(8.jul.26) - Daniel Munduruku na 10ª edição da Feira Literária de Bonito (FLIB).. Foto: Tero Queiroz
O escritor indígena Daniel Munduruku recebeu um presente das mãos da estudante Eloisa, da Escola Indígena de Anastácio, durante a 10ª edição da Feira Literária de Bonito, em Bonito.
O gesto emocionou o autor, que definiu a homenagem como um encontro entre dois povos.
“Trouxeram para mim um mimo muito significativo, que é a junção do mundo da qual eles pertencem, o mundo tereno, com o mundo Munduruku, que é o mundo de onde eu venho. Estou participando aqui da FLIB e fiquei muito honrado em receber uma homenagem das crianças indígenas de Anastácio”.
Eloisa explicou que o presente foi pensado pelos alunos a partir das obras do escritor.
“Nós decidimos dar esse presente pro Daniel Munduruku porque a gente acha que ele é uma inspiração muito grande pra gente. Ele é muito importante pra mim e eu gosto muito dos livros dele e das inspirações que a gente pegou”.
Segundo a estudante, o quadro representa o encontro entre o bem-te-vi e o beija-flor.
“Eu sou do bem-te-vi, que foi o pássaro que salvou a gente do buraco terena, e ele é do pássaro beija-flor. A árvore representa a árvore da vida das adivinhas, e colocamos o bem-te-vi e o beija-flor para significar o nosso encontro”.
“Precisamos ser bons ancestrais hoje”
Na entrevista ao TeatrineTV, Munduruku falou longamente sobre ancestralidade e responsabilidade com as futuras gerações.
“Cada um desses povos traz consigo o que nós chamamos de ancestralidade, ou seja, o pertencimento a uma história que começou muito antes da gente e vai seguir muito depois que a gente partir dessa vida”.
O escritor lembrou que os ancestrais também foram pessoas comuns que habitaram o território brasileiro.
“Os nossos ancestrais foram pessoas como nós, que habitaram esse planeta e deixaram a sua marca para que a gente pudesse ter a alegria de ter esse mundo ainda até hoje”.
Foi então que fez a reflexão que marcou sua passagem pela feira.
“Nós precisamos nos convencer que nós precisamos ser bons ancestrais hoje, que nós precisamos fazer o possível para que os nossos netos, bisnetos, tataranetos, todos aqueles que virão depois da gente possam olhar pra trás e dizer com orgulho: ‘Meu avô lutou, meu avô deixou um mundo habitável, meu avô construiu uma possibilidade de eu também existir’”.
Munduruku afirmou que a pergunta central é como seremos lembrados pelas próximas gerações.
“Será que meu avô foi um bom ancestral pra mim? Será que ele deixou um mundo habitável? Será que ele lutou para que o mundo não terminasse, que o céu não desabasse?”.
E concluiu:
“Ou seja, meu avô foi um bom ancestral pra mim”.
Literatura e identidade indígena
O autor também elogiou a organização da Feira Literária de Bonito e destacou o caráter coletivo do evento.
“Uma feira que tenha esse espírito mais coletivo, com a cidade participando e as crianças das escolas vindo frequentar, aqui no Mato Grosso do Sul eu não tenho visto com tamanha organização”.
Para ele, o estado deveria ter mais iniciativas semelhantes.
“Mato Grosso do Sul poderia ter muito mais dessas experiências literárias, porque a literatura permite que a gente faça um mergulho na nossa ancestralidade”.
Munduruku também defendeu maior reconhecimento aos povos indígenas na formação da identidade sul-mato-grossense.
“Os povos que habitam o Mato Grosso do Sul precisam ser mais valorizados, reconhecidos e compreendidos como parte da formação da identidade do Mato Grosso do Sul”.