(7.mar.26) - 31ª edição da Feira Ziriguidum, na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz
Vimos ocupados por barracas e grande público os quase 20 mil metros quadrados da área verde e passarelas da Praça do Preto Velho, no Jardim Paulista, em Campo Grande (MS). É noite de 7 de março — véspera do Dia Internacional das Mulheres — e acontece na praça a 31ª edição da Feira Ziriguidum.
Sob as árvores, céu limpo e calor intenso, centenas de crianças e seus responsáveis absorvem o que há de mais potente no cenário artístico e social da Capital Morena.
A FUNDADORA DA FEIRA
(7.mar.26) — Grande público ocupa Praça do Preto Velho durante a 31ª edição da Feira Ziriguidum. Foto: Tero Queiroz O movimento na barraca de bebidas é intenso. Uma longa fila de consumidores se forma ao redor. Ao fundo, escuta-se um samba sendo cantado. Luana Peralta, fundadora da Feira Ziriguidum, está atendendo.
— Uma das pessoas que atendem aqui não pôde vir e eu fui chamada de última hora. Então preciso ajudar aqui e em todo lugar — diz ela, enquanto servia o copo de um cliente.
Ainda sem parar, abrindo a tampa do freezer para servir a outro cliente, Luana fez um pedido ao repórter do TeatrineTV:
— Peço que espere um pouco. No final da feira eu te dou a entrevista, quando o movimento diminuir um pouco.
Diante disso, deixamos Luana trabalhar. Vamos conversar com as atrações artísticas.
A ATRAÇÃO ARTÍSTICA
(7.mar.26) — Juci Ibanez se apresenta na Praça do Preto Velho durante a 31ª edição da Feira Ziriguidum. Foto: Tero Queiroz A cantora Juci Ibanez acaba de descer do palco, após mais uma de suas belas apresentações, apesar de alguns tropeços da banda composta apenas por homens. Grande parte do show pareceu improvisado, mas Juci é muito boa nisso. O mesmo não podemos afirmar sobre a banda.
Ela bebe água enquanto conta à reportagem do TeatrineTV o significado de cantar para o gigantesco público da Feira Ziriguidum:
“Eu sei da luta da galera e da organização desde o começo. Como participei do início de tudo, tenho apoiado com todas as minhas forças. Hoje, sinto-me feliz e com sucesso junto à galera por uma feira tão bem frequentada e lotada. É um evento com compositores maravilhosos, com gente que aposta no projeto e espaço para os artistas de Mato Grosso do Sul, nos garantindo liberdade de expressão. Todas as áreas se apresentam aqui. Estou muito feliz, principalmente por estar em um dia significativo. O Dia da Mulher é todo dia, é um dia eterno, mas hoje é uma data específica dedicada a elas”.
Acumulando 50 anos de carreira, Ibanez explicou que nada é fácil no campo artístico para mulheres ou para homens em Mato Grosso do Sul.
“Mas é a nossa luta; é o que temos que enfrentar e ter força para fazer”, descontraiu.
(7.mar.26) — Juci Ibanez durante show na 31ª edição da Feira Ziriguidum. Foto: Tero Queiroz Com um repertório baseado em sambas de sucesso, Ibanez embalou o público como a segunda atração da noite. Ela se apresentou logo após o Trio Madinha — a reportagem não pegou a primeira atração. Questionada sobre a escolha do repertório, Ibanez explicou que, sendo mulher branca, escolheu viver na negritude.
“Eu sou do samba. Sou uma mulher branca que vive na negritude, que vive no samba e sou guerreira dessa arte. Nada foi fácil até aqui e não é hoje ainda. Depois de 50 anos de carreira, permanece difícil por causa das nossas políticas públicas, do nosso governo e da nossa prefeitura, que dificultam muito para nós, artistas”.
Repórter — Ao que exatamente está se referindo, Juci Ibanez?
Juci — É sempre uma “panela”, aquela coisa de sempre. Mas, graças a Deus, quem nasce com talento não depende deles [do governo] especificamente — declarou.
(7.mar.26) — Juci Ibanez celebra sucesso da 31ª edição da Feira Ziriguidum. Foto: Tero Queiroz Para Ibanez, a idealizadora da Feira Ziriguidum é uma das responsáveis por suprir essa ausência do Estado com a promoção da arte e dos artistas locais, por meio da feira.
“Dependemos de gente como a Lu (apelido de Luana Peralta), de todas as organizações e agentes culturais para que possamos fazer nossa arte e nos expressar”, completou.
A PERFORMANCE
(7.mar.26) — ColetivA de Trans Pra Frente realiza apresentação de performance na 31ª edição da Feira Ziriguidum. Foto: Tero Queiroz Seguindo a programação da 31ª Feira Ziriguidum, apresentou-se na noite de sábado (7 de março) a ColetivA De Trans Pra Frente — que, como já explicamos, trata-se da única coletiva de arte do Centro-Oeste composta exclusivamente por artistas trans.
As integrantes da ColetivA, lideradas por Emy Santos, com apoio do Comitê de Cultura de Mato Grosso do Sul (CCMS), apresentaram uma performance que denunciou o número de feminicídios e rememorou histórias de mulheres cis e trans assassinadas por homens em Mato Grosso do Sul.
(7.mar.26) — Emy Santos (de vermelho) e outras integrantes da ColetivA De Trans Pra Frente realizam performance durante a 31ª edição da Feira Ziriguidum. Foto: Tero QueirozDurante cerca de 15 minutos, o ruído constante da feira cedeu lugar às vozes das atrizes da ColetivA. Jovens e idosos, sentados, agachados ou em pé, acompanharam a apresentação: uns céticos, outros com os olhos marejados. Ao final, houve um breve silêncio. As integrantes ergueram um cartaz com a frase “Protejam suas amigas”. Um suspiro coletivo atravessou o espaço e, em seguida, vieram aplausos intensos. Pouco a pouco, o som da feira voltou a preencher a praça.
(7.mar.26) — Berbela Mortiz (esq.) e a namorada Susan Eloy durante a 31ª edição da Feira Ziriguidum. Foto: Tero QueirozPróximo a uma das barracas montadas no gramado, ainda catárticas, encontramos Susan Eloy, indígena da etnia Terena e mestranda em Antropologia, e sua namorada, Berbela Mortiz, professora e artista. Pedimos que comentassem a apresentação da ColetivA:
“A gente já conhece o trabalho delas, não é a primeira vez que assistimos. A primeira vez foi aqui também e tem participação da Loren. Eu acho super necessário, sempre vai ser necessário, falando de respeito. Sempre respeito à diversidade, às vidas das mulheres. Com a questão dos feminicídios que estão acontecendo agora em Campo Grande, que só estão aumentando, eu acho que é super necessário. Vai continuar sendo necessário”, declarou Susan.
(7.mar.26) — ColetivA De Trans Pra Frente exibe faixa em defesa da vida das mulheres na 31ª Feira Ziriguidum, com centenas de pessoas na Praça do Preto Velho, Jardim Paulista, Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz.Berbela, por sua vez, destacou a força dos depoimentos e o trabalho singular da ColetivA:
“Essa parte que a gente assistiu trouxe depoimentos muito fortes. A gente está num estado muito transfóbico, muito machista, homofóbico. Então a gente tem que sempre dar ouvidos às vozes femininas e estar atentos, atentas também. A ColetivA De Trans Pra Frente é muito importante nesse sentido. Já faz muito tempo que elas estão nessa linha de frente, fazendo esse trabalho. E isso é um serviço muito importante para a sociedade”.
(7.mar.26) — Integrantes da Coletiva De Trans Pra Frente apresenta performance durante a 31ª edição da Feira Ziriguidum. Foto: Tero QueirozSobre o Dia Internacional das Mulheres celebrado na Feira Ziriguidum, Susan e Berbela foram enfáticas: mais que um dia de festa em prol das mulheres, trata-se de um dia de luta.
“É um dia de verdades, de máscaras que têm que cair, para a gente destituir, para a gente tirar mesmo de cena esse machismo estrutural que existe neste estado, nesta cidade”, disse Berbela.
Para Susan, o Dia das Mulheres representa resistência e amor.
“Eu acredito que a gente está vivendo numa cidade muito conservadora. Então, só de estarmos vivas, a gente já mostra a nossa resistência. A nossa existência. A gente está aqui, a gente está viva, a gente existe. A gente vai continuar resistindo, mostrando e demonstrando amor e afeto. Amor nunca é demais. E amor não é só hétero; existem várias outras formas de amar”.
Berbela complementa que isso só é possível com uma rede de apoio.
“É importante a gente criar também uma rede — uma rede logística mesmo — de mulheres que se apoiam e se defendam. Eu digo fisicamente, juridicamente, estruturalmente, de todas as formas, para a gente combater isso. Eu sou mãe de uma adolescente e é muito difícil conviver nessa cidade com essa estrutura machista que existe. Então o Dia das Mulheres, para a gente, é um dia de luta”.
Para o casal, a Feira Ziriguidum é um espaço de luta pela diversidade.
“É a primeira vez, em seis meses, que eu retorno aqui e vejo o quanto aumentou o número de pessoas vendendo e participando da feira. Para mim, isso aqui virou mais do que uma feira. É um encontro cultural, um encontro de resistências mesmo. Você vê pessoas nas barracas vendendo coisas totalmente diferentes, diversas, e é isso que a gente procura. Então eu acho que isso aqui é muito mais que uma feira”, disse Susan.
(7.mar.26) — 31ª edição da Feira Ziriguidum reúne centenas de pessoas na Praça do Preto Velho, no Jardim Paulista, em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozBerbela sinalizou, assim como outros entrevistados, que o sucesso da feira se deve, em grande parte, à resiliência de sua fundadora, Luana Peralta.
“Às vezes a gente esquece das mulheres de fronteira. A Lu é uma mulher brasiguaia, uma mulher de fronteira que está trazendo essa cultura para a gente. Essa feira é algo muito importante para a cidade e só funciona devido à grande mulher que a levantou, a Luana”, concluiu Berbela.
Após essa entrevista, ao olhar ao redor, havia em grande parte mulheres pensativas em razão da performance. A mensagem da ColetivA atravessou pontualmente os homens, mas logo diluiu-se nos privilégios masculinos.
A próxima a se apresentar na noite foi anunciada: Erika Espíndola. Enquanto ela subia ao palco, procuramos ouvir mais mulheres sobre a apresentação da ColetivA, a bela noite de festa na Ziriguidum e o simbolismo real do Dia Internacional das Mulheres.
(7.mar.26) — Lais Almeida durante a 31ª Feira Ziriguidum, na Praça do Perto Velho, em Campo Grande. Foto: Tero Queiroz.Psicóloga, Lais Almeida estava atenta aguardando o início do show de Erika, um dos motivos que a levou até a Feira Ziriguidum naquela noite.
“Eu moro aqui perto, então eu frequento bastante, mas hoje vim assistir aos shows. Estou com minha mãe aqui. A feira cumpre um papel muito importante, porque reúne diversidade e debates importantes. Estamos num lugar onde há a união da arte e de respeito. Me sinto segura aqui”, disse ela.
Na opinião de Lais, o Dia Internacional das Mulheres na Ziriguidum é o cenário desejado.
“Queríamos nos sentir seguras assim em qualquer lugar, mas não é a realidade. Então, considero essa noite um presente para todas as mulheres e suas famílias que estão aqui”, disse otimista.
(7.mar.26) — Gleycielli Nonato na 31ª edição da Feira Ziriguidum em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozA multiartista indígena Gleycielli Nonato Guató comentou que a apresentação da ColetivA reflete a realidade.
“Começamos o ano com feminicídio. A primeira morte de 2026 foi de uma mulher trans. Assistir a um coletivo de pessoas que se unem para debater, combater e ensinar é de suma importância. É preciso ter referências; elas são referências do que fazem e do sentido que transmitem diante desse retrocesso e dessa epidemia de violência que estamos enfrentando”, pontuou.
Nonato defendeu que, nesse Dia da Mulher de 2026, existe uma medida urgente a ser tomada.
“As mulheres precisam ocupar os espaços que lhes cabem e também os que dizem que não lhes cabem. Ocupem todos os espaços. Sejam todas as vozes: falem, ajam, expressem, dancem, cantem, manifestem todos os seus sentidos. Se não estivermos em todos os cantos, os cantos serão de quem não nos serve”, argumentou.
(7.mar.26) — Janaína Moraes durante a 31ª edição da Feira Ziriguidum em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozSentada em uma cadeira no gramado, Janaína Moraes citou a apresentação da ColetivA como um momento educativo, que permitiu a toda a população presente enxergar as situações às quais, infelizmente, as mulheres são submetidas.
“E nem é 100% do que contaram. É dor, luto, fragilidade, respeito, carência. Essa apresentação fez as pessoas abrirem o olhar e perceber que isso está realmente acontecendo — e que pode piorar. A apresentação das meninas foi incrível, maravilhosa, me arrepiei. É preciso que as pessoas vejam o que realmente acontece e que a luta seja fortalecida, que as meninas e as crianças não sejam vítimas da violência masculina”, desejou.
Repórter — Janaína, você costuma frequentar essa feira?
Janaína — Todas as vezes. Gosto muito do movimento cultural. Conheço a feira desde a primeira barraquinha que estava ali.
Repórter — O que você acha que fez a feira crescer tanto?
Janaína — Primeiro, a força e a garra da Luana Peralta. É uma feira cultural, alternativa, e todo mundo vem. Já trouxe minha mãe com o neném, já trouxe amigos. Quanto mais as pessoas compram essa ideia — que aqui se encontra de tudo: bebida, comida, roupa — mais a feira cresce. O que faz a feira crescer são as pessoas.
A FEIRANTE
(7.mar.26) — Jéssica Caroline realizou exposição com marca Ayele Tissu – Moda Africana durante a 31ª edição da Feira Ziriguidum em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozAlém de oferecer oportunidade de aprendizado ao público, a Feira Ziriguidum, segundo a feirante Jéssica Caroline, uma das colaboradoras da marca Ayele Tissu – Moda Africana, é uma oportunidade comércio-cultural.
“Não é só vender, é um momento em que podemos mostrar nossas raízes africanas por meio das roupas, nossas cores, nossas histórias mesmo para Campo Grande”, explicou.
Segundo Caroline, ao longo do tempo o público da feira se diversificou e tornou-se mais interessado na importância cultural das peças. E o mercado, segundo ela, passou a integrar as mulheres como criadoras.
“Agora estou entrando com a parte da criação também. Antes eu ajudava só na venda. Percebemos que a feira oferece bastante oportunidade. As pessoas estão valorizando cada vez mais. Acho que, principalmente na área da moda, estão surgindo bastante jovens, mulheres. Isso é muito importante para a gente, porque a gente está tendo espaço”.
(7.mar.26) — Jéssica começou vendendo ao lado do namorado, criador da marca Ayele Tissu – Moda Africana, e agora passa a atuar também na criação das peças. Foto: Tero QueirozO crescimento do número de produtores na feira, para Carolina, é o que trouxe o grande público.
“Vixe, cresceu muito. Toda edição há novos produtores, há uma novidade. Acho que esse público enorme vem pela quantidade de produtores. A gente percebe que tem mais produtores e também o investimento que a feira está trazendo. A gente percebe que está crescendo nessa parte de investimento. Que tem que ser cada vez mais, porque eu acho que muitas pessoas que estão aqui, principalmente as que são mais artesanais, têm um reconhecimento. E a população precisa ter um pouco disso, né? Não é só o shopping, é trazer o ar livre. É muito bom”.
A ENTREVISTA
(7.mar.26) — Luana Peralta, idealizadora da Feira Ziriguidum, se emociona durante leitura de texto sobre feminicídios ocorridos em Mato Grosso do Sul, na 31ª edição da feira, realizada na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozO relógio já marcava 21h30. Ao contrário do esperado, o movimento nas barracas ficou ainda mais intenso. Precisávamos entrevistar Luana, então insistimos no contato e ela aceitou. — Vamos lá. Mas vou me sentar e beber uma cerveja. Posso? — perguntou Luana, bem-humorada.
O repórter sinalizou que ela sequer precisava pedir. Pelo contrário: pediu licença e entrou sob a tenda do bar. Luana já estava com a cerveja em mãos, sentada numa cadeira de plástico próxima ao freezer.
(7.mar.26) — Erika Espíndola durante show na 31ª edição da Feira Ziriguidum, realizada na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozÀquela altura, Erika Espíndola encaminhava o fim de seu show e, para isso, cantava "Estoy Aquí", um dos maiores sucessos de Shakira, composta e produzida pela própria cantora em parceria com Luis Fernando Ochoa, e o público a seguia em coro, como é comum nesse tipo de apresentação.
(7.mar.26) — Erika Espíndola na 31ª edição da Feira Ziriguidum, em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozCom essa trilha, Luana foi sincera antes de iniciar a entrevista.
— Quero deixar registrado minha insatisfação com o fato de você [este repórter que vos escreve] não ter vindo antes nesta feira. Estou brava com isso — desabafou.
(7.mar.26) — TeatrineTV, omisso em edições anteriores, registra a 31ª Feira Ziriguidum na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozLuana estava coberta de razão. A Feira Ziriguidum teve início em 2 de setembro de 2023. Desde então, ocupou a Praça do Preto Velho todo primeiro sábado do mês e passou a formar artística e culturalmente o público que comparecia ao Jardim Paulista. Ambas as áreas são o cerne do trabalho jornalístico do TeatrineTV. Então, nenhum pedido de desculpas renderia a Luana o respeito merecido.
Ainda assim, devido à sua gentileza ímpar, Luana aceitou conceder entrevista. Ela começou comentando a pergunta sobre por que acha que a feira se realizou num sucesso de público e missão artístico-cultural.
“Nossa, que pergunta difícil, hein? Cara, eu acho que deu tão certo pela necessidade mesmo da população em si, principalmente daqui, de ter acesso à cultura, de ter acesso a espaços, até a uma ocupação na praça. Você traz economia criativa, música, skate, teatro, a galera trazendo a gurizada. Então eu acho que as pessoas têm essa necessidade. A cultura é uma coisa que é uma necessidade básica. A gente precisa de cultura”, opinou.
(7.mar.26) — 31ª Feira Ziriguidum na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS), simboliza o sucesso da produtora cultural Luana Peralta. Foto: Tero QueirozAlém disso, Luana se deu, sem demagogia, o devido crédito pelo sucesso da feira que idealizou.
“Então eu acredito que deu certo muito por isso e de coração, porque eu sou uma pessoa muito dedicada ao que eu pego para fazer. Eu gosto de ver, eu me emociono com o crescimento e com a gente enxergar do que a gente é capaz de fazer. É muito legal. Quando a gente tem apoio, a gente consegue voar muito mais, com certeza. Mas se a gente estiver sozinha, a gente voa também. Capenga, mas voa”.
(7.mar.26) — Feira Ziriguidum na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS), é um espaço seguro para mulheres. Foto: Tero QueirozPouco antes do início da apresentação de Erika, Luana havia subido ao palco para declamar um texto em que denuncia a violência contra as mulheres. Durante a fala, ela chegou a chorar. À reportagem, contou sobre o momento.
“Eu escrevi um texto para falar e terminei o texto e achei que faltou. E aí, na hora, me veio essa vontade de falar, porque eu sou mãe de duas adolescentes, de 17 e 18 anos, e eu passo por isso, esse aperto no peito de saber se minhas filhas vão voltar. O que está acontecendo hoje no mundo é inadmissível”.
(7.mar.26) — Feira Ziriguidum na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS), se apresenta como oportunidade de formar uma sociedade livre de violência contra as mulheres. Foto: Tero QueirozDe acordo com Luana, a reeducação masculina tem que começar na família.
“É uma prioridade e a gente precisa fazer com que os homens sentem, reflitam e aprendam. Eu, como mãe de menino, acho que o meu papel é fundamental de educá-lo para que isso não aconteça. A gente viu esse último caso de adolescentes que ceifaram a vida de uma mulher, mas também acabaram com a vida deles. Então qual é esse motivo? Qual é essa sede de tomar conta do corpo feminino assim? Então é uma coisa que me deixou com muita raiva mesmo. E aí veio”, revelou.
(7.mar.26) — Feira Ziriguidum na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS), é um espaço também para o debate diverso. Foto: Tero QueirozAinda segundo Luana, a Feira Ziriguidum é um espaço de livre debate, mesmo que talvez não mude o cenário de violência contra mulheres por meio das ações artísticas.
“Eu não sei se tem possibilidade de mudar, porque a gente vem aqui mais como entretenimento. Mas acho que a gente tem que estar sempre ocupando esses espaços para falas que talvez não sejam bem-vindas em outros lugares e que as pessoas acabam ouvindo na marra. Então eu acho que a gente tem um papel. A gente que tem esse poder de fala, que tem esse microfone na mão, tem que ocupar esses espaços para usar essas pautas que são extremamente importantes para serem ditas”.
(7.mar.26) — Feira Ziriguidum na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozA Praça do Preto Velho — nome de uma das entidades espirituais cultuadas em religiões afro-brasileiras, que representa espíritos de ancestrais africanos que viveram como escravizados no Brasil — não foi escolhida por Luana devido à sua religião.
“Eu não sou de terreiro, sou apenas simpatizante. Mas eu fui criada nesta praça. Minha mãe morava no Jardim Paulista, minha avó mora há 40 anos no Monte Líbano, então eu sempre estive aqui”, anotou.
Repórter — E o que te fez escolher esta praça para realizar a Feira Ziriguidum?
Luana — Eu escolhi esta praça a dedo, porque eu era expositora, eu vendia cachorro-quente aqui quando tinha o Sarobá, do Maracangalha. Então eu tenho um carinho imenso por esta praça. E eu, como simpatizante ou não, acredito que a gente tem apenas que respeitar. Não é aceitar, é respeitar o espaço de cada um.
(7.mar.26) — Feira Ziriguidum na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozA feira SAROBÁ citada — que posteriormente se converteu em um movimento de ocupação das ruas — é uma ação feirante realizada pelo grupo Teatro Imaginário Maracangalha desde 2010 em Campo Grande (MS). O nome é de 1936, criado pelo poeta corumbaense Lobivar Matos.
(7.mar.26) — Feira Ziriguidum na Praça do Preto Velho, em Campo Grande (MS). Foto: Tero QueirozJá haviam passado vários minutos desde que iniciamos a entrevista. A cerveja de Luana chegava ao fim; então, a reportagem quis saber o que Luana diria ao poder público, que ao longo das 31 edições ofereceu apenas apoios pontuais, sem nada concreto de política pública destinado à Feira Ziriguidum. Luana foi enfática ao se dirigir aos gestores de cultura:
“Ah, cara… porra, já deu, né? Vamos ajudar. Se a gente com tão pouco já faz um movimento desse, imagina se você investir em mim, poder público. Vem investir em mim. Vem ajudar a gente. Vem ajudar com a estrutura, porque a gente não tem. Todo mês a gente tem que estar indo atrás, buscando de outros lugares para que a gente possa pagar melhor os nossos artistas, para que a gente possa cobrar menos a taxa de expositor, saca? Para que eu, como produtora cultural, possa ter o meu salário. Eu faço um serviço público para a sociedade, gratuito. Você entendeu? Então acredito que quem tinha que me pagar não é o que sobra da minha feira, é o poder público, porque a gente está prestando um serviço. É o que a gente vive aqui há muito tempo. Eu acredito que tenha melhorado, sim. Pelo menos para o meu lado, melhorou. Mas acho que o poder público pode mais. Acho que é isso”, finalizou.
Veja a cobertura fotográfica completa da feira na nossa Galeria Cultural.







