(7.jul.26) - Banda executa mega-show autoral em Bonito durante a Feira Literária de Bonito,. Foto: Tero Queiroz
O show “Dois Lados”, apresentado na noite da 3ª feira (7.jul.26), na abertura da 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB), destacou-se pelo repertório majoritariamente autoral estigando o debate comum no circuito musical sul-mato-grossense: por que o público ainda resiste a ouvir músicas inéditas?
Para o compositor Carlos Colman, essa justamente a indagação que o levou a criar o projeto ao lado de Marcos Mendes, Maria Cláudia e Ana Duarte.
“Começamos a perceber que as pessoas estavam tocando sempre as mesmas músicas. Então resolvemos fazer um projeto que aparentemente era meio perigoso: tocar música autoral”, introduziu logo após o show.
Ainda segundo Colman, a ideia surgiu dentro do projeto Companhia do Mundo, criado para apresentar composições próprias que raramente encontravam espaço nas programações tradicionais.
“A gente começou a perceber que ninguém tinha coragem de mostrar alguma coisa nova. E eu tinha composições, o Marquinhos também, aí nos unimos", contou.
Entre o forró e a MPB
Marcos Mendes explicou que o repertório foi construído justamente para mostrar a diversidade das composições dos dois artistas.
“O Carlinhos tem muita coisa que não é a mesmice, não é o mesmo ritmo. Eu também tenho reggae, tenho música mais para o lado da MPB. Procuramos fazer uma mescla para mostrar nossa forma de compor”, detalhou.
Para Colman, as influências do projeto atravessam diferentes gerações musicais.
“Nós somos da geração pós-sertanejo, pós-Beatles, pós-Rolling Stones. São todas as nossas influências colocadas aí”, observou.
Rejeição ao novo
Colman contou que as apresentações realizadas no interior do estado revelaram uma dificuldade do público em aceitar repertórios inéditos.
“As pessoas não estão preparadas para receber o novo, o novo entre aspas. Querem sempre a mesma coisa, o sertanejo universitário e essa coisa toda", lamentou.
Mesmo assim, o grupo decidiu manter a proposta original.
“Desde o começo a ideia era tocar nem que fosse para uma pessoa ou duas. Nós íamos tocar a nossa música”.
Colman comparou a situação de hoje com a trajetória de clássicos da música brasileira.
“Uma canção como ‘Tocando em Frente’, antes de alguém começar a tocar, também era desconhecida. Então você tem que começar a tocar”, declarou.
A semente para o futuro
Apesar da resistência inicial, Marcos Mendes disse que o projeto também revelou uma carência do público por novidades.
“Ao mesmo tempo que existe rejeição pelo novo, existe também uma carência. As pessoas ficam no show e perguntam: ‘Que músicas são essas?’”.
O músico afirmou que houve momentos em que o grupo pensou em seguir o caminho mais fácil.
“Às vezes a gente pensa: ‘Podia fazer o que todo mundo faz, que é mais fácil para conquistar o público’. Mas se a gente não fizer isso, não vamos ter nada de novo para mostrar”.
Para ele, o objetivo principal sempre foi deixar um legado.
“Talvez essas músicas sejam cantadas daqui a 20, 30 ou 40 anos. A gente tinha que jogar essa semente”.
FLIB é circulação
A cantora Maria Cláudia, que participou pela primeira vez da feira, destacou a receptividade do público bonitense.
“Fiquei impressionada. O público é muito afetivo, muito receptivo. Isso é o bom: mostrar coisas daqui e coisas de fora que se misturam”, comentou.
Por fim, Marcos Mendes avaliou que a FLIB cumpre um papel importante na valorização da escrita, no caso, das letras musicais.
“Ter uma feira literária para mostrar os nossos valores nas letras e nas páginas é de extrema importância para a nossa cultura”, concluiu.