Robertson Isan Vieira, ceramista e produtor cultural, de 57 anos, nascido e criado em Coxim, Mato Grosso do Sul. Fotos: Arquivo pessoal
O Troféu Folia do Carnaval 2026 de Coxim (MS) carrega as águas do Pantanal e a alma de Robertson Isan Vieira.
Aos 57 anos, o ceramista e produtor cultural sul-mato-grossense traduz a identidade regional no barro.
Robertson faz grandes vasos de cerâmica adornados com grafismos indígenas e signos pantaneiros em Coxim (MS). Fotos: Arquivo pessoalEm entrevista ao TeatrineTV, Robertson contou sobre o início de sua relação com a artesania.
“Minha relação com o fazer manual começa na infância. Meu pai era pescador, escultor em madeira e confeccionava tarrafas. Cresci acompanhando esse trabalho ligado ao rio e à vida ribeirinha. Foi ali que aprendi o valor do tempo, da matéria e do trabalho feito com as mãos", introduziu.
Robertson e o pai nas águas do Rio Taquari. Foto: Arquivo pessoalNesse ambiente pantaneiro ele criou a estética do que viria se tornar obras de arte.
“A cerâmica veio mais tarde, mas carrega essa base: identidade, território e memória”, explicou Robertson.
Robertson modelando um jacaré em uma madeira. Foto: Arquivo pessoalSuas referências visuais misturam o cotidiano ribeirinho com os tradicionais grafismos indígenas.
“Tenho pesquisado referências de alguns grafismo Kadiwéu a partir dos estudos do Memorial Henrique Spengler. Também dialogo com elementos do cotidiano ribeirinho — peixes, redes, frutos, o movimento das águas do Pantanal. Minha produção parte dessa observação e pesquisa. Não se trata de reprodução, mas de interpretação em cerâmica, principalmente em relevos e peças com temática ligada à pesca e à cultura pantaneira", detalhou.
Robertson fez diversas formações e teve orientações para inserir-se no mercado de venda de artesanatos. Foto: Arquivo pessoalPara aprimorar o trabalho e tornar as peças atrativas ao mercado, Robertson contou com apoios institucionais.
"Ao longo da trajetória, participei de consultorias e treinamentos do SEBRAE/MS, que contribuíram para estruturar melhor o trabalho. Também integro a plataforma Made in Pantanal, que valoriza a produção regional", explicou.
Processo de feitura dos troféis do carnaval pantaneiro em Coxim, criados por Robertson. Foto: Arquivo pessoalConvidado pela Liga Carnavalesca de Coxim, o artista modelou o prêmio dos blocos vencedores deste ano.
“Sempre participei do Carnaval como brincante”, disse Robertson, que aceitou a missão como um desafio.
Deunice Andrade de Oliveira foi responsável por pintar o troféu criado por Robertson. Foto: Arquivo pessoalA peça esculpida, que ganhou cores pelas mãos de Deunice Andrade de Oliveira, traz um peixe com chapéu de bobo da corte.
“Pensei a peça como símbolo da identidade local. Busquei traduzir movimento, alegria e pertencimento”, afirmou.
O troféu criado por Robertson Isan Vieira para o Carnaval 2026 em Coxim. Foto: Arquivo pessoalPara o produtor cultural, existe um recompensa singular em atuar no interior de Mato Grosso do Sul.
“A principal alegria é perceber que a produção local pode ganhar reconhecimento sem perder sua raiz”, avaliou.
Robertson atua na Associação Espaço das Artes e ministra aulas de modelagem no CAPS de Coxim.
“Sustentabilidade, para mim, envolve economia, responsabilidade ambiental e impacto social”, definiu o artesão.
Peças artesanais criadas por Robertson. Apesar das vitórias, ele reconheceu que produzir longe dos grandes centros exige articulação.
“O maior desafio é o acesso — a mercado, formação e visibilidade”, ponderou.
Ainda assim, ele acumula prêmios pelo simbolismo e qualidade de seu trabalho, que alcançam a Capital sul-mato-grossense e até mesmo fora do estado.
Robertson durante o projeto 'Encontro da Cerâmica nas Águas do Pantanal', idealizado pela ceramista Andrea Lacet. Foto: Arquivo pessoal"Algumas conquistas marcaram essa caminhada, como a Medalha Conceição dos Bugres, o primeiro lugar na categoria Inovação Tecnológica no 1º Festival de Artesanato do Estado e a exposição permanente das peças “Vaso Piraputanga” e “Dourado” no Bioparque Pantanal", citou, destacando que os reconhecimentos foram resultado do projeto “Encontro da Cerâmica nas Águas do Pantanal”, idealizado pela ceramista Andrea Lacet.
"São reconhecimentos que fortalecem a trajetória e demonstram que é possível produzir no interior e dialogar com outros espaços", comentou Robertson.
Para o futuro, o artista disse estar preparando a execução do projeto cultural “Ícones do Barro”, apoiado pelo FIC/MS, que será realizado em Coxim e Rio Verde de Mato Grosso.
“A proposta é oferecer formação em cerâmica com foco na iconografia regional e na valorização da identidade local”, adiantou.
O objetivo de Robertson é claro: manter o olhar voltado para as próprias raízes enquanto expande o alcance das suas peças de arte.
“A intenção é seguir aprofundando pesquisa, formação e produção autoral, mantendo o vínculo com o território e ampliando horizontes”, concluiu.





