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'BRASILIANO'

Lucas Santtana canta a história da língua brasileira em oito idiomas

Baiano anuncia álbum dos 25 anos de carreira

Por TERO QUEIROZ • 26/02/2026 • 01:02
Imagem principal Obra musical comemora 25 anos de carreira do artista e investiga a história, a política e a identidade da língua falada no Brasil, com músicas inéditas em brasiliano (português do Brasil). / Crédito: José de Holanda

Ao completar duas décadas e meia de trajetória, o cantor e compositor baiano Lucas Santtana lança seu décimo álbum de estúdio.

Intitulado "Brasiliano", o projeto chega ao público no dia 6 de março com uma proposta conceitual e política anunciada como 'ousada'.

O disco investiga a identidade, a riqueza e a complexidade do idioma falado no Brasil e suas matrizes formadoras.

Para criar esse mosaico, a obra é cantada em oito idiomas: tupi-guarani, occitano, francês, italiano, espanhol, galego, kriol (crioulo da Guiné-Bissau) e o próprio "brasiliano".

Lucas Santtana crédito: José de Holanda / capa do álbum Brasiliano crédito Jêrome WitzCapa do álbum Brasiliano. Crédito: Jêrome Witz

Por meio de 11 faixas inéditas, o artista narra a longa viagem da nossa língua, desde as raízes no latim vulgar até o encontro com os povos indígenas e africanos.

O projeto fonográfico dialoga diretamente com a literatura, trazendo prefácio de Caetano Galindo e posfácio de Sérgio Rodrigues.

O pontapé inicial dessa jornada foi o single "A História da Nossa Língua", um verdadeiro road movie linguístico gravado em parceria com Gilberto Gil.

"É como se a nossa língua fosse um ser feminino que nasce na região de Lazio-Itália e depois faz uma longa viagem até encontrar o Tupi-Guarani, com a chegada das caravelas portuguesas no Brasil. Nessa jornada ela encontra outras “pessoas”, que são as línguas que fazem parte da formação do português e consequentemente do Brasiliano. São elas o Occitano, o Celta, o Galego, o Moçárabe, o tupi-guarani". 

A linha do tempo traçada por Santtana também passa pela Europa com a faixa "Strati di Tempo", um dueto com o cantor italiano Dimartino.

A canção aborda o idioma como uma herança afetiva, transmitida e transformada por avós, mães e filhas ao longo das gerações.

"O italiano é a língua românica mais próxima do latim vulgar, já que foi de uma região da Itália, a Toscana, que essa língua partiu em viagem pelo mundo, por meio da expansão do império Romano. A língua italiana e a língua brasileira têm muitas palavras em comum. Algumas com o mesmo sentido e outras que se escrevem igual, mas que têm significados diferentes. Contudo as vogais abertas trazem uma musicalidade parecida entre ambas"

Outro grande marco do disco é o reencontro histórico de Lucas com Os Paralamas do Sucesso no single "Que Seja um Reggae".

A colaboração fecha um ciclo iniciado no primeiro álbum do baiano, quando ele regravou a icônica "Mensagem de Amor", de Herbert Vianna.

"É a minha gravação mais escutada nas plataformas digitais de música. Muita gente pensa até hoje que a música é minha".

A nova parceria celebra esse vínculo duradouro de admiração mútua entre os artistas.

"Finalmente, 25 anos depois de ‘Mensagem de Amor’, tenho a honra de tê-los cantando e tocando comigo a minha música ‘Que Seja um Reggae’. Um ciclo que se completa, mas espero que não termine, pois quero sempre estar perto dos meus heróis de adolescência". 

O disco também aposta na coletividade festiva em "Ver Meu Povo se Abraçar", uma parceria com Chico César que evoca a origem occitana das festas juninas.

Com Rachel Reis, a melancólica "Eu Ainda Te Amo" explora a compreensão do afeto a partir da dor da ausência.

A dimensão política e decolonial do apagamento cultural ganha os holofotes na faixa "Línguas Gerais".

A música reúne a cantora indígena Tainara Takua e o rapper francês Oxmo Puccino para debater o racismo linguístico e a colonização.

Ao lado de nomes como Karyna Gomes, Piers Faccini, Flavia Coelho e a poeta galega Maria Lado, Lucas Santtana deve entregar sua obra mais madura da carreira.  

CONFIRA O QUE ESPERAR DAS FAIXAS DE “BRASILIANO”

1- “A História da Nossa Língua” feat. Gilberto Gil

(Lucas Santtana)

Abro o álbum com uma canção de orquestração épica para contar a trajetória da língua que falamos. Imagino a língua brasileira como um ser feminino que nasce do latim vulgar, na região do Lácio, e atravessa o oceano até encontrar o tupi-guarani no Brasil. Nessa viagem, ela se transforma ao cruzar com outras línguas que moldaram o Brasiliano, como o occitano, o celta, o galego e o moçárabe. A canção costura palavras indígenas presentes no nosso cotidiano e culmina na pergunta: “Que língua é essa? Essa língua é brasileira!”. A faixa foi inspirada no livro Latim em pó, de Caetano Galindo, e conta com a participação de Gilberto Gil, hoje membro da Academia Brasileira de Letras.

2- “Línguas Gerais” feat. Tainara Takua e Oxmo Puccino

(Lucas Santtana/ Oxmo Puccino)

A faixa começa com a voz da jovem cantora indígena Tainara Takua, cantando “Beija-flor”, composição sua em tupi-guarani. Essa língua foi a base das línguas gerais, faladas majoritariamente nos dois primeiros séculos e meio do Brasil. A canção também traz o rapper francês Oxmo Puccino, refletindo sobre colonização e decolonização. Ao mencionar a frase “ê monsieur! on parle l’afriquée!”, a música critica a confusão racista e xenófoba promovida por Éric Zemmour ao estigmatizar a fala de filhos de imigrantes das ex-colônias francesas, ampliando o debate sobre língua, poder e apagamento cultural.

3- “Liga” feat. Cocanha

(Lucas Santtana/ Caroline Dufau e Lila Fraysse)

Essa canção fala da importância de escutar a própria língua para reconhecer o seu povo. Se a cultura define quem somos, a língua é sua base: é ela que nomeia o mundo. Cocanha é um duo feminino que canta em occitano e tem sua pesquisa artística voltada à preservação dessa língua ameaçada. O occitano influenciou o espanhol e o galego a partir do século XIII, por meio dos trovadores medievais, e essas transformações chegaram ao português e, mais tarde, ao Brasiliano.

4- “Strati di Tempo” feat. Dimartino

(Lucas Santtana)

Aqui penso a língua como herança familiar, transmitida de geração em geração, por avós, mães e filhas; em camadas que se acumulam ao longo do tempo. Cada geração modifica sutilmente a língua, refletindo mudanças culturais e comportamentais. Ainda assim, a língua materna permanece como núcleo íntimo de memória e identidade. A faixa conta com a participação de Dimartino.

5- “Dans Le Sud” feat. Flavia Coelho

(Lucas Santtana / Flávia Coelho)

Minha primeira parceria com Flavia Coelho é uma canção solar, praieira, inspirada em Henri Salvador. Fala de um flerte entre quem vive no Mediterrâneo e quem vem do Norte, um encontro leve, atravessado pelo desejo, pelo clima e pela música.

6- “Cuando Mi Lengua” feat. Maria Lado

(Lucas Santtana)

Essa canção aborda a língua de forma física e carnal. A língua como lugar máximo de conexão entre duas pessoas ou como fricção entre dois idiomas. No refrão, imagino duas línguas que se entrelaçam num beijo, como serpentes ou como a dupla hélice do DNA. A faixa traz a poeta galega Maria Lado, que recita o poema Paxaros e maceiras. Apesar de ter sido proibida pela Igreja por quatro séculos, a língua galega resistiu e se tornou matriz do português, influenciando profundamente a cultura do Nordeste brasileiro.

7- “Ver meu Povo se Abraçar” feat. Chico César

(Lucas Santtana/ Chico César)

Essa parceria com Chico César é uma homenagem às festas de São João, que ficaram suspensas durante dois anos de pandemia. A canção celebra o reencontro, o abraço e a coletividade. A festa tem origem na Occitânia medieval, ligada ao solstício de verão e à colheita. Reprimida inicialmente pela Igreja, acabou sendo incorporada ao calendário cristão. Tanto lá quanto no Brasil, permanecem os mesmos símbolos: fogueiras, adornos, sanfona e dança.

8- “Eu Ainda te Amo” feat. Rachel Reis

(Lucas Santtana/ Fábio Pinczowski)

Uma canção de amor sobre ausência e perda. Fala de alguém que só entende o valor da relação depois que ela acaba. Rachel Reis, uma das vozes mais singulares da nova música brasileira, traz à faixa sua mistura de referências tradicionais com uma timbragem indie-pop muito própria.

9- “Battre des Ailes” feat. Piers Faccini

(Lucas Santtana/ Piers Faccini)

Piers Faccini é um compositor que transita entre o folk anglo-saxão e as culturas musicais do Mediterrâneo, da Ásia à África. Essa canção nasceu de uma conversa nossa no sul da França, durante o verão. A partir daí, transformamos em poesia algumas teorias sobre o som intermitente das cigarras, que anunciam a chegada da estação na região.

10- “Que Seja um Reggae” feat. Os Paralamas do Sucesso

(Lucas Santtana)

Aqui, falo de um amor que não chega de forma avassaladora, mas se instala aos poucos, silencioso e constante, revelando sua força com o tempo. A participação de Os Paralamas do Sucesso é essencial: eles mostraram que o rock podia dialogar com ritmos brasileiros, africanos e latinos. Ensinaram a toda uma geração que rock é uma forma de tocar, não um limite estético. Isso foi libertador e profundamente decolonial.

11- “Independência” feat. Karyna Gomes

(Lucas Santtana / Karyna Gomes)

Essa canção afirma a necessidade de reconhecer nossa independência linguística, chamando a língua que falamos de Brasiliano e não de “português do Brasil”. Muitos linguistas já reconhecem que se trata de outra língua, com estrutura, ritmo e identidade próprias. A faixa conta com a participação de Karyna Gomes, cantora da Guiné-Bissau e defensora da autonomia linguística em seu país. Ela canta em crioulo, ampliando o diálogo entre línguas que nasceram da resistência.

FICHA TÉCNICA BRASILIANO

  • Produção Lucas Santtana;
  • Mixagem Fabio Pinczowski;
  • Masterização Brendan Duffey;
  • Gravado por Fabio Pinczowski (Studio 12 Dolares - São Paulo), Orpheo (Studio Vox - Montpellier), Yoan Jauneaud (Studio Kasbah - La Grange), Julien Reyboz (Studio Ohm Sweet - Paris), Bruno Buarque (Studio Minduca - São Paulo), Lucas Santtana (Home studio - Montpellier), Yannick Tournier (Studio Watti - Toulouse), Caetano Malta (Studio Bambino - Paris), Leo Alcântara (Studio Visom – Rio de Janeiro), Apu Tude (Studio Ori - Salvador), Dimartino (home studio – Milan), Thiago Braga (Studio Palco – Rio de Janeiro), Alexandre Fontanetti (Studio Space Blues – São Paulo) e Seco bass (Máquina de louco - Salvador).

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Tags: A História da Nossa Língua, Brasiliano, Flavia Coelho, Karyna Gomes, Lucas Santtana, Maria Lado, Oxmo Puccino, Piers Faccini, POVOS INDÍGENAS, Tainara Takua

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