(17.jul.26) - Encontro do setor Audiovisual Sebrae da Avenida Mato Grosso em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz
Durante duas mesas do Programa de Aceleração do Setor Audiovisual na noite desta 6ª feira (17.jul.26), no Sebrae da Avenida Mato Grosso, em Campo Grande (MS), foi possível enxergar o cerne do problema enfrentado pelos trabalhadores do cinema sul-mato-grossense. Não falta talento. Falta coragem e compromisso.
O primeiro painel, iniciado às 19h, colocou frente a frente o gerente de programação da TV Morena, Kaká Neves, e o diretor de Conteúdo da TV Educativa (TVE MS), Átilla Eugênio, com trabalhadores do audiovisual. Na ocasião, tanto Kaká quanto Átilla disseram que querem conteúdo audiovisual local em suas grades, mas afirmaram que “não há verba” para isso.
Vale lembrar que a Fundação Jornalista Luiz Chagas de Rádio e TV Educativa de MS (Fertel) é um braço do Governo do Estado que deveria servir como janela para impulsionar as produções locais para o Brasil e para o mundo. Nos quatro anos de Eduardo Riedel, porém, foi levada a um nível de sucateamento.
Foi nesse contexto que o repórter do TeatrineTV, que também é cineasta, questionou Kaká e Átilla: as TVs que eles representam têm medo das ficções sul-mato-grossenses? É por isso que não abrem espaço na grade, ao contrário do que fazem emissoras locais de outros estados?
O diretor da TV Morena desconversou. Para justificar a “boa intenção” da emissora, citou uma parceria da TV Globo com uma produtora de Cuiabá (MT) que teria dado certo. Não mencionou o nome do projeto, mas se referia ao telefilme 'Amor em Movimento', exibido na Tela Quente em 1º de julho deste ano. O filme trata do grupo de siriri Raízes e da cultura mato-grossense.
Kaká argumentou que o longa funcionou como uma espécie de “estratégia” porque carregava o “carimbo Globo”. Questionado pelo cineasta Ulisver Silva se havia previsão de uma parceria semelhante para Mato Grosso do Sul, respondeu que não sabia.
Na TV Educativa, a situação foi praticamente a mesma. Átilla repetiu que “deseja exibir filmes locais” e citou um edital aberto pela emissora para licenciamento de obras.
Depois de horas de palestra, a conclusão dos dois executivos foi confortável: os realizadores de MS é que precisariam “bater na porta” das emissoras para buscar espaço e eles estariam “dispostos a atender as demandas”.
Na mesma mesa com Kaká e Átilla estavam a cineasta Elis Regina e a produtora audiovisual Marjorie Rojas.
Elis disse que estava no evento representando Andreia Freire, coordenadora do Bonito CineSur – Festival de Cinema Sul-Americano, que faltou “porque está uma correria” com a próxima edição do festival, que inicia em 24 de julho. Elis leu uma carta escrita por Andreia que, na prática, exaltava o CineSur, mas não trouxe um debate em si para o momento.
No mesmo sentido, Marjorie esteve no evento representando os realizadores do Curta Campo Grande, cujos 'chefes' também faltaram à reunião. Em sua explanação, Marjorie apresentou slides também exaltando o próprio festival, mas sem trazer nenhum elemento de debate para os pares.
PAINEL DE REALIZADORES
O segundo painel reuniu Roberto Leite, Ulisver Silva, Ligia Tristão Prieto, Laura Cristina e Ana Ostapenko. Foram mais de 1h30 de debate sobre o sufoco de fazer cinema no Estado.
Ulisver resumiu bem o drama da distribuição. Roda festivais, acumula prêmios com seu primeiro longa 'Enigmas no Rolê' e, ainda assim, não consegue colocar o filme na televisão ou nos streamings.
Ligia Tristão Prieto trouxe outro relato. Ela está na pós-produção de 'Quando a Gente se Encontrar', primeiro longa de ficção escrito e dirigido por uma mulher em Mato Grosso do Sul.
Ligia contou que, em uma reunião no Rio2C, uma compradora olhou o projeto e disparou: “Terei problema para distribuir seu filme, porque não tem nenhum famoso”. Ela bateu o pé. Disse que o filme tem um elenco afinado e que o Brasil precisa conhecer esses atores. Com isso, Ligia disse que conseguiu, ao menos, que a executiva aceitasse assistir à obra.
A técnica de áudio Laura Cristina, representando também o Colegiado de Audiovisual, cobrou apoio real para as produções do Estado. Ela foi a única a lembrar que, sem os recursos federais, praticamente não haveria dinheiro circulando no audiovisual sul-mato-grossense.
PASSANDO PANO?
Logo após a fala de Laura, o mediador Fábio Flecha afirmou:
“O Estado não tem que distribuir os filmes, eles nem sabem fazer isso”, ponderou de maneira divertida.
A argumentação recebeu gestos de apoio de Ana Ostapenko, que estava no local como “cineasta”, mas também é servidora da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, onde atua como representante da Film Commission.
Com essa fala, Flecha acabou eximindo — talvez sem perceber — o Governo de Mato Grosso do Sul de qualquer responsabilidade sobre a distribuição de filmes que o próprio Estado não ajudou sequer a financiar.
Na hora, o repórter do TeatrineTV não teve oportunidade de rebater ao microfone.
Mas é preciso registrar um fato: hoje, a produção audiovisual de MS é sustentada majoritariamente por recursos do Governo do presidente Lula (PT), via Ministério da Cultura, por meio das Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc.
Nos quatro primeiros anos da gestão Eduardo Riedel (PP), o investimento estadual direto no setor foi mínimo.
A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) transformou-se, na prática, em um gabinete de repasse de verba federal.
E, enquanto se omitia de investir no cinema, a FCMS da gestão Riedel torrava milhões dos cofres estaduais em contratações de shows musicais sem concorrência.
Por fim, ficou escancarado que o evento para “acelerar” o audiovisual de MS ignorou a realidade do vácuo de investimento do governio estadual no setor audiovisual.
PROGRAMA DE ACELERAÇÃO
A proposta de encontros no Sebrae de Campo Grande intitulada Programa de Aceleração do Setor Audiovisual continua neste sábado (18.jul.26).
Nesta data, o diretor Bruno Bini participaria do evento, mas cancelou a presença “por motivos particulares”.
Em seu lugar, foi confirmado o painel Conectando Histórias e Paisagens ao Grande Público, das 9h às 12h, com a cineasta Lidiane Reis.
Lidiane é coordenadora do Mercado SAPI, idealizadora do Prêmio CORA, roteirista e produtora de obras premiadas, entre elas Oeste Outra Vez, vencedor do Kikito no Festival de Gramado.