Estreia em MS revela: 'Mulheres sentem medo até de mostrar a própria arte'
"Queríamos discutir redes de apoio entre mulheres", dizem criadoras
20 MAI 2026 • POR TERO QUEIROZ | ALY FREITAS • 23h12
A culpa diante do descontrole. O medo de ocupar espaços. A violência que atravessa até uma mesa de jantar. É desse lugar íntimo e também coletivo que nasce o espetáculo "Da Solitude à Companhia: Poéticas de um Encontro Feminino", criado pelas bailarinas Irys Cerqueira e Nathália Navarro, que estreia neste sábado (23.mai.26), no Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande (MS).
A apresentação começa às 19h, com entrada solidária mediante a doação de 1 kg de alimento não perecível destinado à Mulheres da Favela MS. Antes, às 18h, o espaço recebe uma Feira Criativa com oito mulheres artistas, artesãs e comerciantes convidadas pelo projeto.
Em entrevista ao TeatrineTV, Irys e Nathália falaram sobre transformar afeto entre mulheres em linguagem cênica.
"O espetáculo nasceu antes da ideia de espetáculo", resumem ao lembrar do início da parceria.
As duas se conheceram durante a graduação em Dança na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).
"Desde o dia em que nos conhecemos, tivemos uma aproximação muito espontânea, que rapidamente se tornou um vínculo de cumplicidade. Foram anos dividindo aulas, trabalhos, ensaios, projetos de extensão e também a descoberta de Campo Grande nessa nova etapa da vida", declararam ao TTV.
Foto: Divulgação Da convivência veio a criação.
"Havia em nós um desejo de criar juntas e decidimos falar sobre como essa cumplicidade entre mulheres pode se tornar potência. Embora o espetáculo parta de experiências pessoais, ele dialoga com vivências comuns a muitas mulheres", afirmaram.
A dramaturgia nasceu justamente desse encontro entre memória pessoal e experiência cotidiana.
"Cada pessoa carrega consigo a bagagem do que viveu, e isso inevitavelmente atravessa o outro. Assim surgiu a ideia de mostrar conflitos humanos, cotidianos e afetivos, entendendo que, quando passamos a escutar umas às outras, podemos transformar dor em apoio, acolhimento e força", argumentaram.
E não existe direção externa. O espetáculo foi construído pelas duas, num processo guiado pela própria relação de vários anos de amizade.
"Embora reconheçamos a importância de um olhar de fora em um processo criativo, o espetáculo não possui direção externa. O processo foi conduzido por nós duas, a partir das nossas vivências, pesquisas corporais e da própria relação de cumplicidade que atravessa a obra", salientaram.
Foto: DivulgaçãoSem a "poda" de uma direção tradicional que geralmente visa chegar "em algum lugar pré-determinado" , as artistas dizem que o espetáculo foi sendo construído de maneira orgânica.
"Revisitamos memórias, testamos cenas, conversamos sobre os atravessamentos do processo e fomos entendendo juntas o que fazia sentido permanecer na obra", disseram.
Segundo as bailarinas, a linguagem também nasceu desse lugar de liberdade.
"Diríamos que é mais dança, especificamente Dança Contemporânea, embora o espetáculo dialogue com elementos performativos. Existe um lugar de escuta, presença e abertura para o que surge em cena", explicaram.
No percurso, disseram as artistas, a intenção foi se permitir experimentar.
"Somos artistas da dança, mas não quisemos nos limitar ao que pode ou não ser chamado de dança. Se havia vontade de experimentar determinada ação em cena, nos permitimos fazer. Acreditamos que isso também é criar em Dança Contemporânea: ouvir os próprios corpos e trazer elementos de outras linguagens", definiram.
Foto: DivulgaçãoAo longo da entrevista, a palavra "medo" aparece mais de uma vez: medo da reprovação; medo de mostrar a própria arte; medo de ocupar espaços...
Para Irys e Nathália, ser mulher e artista em Mato Grosso do Sul é um ato de enfrentamento continuado.
"As memórias encenadas no espetáculo dialogam diretamente com os medos, inseguranças e atravessamentos que muitas mulheres artistas vivem, inclusive durante o próprio processo criativo. Ao longo da construção da obra, percebemos o quanto também fomos mobilizadas pelo medo da reprovação, pela necessidade de validação e pelo receio de receber tratamentos diferentes em determinados espaços", comentaram.
E criar livremente aparece como forma de reação.
"Isso nos fez refletir sobre como, muitas vezes, mulheres acabam sentindo medo até mesmo de mostrar a própria arte, ocupar espaços e se expressar livremente, mesmo sem estarem fazendo nada de errado. Enquanto isso, pessoas que violentam, silenciam ou diminuem mulheres frequentemente não parecem carregar esse mesmo receio", lamentaram.
Em cena, o cotidiano aparece sem abstração.
"Há uma cena no espetáculo que fala sobre estafa, autocontrole, culpa diante do descontrole e sobrecarga no cotidiano. Ela parte de um lugar pessoal da intérprete, mas dialoga com experiências compartilhadas por muitas mulheres. Existe também uma cena que aborda relatos de violências sofridas diariamente. São situações muitas vezes naturalizadas, mas que revelam estruturas presentes no dia a dia", adiantaram.
Em outro momento, a violência surge dentro de casa.
"Outro texto do espetáculo surgiu diretamente de uma experiência cotidiana, em uma mesa de jantar. A violência aparece de forma orgânica porque ela também faz parte da realidade cotidiana das mulheres", contaram.
Foto: Divulgação Ainda assim, elas insistem que o trabalho não pretende ficar preso apenas ao autobiográfico.
"Embora as cenas partam das intérpretes, elas rapidamente deixam de ser apenas individuais e passam a dialogar com algo coletivo", avaliaram.
E, observam também, que o espetáculo não fala apenas sobre violência.
"Existe um lugar de encorajamento, libertação e rompimento de aprisionamentos que atravessam o ser mulher e o ser mulher-artista", apontaram.
Questionadas sobre o caráter político do espetáculo, as bailarinas são diretas.
"Sim. O espetáculo entende o encontro entre mulheres como um ato político porque fala sobre presença, escuta, acolhimento e sustentação mútua. Queremos discutir como essas redes de apoio são importantes no cotidiano, nos desafios emocionais, nas violências vividas, na celebração da vida e também no ser mulher-artista", afirmaram.
Foto: Divulgação Essa ideia também atravessa as ações paralelas do projeto. Além da apresentação, haverá oficina, feira e arrecadação solidária.
"Na feira, oito mulheres, entre artesãs, artistas e comerciantes, estarão expondo seus trabalhos. Houve essa escolha para reforçar o desejo de que mais mulheres possam ter espaço e oportunidade para mostrar o que produzem", explicaram.
A oficina surgiu como tentativa de ampliar o contato com o público e compartilhar processos criativos.
"Também entendemos essas ações como formas de fortalecer a circulação de saberes e incentivar a produção artística local", disseram.
Já a arrecadação destinada à Mulheres da Favela MS busca fazer o espetáculo ultrapassar o palco.
"Queríamos que o espetáculo não se encerrasse apenas na cena, mas também pudesse gerar impacto social e fortalecer redes de apoio dentro da comunidade. A parceria surgiu desse desejo de conectar arte e ação social", detalharam.
Depois da apresentação, o público participa de uma roda de conversa.
"Gostaríamos que a roda de conversa fosse um espaço seguro de troca, acolhimento e escuta. Também esperamos ouvir diferentes interpretações sobre a obra, porque entendemos que o espetáculo não se fecha em uma única leitura", finalizam Irys e Nathália.
"Da Solitude à Companhia: Poéticas de um Encontro Feminino" foi financiado com R$ 40 mil oriundos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Ministério da Cultura (MinC), no governo do presidente Lula (PT), por meio de edital da Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande (Fundac), da Prefeitura de Campo Grande (MS). A prova.
FICHA TÉCNICA
- Intérpretes-criadoras: Irys Cerqueira e Nathália Navarro;
- Produção executiva: Nathália Navarro;
- Produção geral: Irys Cerqueira;
- Preparação de voz cênica: Lígia Tristão Prieto;
- Direção de som: Gleyton Berbet;
- Assistência de produção: Everton Nascimento, Marcos Monteiro e Nathália Maluf;
- Iluminação: Luiz Sartomen;
- Operação de som: Nathália Maluf;
- Fotografia: Karen Centurion;
- Gerenciamento de mídias sociais: Irys Cerqueira;
- Intérprete de Libras: Tatiana Tássia;
- Figurino: Adalgisa Barateli e Regina Almeida;
- Expositoras da feira criativa: Adalgisa Barateli, Aline Araujo, Antônia Bartolina, Celí Mara Ribeiro, Roseli e Suzi Silva.
