Professora e artista, Patrícia faz rifa para tratamento da mãe após AVC
'Hoje minha mãe é literalmente meu bebê', diz filha
2 JUN 2026 • POR TERO QUEIROZ • 10h56
A reportagem do TeatrineTV esteve na casa de Patrícia, no Bairro Coophatrabalho, em Campo Grande (MS), na tarde do dia 25 de maio. Com sua simplicidade, Patrícia abre um portão de metal e convida os repórteres a entrar.
Próximo dela, dois cachorros — Terço e Darwin Charles — também vêm recepcionar a equipe.
Patrícia fecha o portão e leva os jornalistas até a varanda que dá acesso à porta da sala. Dentro do cômodo, a mãe dela está deitada em uma cama hospitalar que ocupa grande parte do espaço. Ao fundo há uma pequena janela e, quase aos pés da cama, uma TV com volume alto oferece algum entretenimento à mãe de Patrícia.
"Me dá um tempinho. Vou dar um remédio aqui para ela e já falo com vocês", pede a filha.
Com um aceno, a equipe do TeatrineTV consente. Passados alguns minutos, Patrícia conduz os repórteres ao fundo da casa. No local, uma pequena piscina de alvenaria, sob a sombra de árvores, chama a atenção. Os azulejos azuis da piscina, que na ocasião está vazia, refletem o céu, as nuvens e as copas das árvores acima.
Patrícia convida a reportagem, primeiramente, para entrar na cozinha e sentar-se.
"Eu vou fazer um café para vocês", anuncia.
O local tem pouca iluminação e está mobiliado como uma cozinha comum: há geladeira, pia e fogão.
A equipe pede para iniciar a gravação da entrevista.
"Claro. Mas vou contando enquanto faço aqui o cafezinho", descontrai Patrícia.
Ela inicia a entrevista citando que, após o AVC da mãe, vê sua vida mudar de forma abrupta. Ela resume como está lidando com tudo:
"Aprendi a viver um dia de cada vez. Nunca tinha praticado isso. Hoje preciso praticar, senão eu surto", introduz.
Acamada, a mãe depende de cuidados integrais. É Patrícia quem organiza os medicamentos, prepara a alimentação, auxilia na higiene e acompanha a recuperação diariamente.
"Hoje minha mãe é literalmente meu bebê. Sou eu quem troca fraldas, dá comida na boca, controla os horários dos remédios. Dói para caramba. Dói muito", declara, enquanto ajeita um filtro de coar café em uma vasilha de alumínio.
Além do impacto emocional, a professora enfrenta uma situação financeira delicada. Concursada da rede estadual, está afastada por recomendação médica, mas relata dificuldades para renovar a licença e diz que os peritos nem sempre compreendem a realidade vivida por quem se torna cuidador em tempo integral.
"Desde a primeira perícia, senti que fui tratada como se estivesse pedindo férias. Ouvi que era só contratar um acompanhante. Mas acompanhante custa caro. Eu simplesmente não consigo pagar", ressalta.
Segundo Patrícia, a sugestão ignora a realidade de milhares de famílias.
"Não existe outra pessoa para cuidar da minha mãe da forma como faço hoje. É uma dedicação de 24 horas por dia. Eu só consigo pagar algumas horas de acompanhante quando preciso ir à terapia", explica de maneira bem-humorada.
Patrícia ressalta que não está se recusando a voltar ao trabalho. O problema, argumenta, é a falta de alternativas.
"Eu entendo minha responsabilidade como servidora pública. Não estou fugindo do trabalho. Só não tenho com quem deixar minha mãe todos os dias", pontua.
Um cheiro de café toma conta do ambiente quando ela despeja água quente sobre o pó no filtro.
Por alguns segundos, o silêncio domina a cozinha.
Patrícia hesita, mas decide falar sobre o desgaste emocional que enfrenta.
"Tem dias em que acordo muito bem, muito feliz. Daqui a pouco estou nervosa, irritada. Depois começo a chorar. Estou no meio de uma crise", revela.
Ainda assim, ao falar da mãe, o relato ganha outro tom. Patrícia lembra que as duas sempre foram muito próximas e compartilhavam programas simples que hoje fazem falta.
"Minha mãe era minha parceira para tudo. A gente ia em feirinhas, exposições, brechós. Levei ela na exposição do Van Gogh e ela ficou encantada. Ela via coisas novas e os olhos brilhavam", lembra.
Neste ano, o Dia das Mães ganha um significado diferente para a filha.
"Eu sei que ela está aqui, mas senti muita falta da minha mãe. E ninguém fala sobre isso, sobre quando a gente vira mãe da mãe", comenta.
Patrícia serve o café em dois copos americanos. Em seguida, leva a bebida quente aos repórteres.
"Podemos continuar lá fora, se quiserem", convida, apontando para a sombra próxima à pequena piscina de alvenaria.
Novamente a acompanhamos. Já no quintal da casa, sob a sombra fresca e consumindo café quente, Patrícia reflete sobre o momento imposto pelo AVC.
"Não era para ser assim. Você imagina cuidar da sua mãe quando ela envelhece, mas a minha situação é diferente. Hoje ela depende de mim para tudo", diz.
Ainda diante das dificuldades extremas, Patrícia mantém a esperança na recuperação da mãe. Os médicos não conseguem prever o quanto ela poderá evoluir, mas a filha acompanha de perto os tratamentos e acredita que é preciso insistir.
"Existe a plasticidade cerebral. O cérebro pode encontrar novos caminhos. Pode acontecer, pode não acontecer. Mas a gente tem que tentar", aponta.
E mesmo diante do cansaço, Patrícia não cogita se afastar dos cuidados.
"Se alguém me oferecesse uma pessoa para ficar 24 horas cuidando dela, eu continuaria cuidando. Sou eu quem devo isso à minha mãe", argumenta.
Entre as promessas que ainda espera cumprir, existe uma que volta constantemente à memória.
"Um dia ela me perguntou se conheceria a praia. A gente estava assistindo televisão e ela viu uma daquelas praias lindas. Eu falei que ia levar. Até hoje não consegui cumprir essa promessa", observa.
Patrícia sorri ao lembrar do detalhe que acompanhava o sonho.
"A praia tinha que ser no Nordeste", cita.
Sempre independente, a artista e professora confia na solidariedade de amigos, conhecidos e da comunidade. A rifa do teclado Yamaha surge justamente dessa necessidade.
"Situações desesperadas exigem medidas desesperadas. Eu nunca fui de pedir ajuda. Mas agora preciso", conclui.
Terminamos o café.
Se quiser ajudar Patrícia, basta enviar uma mensagem ou telefonar para o celular: (67) 99175-2662. Pelo contato, é possível adquirir um número da rifa do teclado Yamaha, cuja arrecadação será destinada ao tratamento e aos cuidados da mãe da professora.
