais. Para apenas duas atrações — DJ Dennis (Dennison de Lima Gomes) e o pagodeiro Dilsinho (Dilson Scher Neto) — serão pagos, juntos, R$ 1 milhão, sendo R$ 550 mil para Dennis (a prova) e R$ 450 mil para Dilsinho (a prova
).
Esse valor das atrações ditas “nacionais” não está incluso nos R$ 11 milhões repassados à Associação dos Artistas. Ou seja, o FAS 2026 já custa, por alto, R$ 12 milhões aos cofres públicos da cultura, superando o valor da última edição do Fundo de Investimentos Culturais (FIC), único mecanismo público “democrático” de fomento à cultura em MS.
O último FIC, lançado em 2024 e, que se arrasta pelos últimos dois anos, foi de R$ 11 milhões — sendo R$ 8,2 milhões destinados a pessoas físicas e R$ 2,8 milhões a pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos.
A diferença entre os modelos é que o FIC distribui recursos a mais de uma centena de projetos, enquanto o FAS concentra a maior parte do orçamento em estrutura e na OSC paulista presidida por Arnaldo Catalan Júnior, ex-chefe da Cultura de São Manuel (SP), que deixou o cargo em 2025 e hoje comanda a entidade — atualmente a principal parceira da FCMS. Após sair da prefeitura, inclusive, um vereador de São Manuel indicou a Associação dos Artistas como “melhor candidata” para conduzir um certame de professores de arte no município. A prova.
As atrações artísticas ditas "locais", que além da música devem incluir espetáculos de teatro, dança, circo, cultura de rua e artistas LGBT+, serão selecionadas e pagas pela Associação dos Artistas. Diferentemente dos chamados "artistas nacionais", os artistas que residem em Mato Grosso do Sul devem receber cachês menores e se apresentar de forma intercalada entre os shows de DJ Dennis, no dia 15, Marcelo D2, no dia 16, e Dilsinho, no dia 17. A reportagem não localizou o valor do cachê que será pago a Marcelo D2.
ORIGEM DESSA OSC E MODELO DE INVESTIMENTO PÚBLICO
Presidente da Associação dos Artistas, Arnaldo Catalan Júnior é ex-diretor de Cultura no município de São Manuel. Foto: ReproduçãoO TeatrineTV apurou que a Associação dos Artistas, fundada em 2000, originou-se de um grupo de músicos do litoral paulista que se rebelou contra a atuação da Ordem dos Músicos do Brasil. Desde então, a associação expandiu seu escopo para incluir artistas de diversos segmentos, como teatro, dança, artes visuais e artesanato, se transformando, portanto, na Associação dos Artistas.
Em 2024, o presidente da Associação dos Artistas, Arnaldo Catalan Júnior, que à época também era diretor de Cultura no município de São Manuel, afirmou que sua OSC pretendia renovar a realização de festivais no estado. Na prática, porém, não há evidências públicas de que eventos como o FAS tenham gerado políticas estruturantes para Corumbá. O modelo adotado tem priorizado a lógica de grandes atrações e estrutura, sem registro consistente de ações voltadas à preservação da memória local, à valorização do artista corumbaense ou ao diagnóstico dos entraves de acesso à cultura na Cidade Branca.
Em termos de política pública, o fomento do FIC tem demonstrado maior capilaridade na distribuição de recursos e geração de renda do que os festivais. Ainda assim, é nesse modelo — que o TeatrineTV classifica como “eventismo” — que o governo do estado tem concentrado a maior parte dos recursos que poderiam ser destinados ao trabalhador local da cultura.
