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'DARK HORSE'

Extratos provam repasses milionários de Vorcaro aos Bolsonaros para o 'filme'

O 'número da besta', a fuga de Eduardo e o 1º repasse de R$ 2 milhões

10 JUN 2026 • POR TERO QUEIROZ* • 08h59
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Planilha e comprovante bancário mostram como Vorcaro enviou dinheiro aos EUA para financiar 'Dark Horse'. Foto: The Intercept Brasil

Acabam de cair por terra as alegações do bolsonarismo de que não havia provas de que extremistas de direita teriam recebido milhões do banqueiro golpista Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O dinheiro teria sido destinado à produção do longa-metragem "Dark Horse" — cinebiografia do ex-mandatário Jair Bolsonaro, agora preso por tentativa de golpe de Estado após ser derrotado nas urnas em 2022.

Páginas e influenciadores de extrema direita passaram a divulgar vídeos nas redes sociais sustentando que, apesar das denúncias, o site investigativo The Intercept Brasil não havia apresentado provas dos repasses.

No entanto, na edição nº 41 de Cartas Marcadas, publicada ontem (9.jun.26), o Intercept Brasil divulgou comprovantes de transferências bancárias entre Vorcaro e a família de Flávio Bolsonaro. Os documentos revelam os valores recebidos e administrados pelo Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

'NÚMERO DA BESTA'

Cronograma compartilhado em troca de mensagens detalha pagamentos previstos e concretizados (Foto: Reprodução)Cronograma compartilhado em troca de mensagens detalha pagamentos previstos e concretizados (Foto: Reprodução)

Conforme um cronograma de repasses de Dark Horse, Vorcaro deveria pagar 14 parcelas de US$ 1.666.666,00 dólares, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.

Para quem leva a sério os textos bíblicos, o número chama atenção. Em Apocalipse 13:18, lê-se: "Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, o seu número é seiscentos e sessenta e seis". Coincidência ou não, a planilha não apenas reforça a existência dos repasses atribuídos a Daniel Vorcaro, como também coloca diante dos evangélicos bolsonaristas um simbolismo que dificilmente passará despercebido.

Voltemos aos fatos.

Ainda segundo o cronograma, as duas primeiras parcelas pagas por Vorcaro foram de 2 milhões de dólares cada, inicialmente previstas para 20 e 25 de janeiro de 2025, mas efetivamente pagas em 13 de fevereiro e em 24 de março, segundo a planilha.

As outras 12 foram fixadas em 1,666 milhão de dólares cada — a primeira delas também foi paga em 24 de março, outras duas em 25 de abril e mais uma em 29 de maio. Ao final do cronograma, o total recebido indica uma soma de 10,6 milhões de dólares.

A tabela de pagamentos foi encaminhada em 7 de agosto de 2025 pelo empresário Thiago Miranda a Vorcaro, acompanhada da observação: “Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto”. Miranda recebeu uma resposta curta de Vorcaro: “Segunda fazemos duas”.

A mensagem sugere que novos desembolsos estavam sendo discutidos naquele momento, o que significa que o valor efetivamente pago tenha ultrapassado os 10,666 milhões de dólares.

Vorcaro havia enviado um cronograma de pagamento semelhante ao pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro do banqueiro, meses antes, em 12 de março de 2025.

De acordo com mensagens, ao enviar o documento, Vorcaro deu duas orientações: “precisa me ajudar controlae isso [SIC]” e “tem que pagar a segunda e a terceira”.

 

Zettel respondeu logo em seguida: “Vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”.

“Mineiro” é o vulgo de Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre Investimentos e Participações, empresa que fez a transferência bancária.

Então, esses mensagem comprovam também que houve relação direta entre Vorcaro e Antônio Carlos.

Isso por que, em fevereiro de 2025, Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Antônio foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.

COMPROVANTE BANCÁRIO

O comprovante da 1ª transferência internacional ao filme 'Dark Horse', foi emitido pelo sistema Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication (SWIFT). 

A data do repasse é 13 de fevereiro de 2025 e confirma a remessa de 2 milhões de dólares ao Havengate Development Fund LP, fundo controlado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro. Eis o comprovante: 

Comprovante de transferência mostra que 2 milhões de dólares foram transferidos pela Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate. As marcações em preto foram inseridas pelo Intercept para não expor códigos e informações técnicas da operaçãoComprovante de transferência mostra que 2 milhões de dólares foram transferidos pela Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate. As marcações em preto foram inseridas pelo Intercept para não expor códigos e informações técnicas da operação bancária. Foto: Reprodução

O dado ganha relevância quando confrontado com a data da fuga de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos. Em fevereiro de 2025, o deputado anunciou que permaneceria no país e, segundo relatos divulgados à época, recebeu R$ 1 milhão do pai, Jair Bolsonaro, que afirmou ter obtido o valor por meio de doações de apoiadores.

Ao longo do último ano, Eduardo declarou publicamente enfrentar dificuldades financeiras e afirmou viver de aluguel nos EUA. Posteriormente, porém, veio à tona que ele reside em uma casa avaliada em cerca de R$ 6 milhões na cidade de Southlake, no Texas.

Há ainda uma coincidência geográfica: o Texas é o mesmo estado onde está registrado o milionário Development Fund LP, fundo que seria controlado por seu advogado.

DE BANCO EM BANCO

O leitor atento notará que o dinheiro não foi enviado diretamente ao fundo ligado a Eduardo Bolsonaro. Em vez disso, o valor fez um percurso mais longo: primeiro caiu na conta da Entre Investimentos e Participações Ltda. e, só depois, foi transferido pelo Banco BS2 para a conta da Havengate no JPMorgan Chase.

Em linguagem simples, o recurso deu uma volta antes de chegar ao destino final. No mercado financeiro, operações desse tipo são conhecidas como transferências em camadas, ou layering, mecanismo que adiciona intermediários ao caminho do dinheiro e torna mais difícil acompanhar quem recebeu os recursos ao final da cadeia.

O extrato registra o que seria a primeira transferência internacional para financiar a "Dark Horse" e revela que a operação descrita nas mensagens não ficou apenas no plano das conversas.

A existência do comprovante de rapasse já aparecia no meio de uma sequência de mensagens trocadas entre Zettel e Vorcaro enquanto ambos tentavam destravar a remessa dos recursos para o exterior.

Em 5 de fevereiro, Zettel avisou ao banqueiro que o setor de câmbio do Banco Master estava impondo dificuldades à operação destinada ao financiamento do filme.

Diante dos entraves, os dois passaram a discutir caminhos alternativos para fazer o dinheiro chegar ao destino.

A solução encontrada foi utilizar a estrutura da Entre Investimentos, justamente a empresa que figura como origem da transferência registrada no comprovante.

Oficialmente, a Entre Investimentos e Vorcaro afirmam não possuir relação societária, de controle ou de governança.

Os documentos obtidos pelo Intercept, apontam para uma proximidade operacional e financeira que vai além de uma mera coincidência.

Nove dias depois, em 14 de fevereiro, Zettel enviou a Vorcaro o comprovante da operação emitido pela rede SWIFT.

A mensagem continha apenas uma palavra: “Filme!”.

O recado foi encaminhado um dia após a liquidação dos US$ 2 milhões destinados ao Havengate.

As marcações em preto no comprovante de transferência foram inseridas pelo Intercept para não expor códigos e informações técnicas da operação bancária (Foto: Reprodução)As marcações em preto no comprovante de transferência foram inseridas pelo Intercept para não expor códigos e informações técnicas da operação bancária (Foto: Reprodução)

OUTRO LADO

O Intercept disse que entrou em contato com Paulo Calixto, Thiago Miranda e  Antônio Carlos Freixo Júnior, e também procurou as defesas de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro, que estão presos.

Apesar das tentativas de contato, não houve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.

O Grupo Entre, em nota, informou que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”. Também disse que a empresa tem “compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento” da lei e está “à disposição das autoridades competentes sempre que necessário”.

FONTE: The Intercept Brasil.