Por que não falamos sobre o primeiro grande show nacional de Angelique Brasil?
Artista promove pertencimento racial, ancestralidade e valorização da cultura produzida 'fora do eixo'
22 MAI 2026 • POR TERO QUEIROZ • 10h51
A cantora, compositora e arte-educadora Angelique Brasil (Angelique Mileny Ribeiro) realizou o show 'Brasileiríssima, uma Jornada de Identidade Racial', na noite do domingo (17.mai.26), último dia da 19ª edição do Festival América do Sul, em Corumbá (MS). A reportagem não conseguiu falar com Angelique naquela noite (entenda abaixo), mas é importante destacar sua apresentação.
Trata-se do primeiro grande show nacional da artista, que vive em Bonito.
No Palco América, às margens do Rio Paraguai, Angelique realizou uma das apresentações de maior destaque da 19ª edição do festival. A qualidade artística e cênica do espetáculo pode ser comparada a grandes shows sul-americanos apresentados nesta edição, como Mercedes Sosa – A Voz da América do Sul, o show “40 Tons”, de Jerry Espíndola e Rodrigo Teixeira, além da apresentação da banda Oficina Latina, liderada pelo chileno Pedro La Colina. Com um repertório integralmente voltado ao samba, a cantora levou ao palco interpretações de clássicos brasileiros e músicas autorais que, em breve, certamente devem alcançar projeção nacional.
(17.mai.26) - Angelique Brasil apresenta show 'Brasileiríssima, uma Jornada de Identidade Racial', em Corumbá (MS). Foto: Tero QueirozNo show, Angelique apresentou músicas do álbum Brasileiríssima, lançado em 2024. As letras das canções abordam a memória da população negra e refletem experiências pessoais da cantora relacionadas ao autoconhecimento e à afirmação de identidade.
A artista utiliza o samba como linguagem central do espetáculo, construindo uma narrativa sobre pertencimento racial, ancestralidade e valorização da cultura produzida fora do eixo Rio–São Paulo. Em suas composições, Angelique insere referências ao Pantanal, ao Centro-Oeste brasileiro e à experiência de ser uma mulher negra artista em Mato Grosso do Sul, deslocando simbolicamente o samba para além do litoral sudestino.
(17.mai.26) - Angelique Brasil realiza primeiro grande show no 19º Festival América do Sul (FAS), em Corumbá (MS). Foto: Tero QueirozEsse aspecto aparece especialmente na canção autoral “Centro Oeste ou Litoral”, na qual Angelique reafirma o território sul-mato-grossense dentro de uma tradição musical historicamente associada ao Rio de Janeiro. Ao fazer isso, a cantora amplia o debate sobre brasilidade e representação cultural, utilizando o samba não apenas como gênero musical, mas também como ferramenta de identidade e resistência cultural. Ouça:
Na música "Navio Negreiro", por meio de um samba e melodia leve, Angelique protesta: "um coral de vozes negras // que entoasse as suas mais // belas canções"; e, no refrão, ironiza: "enquanto o capitão do mato sorrir // navio negreiro não vai afundar // o preto não vai conseguir dormir // pois o silêncio vai te despertar". A letra é de Luiz Cláudio Ferreira Souza. Ouça:
"FOI BOM INSISTIR"
Use as fotos gratuitamente. Os créditos são obrigatórios para @teroqueiroz e @teatrinetv
Em entrevista enviada ao TeatrineTV por mensagem via Instagram, Angelique destacou a recepção do público corumbaense e a emoção de apresentar suas composições autorais para uma multidão.
“Senti a energia boa da galera de Corumbá em relação ao samba, público gigante, festa super lotada. Nunca havia cantado minhas autorais pra tanta gente, fiquei muito feliz com a resposta do público”, afirmou.
A artista também comentou a reação do público à canção “Centro Oeste ou Litoral”, que faz referência ao território sul-mato-grossense.
“Fiquei muito feliz quando cantaram o refrão comigo. A galera gosta muito de samba e pagode, público lindo, energia linda”, declarou.
Angelique revelou ainda que já acompanhava o festival em outras edições. Apesar de elogiar a estrutura do evento, chamou atenção para os desafios financeiros enfrentados por produções independentes de grande porte. Segundo ela, o cachê oferecido ainda não cobre adequadamente os custos logísticos de um espetáculo completo.
“O cachê de R$ 20 mil é bom, mas quando soma o custo com uma equipe de 15 pessoas para entregar um show com dança, técnico de iluminação, de som, hospedagem e alimentação, acho que poderiam melhorar esse valor, pois os custos logísticos são altos, ainda mais com apenas seis dias de evento”, disse, como sugestão para a próxima edição do FAS.
Em sua conta no Instagram, no dia 19 de maio — dois dias após a apresentação — a cantora escreveu sobre o significado daquele momento em sua trajetória artística.
“Agora eu posso dizer: todo o trabalho de compor, cantar e persistir valeu a pena.”
Na publicação, Angelique também citou a canção “Coisa de Pele”, de Jorge Aragão, utilizando o trecho “foi bom insistir, compor e ouvir” para simbolizar a conquista.
Ela ainda agradeceu à equipe técnica e artística envolvida na construção de Brasileiríssima, ressaltando a importância coletiva do processo criativo. Entre os profissionais citados estão Serginho Di Prima e Anderson Rocha, além do coreógrafo Gustavo Vilhalva e do dançarino Ducka Jean Antunes. Também agradeceu à Produza Projeções, responsável pelas fotos, Marcia Lobo Crochê, responsável pelos figurinos, e à backing vocal e figurinista Daniela de Oliveira.
Por fim, Angelique mencionou a banda formada por Lana Dias, Kin Sant’ana, Valdiney Sete Cordas, Todio e Rodrigo Dupantanal, além do iluminador Eduardo Leitte e do técnico de som Adriel Santos.
A reportagem acompanhou na íntegra o show de Angelique Brasil em uma apresentação que ultrapassa o entretenimento musical. Confira a cobertura fotográfica do show, acima.
E POR QUE NÃO FALAMOS COM ANGELIQUE?
A reportagem do TeatrineTV teve sua entrada impedida nos camarins dos artistas ao longo de toda a programação da 19ª edição do Festival América do Sul, realizada de 14 a 17 de maio, em Corumbá (MS).
No caso dos artistas de fora do estado, que abocanharam R$ 1,2 milhão dos cofres culturais sul-mato-grossenses, a alegação da comunicação da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) é de que "nenhum deles quis falar à imprensa".
Se confirmada essa posição do DJ Dennis, que recebeu R$ 550 mil; de Dilsinho, que faturou R$ 450 mil; e de Marcelo D2, que levou R$ 240 mil, o fato configura um total desprezo pela comunicação cultural sul-mato-grossense. A reportagem enviou e-mail às comunicações individuais dos artistas para saber se, de fato, essa foi a posição deles.
Já em relação aos artistas "da casa", apenas em uma ocasião, após o show "40 Tons", o repórter conseguiu entrar no camarim. Isso ocorreu após muita insistência com a segurança.
Para os demais artistas, porém, a entrada da reportagem foi impedida, em uma medida que configura censura por parte da FCMS. Como denunciamos aqui, a entrevista com artistas do Hip-Hop de Corumbá teve de ocorrer no escuro, em meio ao público, devido ao impedimento de acesso ao camarim.
