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CRÍTICA

Josh O'Connor e dois ladrões diferentes: niilismo em La Chimera e The Mastermind

Por EDVALDO QUARESMA NETO* • 18/03/2026 • 14:01
Imagem principal Cena do filme The Mastermind | Foto: Divulgação/ Imagem Filmes

É bem provável que você conheça a saga Knives Out, ou simplesmente Entre Facas e Segredos, como ficou conhecida aqui no Brasil. No último longa, Vivo ou Morto: um mistério Knives Out, conheci o ator britânico Josh O’Connor, o qual interpretou um padre ex-boxeador acusado de um crime de assassinato. Gosto dessa saga, então, de maneira geral, gostei também da atuação dele.

Alguns poucos dias depois, uma obra me chamou a atenção: La Chimera, um filme italiano que aborda uma trupe de ladrões especializada em roubo de obras de arte antigas, da época etrusca.

Para a minha surpresa (realmente, só percebi quase um terço depois do filme), o ladrão principal, que aparentemente falava com espíritos que lhe diziam onde encontrar essas obras, era interpretado por O’Connor. Vendo a diferença dos dois personagens, fiquei bem animado para continuar a vê-lo.

Um mês se passou, e chegou a mim The Mastermind (2025), de Kelly Reichardt, onde Josh O’Connor interpretava um americano, durante a década de 70 do século passado, que resolveu investir em roubo de obras de arte para ganhar uma grana.

Percebi aquela coincidência temática, e isso me deixou animado. Por um lado, um ladrão cercado de misticismo e uma tristeza que parecia acompanhar o personagem aonde quer que ele fosse. Do outro, um homem meticuloso, em que certas condições parecem ter se reunido para torná-lo um ladrão.

Sem cair em spoilers, quero discutir as diferenças e as similitudes dos longas.

Foto: Simona Pampallona / DivulgaçãoJosh O'Connor em La Chimera | Foto: Simona Pampallona / Divulgação/ NEON 

Em La Chimera, Arthur (personagem de O’Connor) parece um tanto quanto descontente, deprimido. E logo sabemos que é viúvo e que sua sogra ainda aguarda o retorno de sua filha falecida – como se ele tivesse ido apenas a uma viagem. Aqui, o misticismo faz parte; não há dúvidas para ninguém de que ele conversa com espíritos, e eles lhe dizem onde encontrar os tesouros de uma velha Toscana – até daí vem sua importância.

Já em The Mastermind, James Blaine é o personagem do tipo prático, desempregado; ele mente até para a mãe para conseguir financiar seu roubo a uma galeria de arte. O roubo dá certo, e o filme desenrola-se após ele ter sido trapaceado por um dos seus parceiros.

Uma das coisas que vejo com convergência é um tipo de niilismo do mais sofisticado. Por um lado, Arthur não tem nada, mora em um barraco (que depois a polícia italiana vem desmontar), perdeu a mulher e parece estar preso naquele ciclo de roubo, além de se ver, sem certo sentido, refém de seu dom. A atmosfera é suja, seus amigos não parecem o estimar tanto assim, e ele não sabe o que fazer.

Em The Mastermind, James Blaine tem uma família normal; seu pai é juiz e pode lhe ajudar, mas há aquele clima materialista americano enquanto se desenrola a Guerra Fria de fundo.

Aqui, de um lado, um homem desesperançoso que perdeu o sentido da própria vida e parece viver no automático; do outro, um individualista que deixa até a família de lado para fugir, age de maneira astuta em uma sociedade do consumo, o dinheiro é seu foco. O primeiro é metafísico; o segundo, o extremo da materialidade.

Foto: Divulgação/ Imagem FilmesCena de The Mastermind | Foto: Divulgação/ Imagem Filmes

Se, por um lado, o tipo de niilismo encontrado em Arthur é do tipo subjetivo, isto é, vê a si corrompido em um ciclo sem fim, encontra-se dentro de si mesmo um vazio, uma maluca em sua alma que não tem forças para mudar. Já James Blaine é o contrário, é do tipo objetivo; o niilismo é criado de fora, em uma sociedade em guerra, onde os fragmentos do colapso do contrato social já evidenciam seus primeiros sintomas.

Não nos fica claro o que o motiva a roubar, mas há um quê de diversão, um quê de indiferença moral. Em uma sociedade onde os valores parecem já entrar em declínio, o filho do juiz da cidade roubar a galeria da qual sua família é sócia parece uma ironia típica da sociedade americana.

Em um dado momento, vemos protestos de mães não querendo que seus filhos sejam convocados à guerra; o mundo está ali, com problemas reais, mas, para James, é como se ele fosse um agente de fora de tudo isso, vivendo sua vida olhando da perspectiva que lhe convém – e reagindo (quem sabe inconscientemente) àquele plano de fundo de incertezas econômicas e nucleares, ao mesmo tempo em que afirma sua individualização e é o produto de uma sociedade do capital, onde é culpado exteriormente, objetivamente, mas refém (por que não?) do espírito do seu próprio tempo.

Bem diferente é Arthur, em La Chimera: “o sistema” aparece, seja na estação e trem desocupados que servem de abrigo a imigrantes (inclusive brasileiros), seja como o próprio Arthur vive, seja como aquela comunidade se porta, como herdeiros de algo que já não existe, enquanto vendem a própria história para magnatas.

Contudo, o tipo de personalidade e de arquétipos aqui apresentados é dos mais ricos. Os amigos de Arthur não parecem ter planos incríveis; roubam, bebem, se divertem e roubam de novo.

Foto: Simona Pampallona / DivulgaçãoCena do filme La Chimera (2023), dirido por Alice Rohrwacher | Foto: Simona Pampallona / Divulgação

O próprio Arthur, como já dito, parece mais como uma canoa levada pela maré de seu próprio destino, é uma entrega à sua própria ruína. Aquela cidade parece receber, sim, as contradições do mundo moderno, mas vive estas com um certo desdém, pois apresenta em si um tipo de resistência natural, não daquelas refinadas que se tornam teorias, mas do tipo que a televisão não gosta de mostrar. Se for possível se aproveitar, irão.

Diferente de Mastermind, onde O’Connor parece interpretar alguém imerso em um mundo onde os problemas estão dados e este se afirmar nele, em La Chimeira é o contrário: o mais importante é o que está dentro dele e dentro de cada personagem; a maldade, a pobreza e as contradições podem ser vistas de uma maneira psicológica. A própria fotografia nos faz ter essa sensação mais introspectiva.

Do interior da Itália a famílias típicas americanas, o que fica nesses longas é a habilidade de seus envolvidos – diretores, roteiristas e atores –, em nos fazer ora contemplar a relação do passado no presente, ora fazer parte do ritmo de uma sociedade que apresenta suas falhas humanas. Seja qual for, a pergunta ainda é a mesma: qual o sentido disso tudo?

 

*Historiador de formação, colunista por impulsão. Formado pela Universidade da Amazônia, Edvaldo transita entre cultura, história das ideias e a natureza humana. Seu foco é a relação do sujeito com o meio social e nos modos que ele se expressa. Crítico analítico – com uma pitada de Ironia.  Acompanhe o canal do autor no YouTube @edvaldoquaresmaneto

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