Instituto "monopolizou" acesso a convênios culturais nos governos Mauro Mendes e Otaviano Pivetta. Foto: Reprodução
O governo de Mato Grosso destinou R$ 597.698 ao 2º The Country Rodeo Fest, previsto para ocorrer em Poconé (MT). O recurso foi repassado com carimbo da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT).
O repasse foi formalizado em termo de fomento com o Instituto Vale do Rio Cuiabá, responsável pela ação que consiste em exploração de animais, sem nenhuma relação com cultura.
Publicado em outubro de 2026, o documento prevê duas parcelas: R$ 100 mil e R$ 497.698, empenhadas nos dias 6 e 8 de outubro, respectivamente.
Os recursos são provenientes de emendas parlamentares dos deputados estaduais Juca do Guaraná (Lídio Barbosa, do PSDB), autor da emenda nº 108/2026 que não conseguiu reeleição no último pleito; e o deputado estadual reeleito Faissal Jorge Calil Filho (PL), autor da emenda nº 007/2026.
Segundo o termo, o evento terá rodeio em touros e cavalos, praça de alimentação com culinária pantaneira e apresentações de música sertaneja de raiz.
A programação tem acesso gratuito. A assinatura do termo ocorreu no dia (14.out.26). Assinam a papelada o secretário da Secel, David Moura, e a presidente da entidade, Luzia Marta Pereira.
Apuramos que o projeto carece de transparência. Em um plano de trabalho disponibilizado em seu site oficial, o Instituto não detalha quanto dos R$ 597,6 mil será destinado à estrutura do rodeio, às apresentações musicais, à praça de alimentação ou a outros custos de produção.
Toda a verba do projeto de Poconé foi justificada e alocada em uma rubrica genérica de "estrutura do evento". A prova.
O quesito transparência seria o mínimo no caso, visto que o TeatrineTV apurou que o referido Instituto é o preferido no comando de rodeios em diversos municípios de Mato Grosso desde 2025, todos os contratos sob o governos dos extremistas de direita ex-governador Mauro Mendes e seu "herdeiro político", atual governador Otaviano Pivetta.
No universo jurídico de contratos públicos, o nome fantasia do Instituto é AJE-MT, sob o CNPJ 31.174.025/0001-35 com constituição ativa desde 3 de agosto de 2018, mas situação cadastral ativa desde 01/11/2022. O endereço indicado à sede da empresa é no município de Rosário do Oeste, a 125 km da Capital mato-grossense. A prova.
A presidente da entidade é Luzia Marta Pereira, segundo o Cartão CNPJ. A prova.
ASCENSÃO METEÓRICA
A reportagem apurou que, em apenas dez meses, o Instituto abocanhou R$ 20.659.309,86 dos cofres públicos.
Um levantamento do TeatrineTV identificou que o montante foi integralmente destinado a 22 convênios.
Do total, 19 convênios saíram com o carimbo da cultura (via Secel, Sedec-MT e Fundes).
Outros 3 projetos foram financiados sob o guarda-chuva do Fundo de Desenvolvimento do Esporte (Funded-MT).
DETALHANDO OS MILHÕES
O fluxo de repasses milionários teve início oficial em (dez.25). Na data, o instituto levou R$ 1.088.134,38 para a execução da "Campanha Laço Branco MT". O instituto citou o número do Plano de Trabalho desse projeto no site oficial, mas não disponibilizou o mesmo para que pudéssemos conferir o nível de transparência desse primeiro projeto.
Em (fev.26), a Secel repassou R$ 543.560,00 para o projeto "Cultura na Praça de Rosário Oeste".
Diferente do caso de Poconé, o plano de Rosário Oeste detalha onde foi gasto os mais de meio milhão.
O dinheiro ficou agrupado na rubrica de "Estrutura", mas os itens foram discriminados, sendo:
- Aluguel do palco custou R$ 68.000,00;
- Instalação de painéis LED ficou por R$ 50.760,00;
- Os sistemas de som e iluminação custaram R$ 46.400,00 e R$ 64.000,00, respetivamente;
- Foram gastos R$ 20.000,00 em tendas para camarins, R$ 16.000,00 na decoração do espaço e R$ 11.000,00 num serviço de buffet;
- Ccachê do "DJ Douglas Bruno", de R$ 8.000,00.
O mês de (maio.26) concentrou o início de uma avalanche rural. Apenas em eventos agropecuários, o governo despejou R$ 4 milhões na conta do Instituto.
A lista de maio inclui: 9º Festival da Castanha (R$ 1,8 milhão), Expo Nova Mutum (R$ 1,2 milhão) e Exponorte (R$ 1 milhão).
O Instituto não disponibilizou os planos de trabalhos dos três convênios acima em seu site. Apenas citou os números dos documentos.
No mesmo mês de maio, o estado formalizou R$ 300 mil para o evento de montaria "Team Penning", em Arenápolis.
O plano de trabalho do "Team Penning" no site do Instituto detalha a aplicação dos recuros.
De acordo com o documento, o convênio distribuiu a verba em duas frentes: R$ 50 mil para premiação técnica e R$ 250 mil para a estrutura.
Os R$ 50 mil de premiação foram divididos entre os três primeiros lugares: R$ 22 mil para o campeão, R$ 15 mil para o vice e R$ 13 mil para o terceiro colocado.
Os gastos com estrutura incluem:
- Aluguel de palco/tablado: R$ 80.000,00.
- Sistemas de som: R$ 31.320,00.
- Tendas: R$ 35.230,00 (tendas 5x5 e 10x10).
- Painéis de LED: R$ 24.570,00.
- Captação de vídeo para transmissão ao vivo: R$ 16.470,00.
- Decoração dos portais e luzes: R$ 13.300,00
Seguindo com os repasses por projeto, no mesmo de jun.26, a Expo Diamantino cravou o maior repasse individual do período, custando R$ 4,4 milhões aos cofres públicos.
Apesar do robusto valor, o Instituto novamente não disponibilizou esse plano de trabalho em seu site.
Ainda em junho, o governo destinou R$ 1.032.000,00 para as Festividades Culturais de Rosário Oeste e R$ 200 mil para a Queima do Alho.
Ambos os convênios acima tiveram seus planos de trabalhos publicados e revelam o seguinte, individualmente:
As Festividades Culturais de Rosário Oeste:
- Shows nacionais e regionais: O estado bancou cachês que totalizaram R$ 455.000,00. A dupla Althair e Alexandre recebeu R$ 160 mil, e o cantor Hugo Henrique, R$ 150 mil. Entre as atrações locais, Rafa Garcia cobrou R$ 60 mil; Jonatam e Adam, R$ 45 mil; e Tô Pop Som, R$ 40 mil.
- Iluminação e sonorização: Aluguel de equipamentos de grande porte somou R$ 118.000,00 (sendo R$ 54 mil para luzes e R$ 64 mil para som).
- Aluguel de palco e painéis LED: O palco custou R$ 59.800,00 e os telões de LED consumiram R$ 56.000,00.
- Camarins, decoração e tendas: Foram alocados R$ 30.000,00 para montagem dos camarins, R$ 5.800,00 em decoração, e R$ 41.600,00 na locação de tendas.
- Outras estruturas: Geradores, banheiros químicos, piso deck e grades de segurança consumiram os R$ 168.600,00 restantes.
Queima do Alho em Arenápolis:
- A Secel pagou a contratação de Douglas Cabral, cantor de música sertaneja de raiz, ao custo de R$ 50.000,00. A despesa com DJ e Locutor somou R$ 4.798,69. O restante da verba também foi para estruturas logísticas, incluindo:
- Ações estruturais e logística: Locação de geradores, climatizadores (R$ 11.300,00), palcos (R$ 8.725,18) e painéis de LED (R$ 15.039,72).
- Piso Deck e Tendas: Instalações que juntas custaram cerca de R$ 25.000,00.
- Coordenação e cobertura: O coordenador geral levou R$ 10.000,00, e a cobertura fotográfica, R$ 2.079,85.
Ainda no mês de junho foram pagos o GDO Rodeio Team (R$ 398.389,37), o 2º Duelo Rancho Nogueira (R$ 298.524,96) e a 6ª Cavalgada Amigos do Toninho de Freitas (R$ 350 mil).
Esses três convênios tiveram seus planos de trabalhos publicados no site do Instituto. A reportagem confeiriu que o GDO Rodeio Team em Tangará da Serra gastou o recurso da seguinte maneira:
- Um pacote fechado de R$ 79.905,16 pagou pódio, sharcase, backdrop e efeitos especiais, sem detalhar o custo real individual de cada item.
- A locação de arquibancadas custou R$ 65.340,00, os bretes saíram por R$ 29.918,67 e a montagem de um curral levou mais R$ 16.405,50. Aluguel de tendas consumiu R$ 37.988,64;
- A Secel bancou cachês para "Salva Vidas" (R$ 32.421,60), "Diretor de Arena" (R$ 12.755,43), "Juiz de Bretes" (R$ 11.551,50), "Comentarista" (R$ 10.611,48) e "Juiz de Arena" (R$ 7.522,80). Não constam no documento os nomes dos beneficiários desses repasses;
- A iluminação da arena custou R$ 19.053,24 e a contratação do locutor do rodeio exigiu R$ 15.013,89.
Já o 2º Duelo Rancho Nogueira em Santo Antônio do Leste gastou o recurso público assim:
- Foram gastos R$ 29.333,32 em uma cobertura de live stream e mais R$ 3.900,00 em cobertura fotográfica;
- A locação de painéis de LED levou R$ 37.664,00, enquanto a sonorização do evento custou R$ 25.823,36. O Estado pagou ainda R$ 9.620,00 pelo aluguel de mesas e cadeiras de plástico rígido;
- O aluguel de tendas consumiu R$ 43.124,00. Portais treliçados e decorações com tecidos voil e plantas naturais drenaram R$ 66.204,28;
- A estrutura de grades inibidoras custou R$ 29.696,00.
A 6ª Cavalgada Amigos do Toninho de Freitas em Chapada dos Guimarães, por sua vez, gastou o recurso assim:
- O dinheiro da Cultura financiou uma queima de fogos de R$ 14.999,00. O sistema de transmissão ao vivo em 4K custou R$ 12.025,00;
- Painéis de LED consumiram R$ 34.321,70, enquanto a locação do palco e dos pisos de deck e tablado somou mais de R$ 52.900,00;
- Equipamentos sonoros custaram R$ 19.566,73 e a iluminação saiu por R$ 15.200,00;
- Narrador e comunicador comercial levaram juntos R$ 10.099,99. O plano também incluiu R$ 4.198,99 para fotógrafo e R$ 1.618,50 para designer gráfico.
No segundo semestre, o dinheiro continuou escoando sem freios para projetos em execução.
Em (jul.26), garantiram a Copa do Trabalhador (R$ 199.999,94), a Corrida do Lions (R$ 350 mil) e o Festival Cultural de Alto Paraguai (R$ 728.896,00).
No mês de (ago.26), pegaram mais R$ 199.999,92 para organizar o Mutum Open de Jiu-Jitsu.
Os 4 projetos acima foram executados por meio do Fundo de Desenvolvimento Desportivo (Funded-MT). Os planos de trabalhos indicam que individualmente os recursos foram gastos assim:
Copa do Trabalhador de Novo São Joaquim:
- A aquisição de camisolas, redes, bolas e troféus consumiu R$ 48.072,84. A arbitragem do evento custou R$ 22.508,48, enquanto o pagamento de narradores e comentadores superou R$ 10.000,00. Foram destinados R$ 737,14 ao serviço de apanha-bolas (gandulas).
- O aluguel de arquibancadas somou R$ 23.221,42 e as tendas custaram R$ 20.415,20. A sonorização (R$ 13.013,76) e os painéis de LED (R$ 13.014,22) completaram os custos principais da estrutura.
Corrida do Lions em Guarantã do Norte:
- A maior fatia, correspondente a R$ 231.243,20, cobriu a compra de 1.000 camisolas (R$ 64,70 cada), sacochilas, garrafas (squeezes), medalhas e o fornecimento de frutas, orçado em R$ 4.316,00. A premiação em dinheiro aos vencedores somou R$ 4.000,00.
- Foram gastos R$ 35.623,38 em serviços de assessoria. A locação de uma ambulância (UTI Móvel) custou R$ 4.858,83 e o seguro para os atletas ficou por R$ 11.330,00. O staff de apoio representou um custo de R$ 7.866,60.
Mutum Open de Jiu-Jitsu (R$ 199.999,92):
- As premiações em dinheiro totalizaram R$ 43.500,00, distribuídas pelas diferentes categorias. Os gastos com troféus, medalhas e camisolas somaram R$ 17.924,00. A arbitragem das lutas teve o custo de R$ 38.430,00.
- O isolamento do espaço com grades custou R$ 21.600,00. Foram alugados 20 climatizadores industriais (R$ 8.009,60), iluminação (R$ 11.000,00), sonorização (R$ 13.013,76) e um gerador (R$ 6.030,00). O serviço de apresentador custou R$ 4.330,00.
Em (set.26), o Instituto voltou a firmar convênios usando recursos culturais, sendo o Festival Cultural no Parque (R$ 300 mil) e a 1ª Fiagro Expo Nobres (R$ 2.750.000,00).
O plano de trabalho da Expo Nobres não foi disponibilizado.
O documento referente ao Festival Cultural no Parque, em Alto Paraguai, foi disponibilizado e detalha o uso do dinheiro:
Festival Cultural no Parque:
100% da verba foi alocada na rubrica de estrutura. A justificativa do projeto atesta que a grade artística (com cantores e DJs) foi bancada por "fontes particulares".
- O aluguel de painéis de LED levou R$ 44.400,00 da verba pública. O sistema de sonorização saiu por R$ 36.300,00, a iluminação custou R$ 29.800,00 e a montagem do palco estrutural ficou em R$ 30.000,00.
- Foram gastos R$ 36.000,00 no aluguel de dezenas de tendas piramidais e R$ 34.241,00 na locação de dois potentes geradores de energia.
- O aluguel de sanitários portáteis (comuns e PCD) consumiu R$ 31.736,20. A instalação de piso deck para compor o ambiente custou mais R$ 12.800,00.
- Mesmo não pagando cachês, o Estado bancou a montagem dos camarins (R$ 6.907,62), a respectiva decoração (R$ 6.795,70) e um serviço de buffet (catering) de R$ 9.567,00.
- Grades inibidoras e placas de fechamento metálico custaram, juntas, R$ 20.046,00. O aluguel de 300 conjuntos de mesas e cadeiras plásticas de PVC somou R$ 9.000,00, enquanto a segurança desarmada levou R$ 5.200,00.
Chegando aos últimos convênios, o Instituto recebeu R$ 501 mil para realizar a Copa Médio Xingu de Futebol Indígena 2026, em Feliz Natal (MT). O termo foi assinado em 24 de setembro, com vigência até 25 de dezembro de 2026. Os recursos são provenientes de emendas dos deputados estaduais Faissal e Fabio Tardin.
No caso da Copa Xingu, o plano de trabalho indica que o recurso foi gasto da seguinte maneira:
- O documento reserva a impressionante quantia de R$ 144.000,00 para os vencedores das categorias masculina e feminina. No entanto, a divisão é simplória, prevendo pagamentos repetidos para os vencedores de três etapas diferentes, sem detalhar quem fiscalizará essa entrega em áreas de difícil acesso. Os campeões levam R$ 12.000,00 por etapa, totalizando R$ 36.000,00 por categoria;
- A organização destinou R$ 20.399,10 para compra de materiais. Desse valor, foram gastos R$ 5.530,50 em 450 medalhas de honra ao mérito, R$ 8.436,00 em 30 troféus (R$ 281,20 cada) e R$ 6.432,60 para a compra de apenas 30 bolas (cada uma a R$ 214,42);
- Arbitragem, que inclui um árbitro, dois auxiliares e um mesário, custará R$ 22.444,80 para 96 jogos. O aluguel de tendas será um dos maiores custos, drenando R$ 149.303,40 dos cofres públicos para a locação de 150 tendas 5x5m e 30 tendas 10x10m ao longo do evento;
- A sonorização foi o item individual mais caro, orçada em absurdos R$ 127.568,10. E, novamente, uma estrutura de grade inibidora volta a aparecer no projeto, consumindo R$ 37.290,00.
Em 25 de setembro, o instituto firmou termo de fomento de R$ 2,2 milhões com o Fundo de Desenvolvimento Econômico e Social de Mato Grosso (FUNDES) para realizar a Expo Rosário Oeste 2026, ocorrida entre os dias 25 e 27 de setembro. Do total, R$ 680 mil foram destinados a um show nacional e R$ 290 mil a apresentações regionais. A entidade não disponibilizou o plano de trabalho desse projeto, apesar de citar o mesmo no site.
A cronologia se encerra em (out.26), com o convênio do rodeio de Poconé, sacramentando a estratégia de uso de verba pública como combustível para eventos exclusivamente rurais e cunho ideológico de direita e extrema direita, conforme sugere publicações nas redes do Instituto e da social media do mesmo, Flavia Popia. A prova.
A reportagem criou um drive onde disponibilizamos todos os planos de trabalhos mencionados neste conteúdo. Confira clicando AQUI.