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FESTIVAL AMÉRICA DO SUL

Hip-hop denuncia abandono da cultura periférica em Corumbá

Sem batalhas de rima, breaking ou editais específicos para a cultura urbana

19 MAI 2026 • POR TERO QUEIROZ • 21h15
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(16.mar.26) - Big Jhow e Cotidiano Difícil realiza show-protesto no 19º Festival América do Sul (FAS), em Corumbá.
Confira essa entrevista em vídeo no Instagram do @teatrinetv.

Enquanto artistas nacionais recebiam cachês milionários na 19ª edição do Festival América do Sul (FAS 2026), em Corumbá (MS), coletivos da cultura de rua ocuparam o evento com um recado direto à Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS): o hip-hop pantaneiro segue vivo, mesmo tratado como peça secundária dentro do principal festival cultural realizado na cidade branca.  

Sem espaço oficial para batalhas de rima, sem competições de breaking e sem editais específicos para elementos históricos da cultura hip-hop — manifestações já consolidadas em Corumbá — artistas locais transformaram uma apresentação musical em protesto público contra o esvaziamento da cena periférica dentro do festival.

(16.mai.26) - Big Jhow realizou o show 'Tributo ao Pantanal' durante a 19ª edição do Festival América do Sul (FAS), em Corumbá (MS). Foto: Tero Queiroz(16.mai.26) - Big Jhow realizou o show 'Tributo ao Pantanal' durante a 19ª edição do Festival América do Sul (FAS), em Corumbá (MS). Foto: Tero Queiroz

O ato foi liderado pelo rapper corumbaense Big Jhow, conhecido como “Poeta do Morro”, durante o penúltimo dia do evento, no sábado (16.mai.26).

“Foi um grito de protesto pela Batalha do Porto. Como nós somos resistência, somos menos favorecidos, nada mais que nós fizemos um movimento independente”, declarou.

Segundo o artista, a ausência de espaço institucional para os coletivos urbanos obrigou os próprios artistas a criarem formas alternativas de presença dentro do festival.

“Como nós levamos o hip-hop da quebrada para as periferias e para o centro, a forma mais vista para nós, que fomos esquecidos dessa forma, é o protesto pela intervenção”, resumiu.

O discurso ecoou entre artistas convidados de outros estados que acompanharam a movimentação cultural em Corumbá. Integrante do coletivo Obsecados no Picho, o artista de rua D Walker, radicado em São Paulo, avaliou que o hip-hop local enfrenta interferências políticas que enfraquecem a cena.

“A interferência que está tendo na cultura hip-hop às vezes vem de uma alfinetada de um governo, de uma pessoa que está de boicote”, afirmou.

Para ele, o festival perdeu a oportunidade de fortalecer manifestações periféricas já existentes na cidade.

“Poderia ter sido um evento muito maior, muito mais celebrativo, para fortalecer o vínculo do nosso país, do nosso Estado sul-mato-grossense”, observou.

Nascido em Iguatemi (MS), D Walker disse reconhecer em Corumbá uma resistência semelhante à das periferias paulistas.

“Ninguém que está ligado a nós está para dividir, está para somar”, acrescentou.

“UM GRITO DE SOCORRO”

(16.mai.26)  B-boy Manha dança breaking em protesto pela ausência da linguagem no Palco América, no Porto Geral de Corumbá (MS), durante a 19ª edição do Festival América do Sul (FAS). Foto: Tero Queiroz(16.mai.26) - B-boy Manha dança breaking em protesto pela ausência da linguagem no Palco América, no Porto Geral de Corumbá (MS), durante a 19ª edição do Festival América do Sul (FAS). Foto: Tero Queiroz

Outro nome da cena corumbaense, o artista de rua, b-boy Manha, do Coletivo Cotidiano Difícil, classificou a situação cultural da cidade como um processo de abandono gradual das periferias pelo poder público.

“O evento pode estar bonito aos olhos de vocês, mas para nós que estamos aqui na cidade está muito fraco, muito carente de cultura”, criticou.

Segundo ele, o discurso de restrição por causa do calendário político se tornou recorrente para justificar cortes e ausência de investimentos em manifestações populares.

“A desculpa é porque é ano político. Quantas vezes vão usar essa desculpa?”, questionou.

Durante a apresentação, Manha subiu ao palco com uma sacola vazia, símbolo do que chamou de “carência cultural” enfrentada pelos artistas locais.

“O homem pantaneiro começa cru, com a sacolinha vazia. No final da apresentação eu vi que ela estava rica de conhecimento, de pessoas que estavam assistindo e de pessoas como a gente em cima do palco”, relatou.

(16.mai.26)  MC Gabyzeira canta no Palco América, no Porto Geral de Corumbá (MS), durante a 19ª edição do Festival América do Sul (FAS). Foto: Tero Queiroz(16.mai.26) — MC Gabyzeira canta no Palco América, no Porto Geral de Corumbá (MS), durante a 19ª edição do Festival América do Sul (FAS). Foto: Tero Queiroz

A artista de rua e trancista MC Gabyzeira também reforçou o discurso de resistência periférica e protagonismo feminino dentro da cultura urbana pantaneira.

“Estou aqui representando a voz feminina, ribeirinha, a voz pantaneira feminina, lembrando da resistência, dos esquecidos”, afirmou.

“PEDACINHO DO BOLO”

(16.mai.26) - Big Jhow protesta em defesa do hip-hop durante show no Palco América, no Porto Geral de Corumbá (MS), durante a 19ª edição do Festival América do Sul (FAS). Foto: Tero Queiroz(16.mai.26) - Big Jhow protesta em defesa do hip-hop durante show no Palco América, no Porto Geral de Corumbá (MS), durante a 19ª edição do Festival América do Sul (FAS). Foto: Tero Queiroz

A crítica mais direta surgiu novamente na fala de Big Jhow, ao comparar os investimentos feitos em atrações de fora do estado com a realidade enfrentada pelos coletivos independentes da cidade.

“Enquanto tem artista aí ganhando R$ 500 mil, a gente tem que dividir uma quantia, uma fatia, para todo mundo pegar um pedacinho do bolo”, disparou.

Sem citar nomes, o rapper criticou a lógica de concentração de recursos em grandes atrações enquanto movimentos culturais permanentes da cidade seguem sem estrutura institucional dentro do festival.

“Nosso grito é o grito de protesto do menos esquecido. Vamos dar voz ao nosso povo, ao nosso movimento”, declarou.

Mesmo fora da programação oficial das modalidades históricas do hip-hop, os artistas encerraram o ato reafirmando a continuidade da cena cultural periférica em Corumbá.

“Pode ter certeza que ano que vem nós vai voltar mais pesado, com várias histórias para contar. É a resistência da periferia”, concluiu Big Jhow.

Na tarde do sábado (16.mai.26), o Coletivo Cotidiano Difícil também organizou uma batalha de breaking de maneira independente no Porto Geral, visando dar visibilidade à cultura, e atraiu o público que passava pela rua. Veja a cobertura fotográfica do show e da batalha de breaking na galeria abaixo. O uso das fotos é gratuito, com créditos obrigatórios para @teroqueiroz e @teatrinetv.

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