Hudson se torna mais um entre dezenas de casos de assassinatos policiais em Florianópolis justificados por uma suposta 'iminente injusta agressão.
Hudson era cria raiz. O mais novo e o mais extrovertido de uma família de seis irmãos, nunca foi de ficar em casa. Nascido e criado no Mocotó (Florianópolis - SC), conhecia as ladeiras da comunidade como a palma da própria mão.
Ao ir à venda da esquina a pedido da mãe, levava mais de uma hora para voltar. No trajeto, carregava a sacola de uma senhora morro acima, dava uma mãozinha para o pedreiro da obra no alto do morro e levava o lixo do vizinho morro abaixo.
“Ele voltava com cinco pila, com dez pila, porque as velhinha dava pra ele”, conta a irmã.
Hudson conversava com quem encontrava no meio do caminho e nem sempre voltava com o que sua mãe havia pedido. A simpatia que o menino demonstrava fez com que os moradores da vizinhança criassem um carinho especial por Hudson — e amenizava o esporro da mãe pelo atraso no almoço.
A perda de vários chinelos, camisas e bonés enquanto rodava o morro soltando pipa também eram esquecidos pela família com um simples sorriso. Todos da comunidade sempre o chamaram pelo apelido dado pelo pai nos primeiros anos de vida: Preto. Nome que carrega, também, muito da história das ladeiras que o menino percorria.
Figueirense apaixonado, chegou a virar a casaca e se dizer avaiano na infância, somente para agradar seu irmão mais velho, o único torcedor do Leão em toda a família. Queria ver os seus sempre contentes.
O garoto ia com a família a um terreiro de Umbanda, onde tocava atabaque, e acreditava nos orixás como condutores de sua espiritualidade. Mas ele também gostava de futebol — e para ir à pelada da Igreja Universal, que acontecia todos os sábados, era necessário antes ir ao culto. Sem problemas para ele. Do axé ao amém, da criançada aos mais velhos, Preto se dava bem com todos.
O atabaque de Preto também ressoava nas rodas de capoeira. Hudson teve contato com o esporte aos 8 anos de idade, logo se tornando pupilo do Mestre Bode — responsável por conduzir o Abadá-Capoeira, projeto social de abrangência nacional, em Florianópolis. A sede manezinha do projeto fica justamente no Morro do Mocotó. Na capoeira, Hudson era conhecido como Sagu. A coloração vermelha que sua pele ganhava ao ficar de ponta-cabeça nas aulas e apresentações do grupo motivaram o apelido.
Sagu toca berimbau em apresentação de capoeira. Foto: arquivo da famíliaSagu se dedicou por oito anos à capoeira, dos 9 aos 17. Graças ao projeto, conheceu cidades como Curitiba e Paranaguá.
“Ele ia pela bagunça também, pela resenha. Se tinha um cara que fazia festa era ele”, lembra um familiar.
Só não conheceu Porto Alegre, pois ficou nervoso antes da seletiva catarinense de uma competição. “Eu ainda não tô preparado”. Acabou ficando só na torcida com a família e viu o irmão mais velho ir sozinho à capital gaúcha.
Além da capoeira e do futebol, Preto praticou Muay Thai em outro projeto social da comunidade. Também participou ativamente de várias atividades do Grupo Mittos, projeto que atua há 30 anos no Mocotó. O atabaque, mais uma vez, estava presente — a principal atividade do Mittos é a dança afro, cuja música também é tocada por jovens da comunidade, como Hudson.
Mais recentemente, ainda no Mittos, participou de uma formação para barbeiros e iniciaria, no começo de 2026, uma outra formação voltada para jovens aprendizes.
NO CORRE CERTO
O ingresso na formação de jovem aprendiz não quer dizer que a responsa de um homem adulto chegava naquele momento à vida de Preto. Além dos pequenos bicos que fazia desde a infância, na própria comunidade, ainda na adolescência, começou também a ajudar um de seus irmãos nos canteiros de obra. Conciliava as aulas da escola com o trabalho, que se mostrou especialmente necessário quando sua família perdeu a casa em um incêndio, em 2021.
Além da construção civil, Hudson chegou a vender doces no Centro da cidade, catar latinhas e vender água na praia com um amigo MC. Segundo a família, este último era um serviço que Preto fazia principalmente porque achava que o deixaria mais perto daquele que era, de fato, seu sonho para o futuro: a música.
Hudson começou a fazer pequenos serviços na construção civil desde muito jovem. Foto: arquivo da famíliaFã de rap e funk desde a infância, Preto sempre foi influenciado pelos MCs que ouvia. Gostava de Oruam, mas seu maior ídolo era Meno Tody, MC carioca. A idolatria levou Preto a ter uma segunda troca de times em sua vida, além da indefinição entre Figueirense e Avaí na infância.
Além do amor por time de casa, é comum que os crias de Floripa tenham também uma paixão nacional. Hudson era flamenguista roxo, desde pequeno. Mas quando descobriu que o ídolo Meno Tody torcia para o Vasco da Gama, tornou-se cruzmaltino.
Até tentou disfarçar dizendo para um irmão vascaíno que havia mudado de time por sua causa, mas, no fundo, a família sempre soube que foi por conta do ídolo. Quando Tody foi ao Morro do Mocotó se apresentar no baile funk, Preto foi o único morador corajoso o suficiente para subir ao palco e tirar uma selfie com a estrela carioca.
Hudson compunha músicas autorais e as gravava em seu celular, enviando para ele mesmo pelo Whatsapp. Suas letras, assim como a foto tirada com o ídolo, se perderam, pois o celular do jovem quebrou pouco antes de sua morte. Seus familiares lembram que o garoto dizia muito sobre aquilo que seus ídolos cantavam: conquistas, superação e a realidade de sua comunidade.
Mais recentemente, além da venda de bebidas na praia, ao lado do amigo MC, Hudson também havia dito à família que havia surgido uma oportunidade de trabalhar como segurança deste amigo – em outro serviço que, de acordo com o jovem, o deixaria mais próximo à cena musical periférica da cidade. O posto de segurança só seria possível graças a uma característica que marcou a transição de Hudson para a adolescência: baixinho na infância, ele passou a ter 1,85m em pouco mais de um ano.
“Quando vi, ele tava pequenininho. Dali a pouco espichou, né? Falei: Que que aconteceu com esse guri, cara? Parece que ele ficou grandão do nada”, lembra um amigo.
Mas nenhum trabalho marcou tanto a trajetória de Preto quanto as marmitas. Em fevereiro de 2025, sua mãe decidiu empreender e abriu a própria marmitaria. Uma de suas irmãs era a responsável pelas entregas de moto fora da comunidade. Mas, para os moradores do próprio morro, era Hudson quem levava as quentinhas. Foram oito meses entregando marmitas pelo Mocotó e comunidades vizinhas, num trabalho que exigia justamente o que o adolescente tinha de sobra: energia, simpatia e conhecimento do território.
Para ajudar a coroa, Preto mudou o horário de suas aulas. Até então, estudava durante o dia na Jurema, escola que fica na parte baixa de sua comunidade — onde sua mãe diz nunca ter sido chamada por nenhum tipo de desrespeito cometido pelo filho. A partir da abertura da marmitaria, começou a frequentar o Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) do Instituto Estadual de Educação, no asfalto, à noite. Foi até o 9º ano.
Além da própria família, um amigo de Hudson também ajudava no negócio das marmitas. Este amigo se mudou para a casa dos Pinheiro, a pedido de Preto, assim que o irmão mais velho de Hudson saiu de casa para viver com a namorada. “Ele sentiu muita falta do irmão. Aí teve um amiguinho dele que veio morar aqui, até pra ajudar na marmita ele ajudou. Os dois com cabelo pintado de vermelho, pareciam irmãos”.
A mãe de Hudson fechou a marmitaria em outubro de 2025, mas o adolescente seguiu trabalhando nos últimos meses de sua vida. Os bicos na construção civil iam se tornando mais frequentes, até que um dos irmãos o convidou para começar a ir todos os dias para o canteiro de obras. O pagamento da primeira semana cheia, R$500, foi o combustível que Hudson precisava para dizer sim de vez à proposta.
Empreendedor, Preto traçou o que faria com as três primeiras semanas de pagamentos. O dinheiro da primeira semana iria para a compra de um chinelo Kenner. O da segunda, renderia uma TV para seu quarto. A partir da terceira, começaria a guardar para a carteira de motorista — ainda que tivesse acabado de completar 17 anos.
Para esta última tarefa, pediu a ajuda de uma cunhada. “Guarda pra mim porque se eu ficar com esse dinheiro, eu vou gastar”. A certeza de que não sobraria nada do salário caso não deixasse parte com a cunhada tinha um motivo: os fins de semana agitados do adolescente.
Certa vez, ao levá-lo ao posto de saúde, mãe e tia de Hudson se espantaram com o número de pessoas que o cumprimentavam pelo Centro da cidade. Curiosa, a tia perguntou ao garoto:
“Meu Deus, Preto, como tu conhece tanta gente?”
“Ah tia, é claro. Eu sou o cara, né?”
A família caiu no riso. Boa parte das pessoas que cumprimentavam Preto naquele dia, na verdade, o conhecia das noites. Era comum vê-lo dançando pelo Centro-Leste, reduto da juventude da região central de Floripa, às sextas e sábados.
“Essas dancinha do Tik Tok ele sabia tudo, fazia tudo. Sempre tava tirando foto, dançando, fazendo palhaçada. Sempre. Eu tenho essa imagem dele pra sempre”.
Além do Centro, o jovem também costumava ir a um bar no Saco dos Limões. Fazia isso até mesmo quando não sobrava dinheiro para o fim de semana. Pagava sua entrada levando sempre um grupo grande de amigos consigo para o local. Tornou-se uma espécie de promoter do estabelecimento — que, assim como todos os projetos sociais do qual Preto participou, o homenageou após sua morte.
Foram várias as vezes que Hudson guiou amigos do Centro ao Saco dos Limões para garantir a entrada na festa. O trajeto de mais de 3 quilômetros era feito a pé pelo Túnel Antonieta de Barros, que passa por debaixo da comunidade onde Preto cresceu.
“Os caras do bar falavam que ele ia três vezes, ia e voltava pro Centro pra pegar as pessoas. Ele andava mais de 10km numa noite, cara. Mas o pessoal falava que só ia se o Preto fosse lá, todo mundo gostava dele”.
O eterno sorriso de Preto. Foto: arquivo da famíliaO ÚLTIMO DIA
“Tu tem que acordar no horário, Preto”.
Os atrasos para acordar e ir ao trabalho fizeram com que o irmão de Hudson não batesse na janela do jovem ao amanhecer da sexta-feira, como fazia todos os dias. Ao invés disso, foi até a moto e acelerou, acordando Preto no susto. O adolescente pegou suas coisas correndo, se desculpou com o irmão e eles se dirigiram ao bairro do Itacorubi, pouco depois das 08 h.
Os irmãos passaram a manhã e a tarde trabalhando pesado. Como era o menos experiente dos três trabalhadores envolvidos na obra, coube a Hudson carregar os entulhos da empreitada.
“Eu fui direcionando os canos com um outro rapaz, outro ajudante, e o Preto ficou mais na parte de fora trabalhando. Encheu uma caçamba de entulho”.
O trabalho pesado não deu conta de finalizar a obra na sexta-feira. Às 17h, horário em que costumavam deixar o canteiro, ouviram do patrão: “Vocês são obrigados a terminar porque o cara quer que o banheiro funcione no final de semana”.
Hudson só não perdeu a aula da noite porque esta foi cancelada, mas o atraso na obra colocava em risco os planos para o fim da sexta-feira. Encontraria os amigos no Centro para irem à Beira-Mar Continental, assistir o mini desfile da Protegidos da Princesa, que intensificava seus preparativos para o Carnaval 2026. O garoto era torcedor da escola de samba mais antiga da cidade — sediada no Morro do Mocotó — onde já havia desfilado dois anos antes, junto com os amigos da capoeira.
Foram mais duas horas de batente para os irmãos. Só foram dispensados após o patrão testar a fossa e se certificar que o dono da casa teria o fim de semana que desejava. O irmão de Hudson se lembra de ver no painel de sua moto o horário que eles deixaram o Itacorubi: 19h14.
Chegando ao Mocotó, Hudson contrariou seu histórico e fez uma ida rápida ao mercado, a pedido da mãe. Voltou para casa e encontrou o irmão, exausto da obra, jogado no sofá. Sua mãe escolhia um filme para assistirem juntos.
“Fica aí Preto, Vida de Inseto tu nunca visse. Tás com cara de cansado”.
O adolescente comeu pão de mel com Nescau. Os amigos seguiam chamando no celular. Foi para o banheiro escutando música.
“Guri jovem, né? Tomou um banho, despertou do sono. O cansaço foi embora. Sextou, recebeu o dinheiro”, resume a família do jovem.
Hudson saiu do banho trajado de calça jeans, camisa e tênis pretos. De acessórios, um cinto bege, um cordão dourado e um boné preto. Eram 21h47 quando uma câmera registrou a saída do adolescente de sua casa. Ele partia para mais uma noite de sexta-feira como outra qualquer.
Uma moradora da comunidade viu o adolescente descendo a ladeira quando subia para casa. Hudson parou para conversar com ela, como fazia com quase todo mundo que mora ali. Ao avisar o garoto que a polícia estava no morro, foi informada pelo jovem que ele já havia sido enquadrado logo acima, menos de cinco minutos antes. Disse a ela que não tinha nada de ilegal consigo e seguiu descendo. Não havia com o que se preocupar, era estudante e trabalhador.
A moradora entrou em casa e, segundos depois, ouviu ao menos quatro tiros.
UMA EMBOSCADA
As mensagens no grupo da comunidade começaram a pipocar de imediato, logo após os tiros, por volta das 22h. Mais um jovem do morro havia sido baleado. Filmagens realizadas por moradores mostram que a cena do crime foi imediatamente cercada pela polícia, o que dificultou que eles soubessem o que de fato tinha acontecido.
A família de Hudson tentou entrar em contato com o jovem assim que soube dos tiros. Não tiveram retorno. Também acionaram os amigos do adolescente. Ninguém sabia de nada. Começaram a rezar para que ele tivesse chegado ao asfalto a tempo.
Após o corpo deixar a cena do crime, já depois das 23h, familiares de Preto estavam entre os vários moradores que começaram a circular pelo morro buscando informações sobre a identidade da vítima.
Sem sucesso. Foram ao Centro e ao bar que Hudson costumava frequentar no Saco dos Limões, e também não tiveram notícias do garoto. Voltaram ao morro e passaram o resto da noite na frente do portão de casa esperando ele voltar. Hudson nunca voltou.
“No fundo eu já sabia que era ele. Mas mesmo assim a gente foi no Centro e procurou ele naquele Centro todo, voltamos e ficamos aqui”, lembra um de seus irmãos.
A confirmação da morte chegou para a família nas últimas horas da madrugada e o corpo da vítima só seria reconhecido na manhã de sábado, cerca de dez horas após o crime. Para os familiares, os dias seguintes passaram como um só, com três noites consecutivas em claro. Só conseguiram dormir na segunda-feira. Desde então, são dois meses buscando por respostas para entender o assassinato de seu ente querido.
“Mesmo eles falando que era ele, eu não acreditei. Eu só acreditei quando eu vi no caixão”, conta a mãe do adolescente.
Velas acesas em memória a Hudson. Foto: Rodrigo BarbosaHudson morreu em uma curva da Rua Bento Custódio Machado, mas a polícia não entrou no morro por ali naquela noite. A incursão realizada pelo Pelotão de Patrulhamento Tático do 4º Batalhão da Polícia Militar contou com apoio do patrulhamento de motocicletas da polícia (ROCAM) e começou na Servidão Siqueira – viela que sobe o morro pelo lado direito da Igreja Santa Terezinha do Menino Jesus.
De acordo com o relato de um PM no Boletim de Ocorrência do homicídio, um suposto confronto armado teria ocorrido na Servidão Siqueira. Moradores contam que dois jovens da comunidade foram feridos neste momento. Hudson ainda sequer havia deixado sua casa, a mais de 300 metros de distância dali.
A guarnição então avançou morro adentro em uma área da comunidade chamada de Jagatá. Localizada acima do Túnel Antonieta de Barros, trata-se de uma região do morro conhecida pela ausência de bocas de fumo. Moradores denunciam que os policiais que efetuaram disparos na Rua Bento Custódio Machado, estavam escondidos em uma obra inacabada — denúncia que ganhou ainda mais força a partir do que foi descrito no Boletim de Ocorrência do caso, ao qual nossa reportagem teve acesso.
Segundo a polícia, a guarnição que já estava incursionada no morro recebeu uma denúncia de que homens armados e usando balaclava estariam no Jagatá, a cerca de 200 metros de distância de onde haviam ferido dois jovens anteriormente. A versão da PM é de que policiais entraram na obra inacabada para “varrer” o local e verificar que não havia pessoas escondidas ali. Para moradores, a obra foi utilizada como esconderijo.
Ao saírem, a guarnição afirma que se deparou com um “masculino” usando balaclava e empunhando uma arma na frente deles, sozinho, no meio de uma rua deserta. Dias após o crime, um major da PM afirmou ao Jornal do Almoço (telejornal da NSCTV, emissora filiada à Globo) que o jovem “confrontou” a guarnição.
Mas o Boletim de Ocorrência afasta qualquer possibilidade de que Hudson tenha atirado contra os policiais. No documento, o relato da PM é de que a guarnição atirou antes que o homem supostamente armado pudesse atirar contra eles. É mais um entre dezenas de casos de violência policial em Florianópolis justificados por uma suposta “iminente injusta agressão”.
A arma que teria sido supostamente apreendida com Hudson, uma pistola 9mm, não aparece em nenhum registro feito da cena do crime. Segundo a PM, ela teria sido recolhida por questões de segurança e entregue à Polícia Civil posteriormente. No Boletim, a foto da arma foi tirada com esta já sob posse de um agente do Estado.
Há ainda uma foto do corpo da vítima no documento. O boné de Hudson repousa ao seu lado no chão, em cima de uma poça de sangue que escorria ladeira abaixo. A cabeça do jovem estava coberta por um tecido preto. Segundo a PM, seria a prova de que o jovem usava balaclava no momento do crime. Moradores contestam e denunciam que a cena do crime foi adulterada.
Um vídeo de uma câmera de segurança captou Hudson minutos antes de sua morte. Embora o adolescente esteja de costas no registro, é possível ver que seu pescoço estava à mostra. Ele não usava balaclava, apenas um boné. O jovem não carregava consigo nada (como uma mochila ou uma sacola) que pudesse usar para esconder uma suposta arma ou peças de roupa.
Minutos antes de sua morte, Hudson aparece em um vídeo sem balaclava na cabeça.Esta imagem foi captada antes das 21h50. O crime foi registrado pela polícia como tendo acontecido às 22h28 — ao menos 20 minutos depois do que a comunidade afirma ter sido o momento dos disparos. A Delegacia de Homicídios só foi acionada às 22h43.
Além do vídeo da câmera de segurança, há fotos e vídeos feitos por moradores que mostram Hudson já morto — e sem balaclava — na cena do crime. Segundo a PM, a balaclava que supostamente o jovem utilizava foi retirada por profissionais do SAMU. Mas em nenhum destes registros, que mostram quase a totalidade da rua, é possível ver profissionais do SAMU ou da Polícia Científica — apenas viaturas marrons do Tático da PM. Também não há armas nestas imagens.
A posição de um dos braços do adolescente é diferente da registrada no Boletim de Ocorrência: no B.O., Hudson tem ambos os braços ao lado do corpo; nas imagens feitas por moradores, uma das mãos do jovem está acima de sua barriga. Outro ponto que chama a atenção nas imagens de Preto com a cabeça descoberta é que ele apresentava um grande ferimento no rosto. Não é possível afirmar apenas pelas imagens se ele foi baleado naquele local do corpo ou se o ferimento foi causado em sua queda ao solo — neste caso, seria mais uma evidência de que Hudson não usava balaclava naquela noite.
Segundo o Boletim de Ocorrência, Hudson foi declarado morto na cena do crime por uma equipe do SAMU, que deixou o morro por volta das 23h15. Interrompia-se ali um período de pouco mais de um ano sem vítimas da polícia no Mocotó — um dos maiores intervalos sem vítimas fatais no território, desde 2016. Ao lado do Morro do Horácio, o Moca é uma das duas favelas de Florianópolis que mais registraram mortes cometidas pelo Estado na última década.
Do momento em que Hudson entrou na capoeira, aos 8 anos de idade, até a sua sua morte, 16 vidas foram perdidas para a polícia no Mocotó. Preto foi a terceira vítima menor de idade no território nesse período — a primeira desde a execução de Nathan, morto aos 17 anos com dois tiros pelas costas em setembro de 2021. Um dos policiais que compunham a guarnição que tirou a vida de Hudson esteve envolvido em pelo menos dois dos 16 casos de homicídio na comunidade, ambos ocorridos em um intervalo de um mês no começo de 2023, na região mais alta do Mocotó.
AMADO POR TODOS
No sábado, o Mocotó deveria amanhecer colorido. O dia 13 de dezembro havia sido previamente escolhido para a realização da segunda etapa de um projeto que tem reunido grafiteiros da cidade e transformado uma das favelas mais antigas de Florianópolis em galeria de arte a céu aberto.
Na primeira edição, realizada pouco mais de um mês antes, crianças do Mocotó participaram de todo o processo, fazendo com que o último fim de semana de outubro fosse especialmente agitado no morro. O graffiti de Valda Costa, uma das maiores pintoras da história de Florianópolis e antiga moradora da comunidade, foi a obra de destaque daquela sessão.
A segunda edição foi marcada pelo silêncio. A notícia de que Hudson havia perdido a vida na noite anterior já corria pelos becos do Mocotó desde o fim da madrugada. O morro acordou em dor. “Tá foda, ninguém dormiu bem. Acordei mal pra caralho. Os artistas estão aqui e ninguém sabe o que fazer”. Pouco depois, realinharam os planos e acrescentaram um mural a mais na produção daquela manhã. Horas mais tarde, o rosto de Hudson estava estampado em um beco no coração do Mocotó.
'Hudson Vive': graffiti em homenagem ao adolescente foi pintado no dia seguinte à sua morte. Foto: Rodrigo BarbosaOs artistas do projeto, que em sua maioria não vivem no Moca, também ajudaram a comunidade na confecção de faixas e cartazes. Desde o começo da tarde, lideranças comunitárias e moradores se organizavam para protestar pelo assassinato de seu cria. Às 17h, uma pequena multidão começou a se formar no topo do morro.
A proximidade entre a morte do adolescente e a primeira manifestação em sua homenagem fez com que não houvesse tempo para que as tradicionais camisas com a foto da vítima e mensagens de adeus fossem confeccionadas. Mesmo assim, o combinado entre os moradores era vestirem roupas brancas. Balões da mesma cor também foram distribuídos entre os manifestantes.
Mas, o que se tornou um dos maiores símbolos da luta por justiça a Hudson chegou à manifestação de maneira tímida. Um motoboy morador da comunidade aproximou-se de uma liderança comunitária com lágrimas nos olhos e uma marmita vazia nas mãos. “Eu sou entregador aqui na comunidade também mas nunca tive nada para falar de mal dele, o guri era foda”.
A conversa entre morador e liderança foi marcada pelo choro de ambos. Como protesto, a tampa da marmita passou a estampar uma mensagem, escrita a mão: “Não foi confronto! Foi execução! Justiça”. Enquanto a polícia, àquela altura, já afirmava que a morte de Hudson havia ocorrido em um contexto de confronto, o Mocotó escancarava que o garoto era um trabalhador.
A primeira de várias marmitas usadas pela comunidade para simbolizar o trabalho de Hudson. Foto: Rodrigo BarbosaApós falas emocionadas de lideranças e amigos de Hudson, uma caminhada morro abaixo, ao som de foguetes, iniciou-se. Ainda no começo do ato, manifestantes passaram em frente ao Grupo Mittos e ao Abadá Capoeira — projetos sociais frequentados por Preto. Vários dos manifestantes usavam camisas destes e de outros projetos que o adolescente participava.
O momento mais marcante foi quando as centenas de pessoas chegaram ao local do crime. Um enorme círculo foi formado, deixando um clarão onde o corpo do jovem encontrava-se na noite anterior. Marmitas e faixas foram colocadas no local. Ali foram realizadas falas em homenagem e pedidos de justiça. Poesias e músicas também foram declamadas, mantendo uma tradição do território de se manifestar através da cultura — e destacando a existência do próprio Preto como parte deste contexto. Um abraço coletivo de um morro enlutado aos seus.
A primeira manifestação em homenagem a Hudson, no Morro do Mocotó. Fotos: Rodrigo Barbosa
A primeira manifestação em homenagem a Hudson, no Morro do Mocotó. Fotos: Rodrigo Barbosa
A primeira manifestação em homenagem a Hudson, no Morro do Mocotó. Fotos: Rodrigo BarbosaA dor dos moradores ainda os levaria ao asfalto no começo da noite. A manifestação realizada no dia seguinte à morte de Hudson terminaria na Rua Silva Jardim — o primeiro pedaço de asfalto por onde o jovem passaria antes de seu rolê na noite anterior. O ponto seguro onde ele não conseguiu chegar.
O medo de uma represália da polícia fez com que esta parte do protesto durasse pouco tempo. A ausência da família de Preto no primeiro protesto também influenciou para que este fosse mais breve. Familiares do adolescente encontravam-se no velório quando a comunidade prestou a primeira homenagem. O velório de Preto, inclusive, estava lotado.
“Eu cheguei lá e era tanta gente que eu falei: cadê o povo do morro? Procurei uns e achei. Mas eu achei que eu tava no velório errado, porque era muita gente”, conta um morador do Mocotó.
A família de Hudson surpreendeu-se com o número de pessoas que foram à cerimônia — cerca de 200. Segundo eles, muitos outros moradores não foram ao cemitério do Itacorubi por quererem guardar uma última imagem sorridente de Preto — a versão dele que passou 17 anos correndo pelos becos do Moca.
JUSTIÇA POR HUDSON!
Dois dias depois, as camisas em homenagem a Hudson ficaram prontas. No primeiro dia útil após o assassinato e, desta vez, com a presença da família, o Mocotó se manifestaria mais uma vez. O segundo protesto pela morte do adolescente reuniu ainda mais pessoas, tomou o asfalto e transformou-se em um dos maiores atos contra a violência policial na história recente de Florianópolis.
Mais uma vez, o ponto de encontro foi o topo do morro, no fim da tarde. Mas o trajeto dos manifestantes foi diferente. No sábado, circularam pelos becos da parte de trás do morro. Na segunda-feira, o ato caminhou pela frente da comunidade, para que a cidade pudesse ver a revolta do morro descendo em direção ao asfalto. No trajeto, dezenas de moradores foram se juntando à multidão pelos estreitos becos do Mocotó.
Durante a segunda manifestação, ainda dentro dos limites da comunidade, a família de Hudson chegou ao graffiti que o homenageia. Era a primeira vez dos familiares à frente da obra. Tocavam o muro se abraçando e chorando, parecendo ainda não acreditar no que havia acontecido.
Moradores do Mocotó desceram o morro na segunda manifestação em homenagem a Hudson, dois dias após sua morte. Foto: Rodrigo Barbosa

Poucos metros à frente do mural, está o asfalto. A Rua Silva Jardim é tradicionalmente palco de várias manifestações realizadas pela comunidade do Mocotó. Em setembro de 2019, moradores se reuniram ali e subiram até uma base policial que estava instalada no topo do morro para protestar pela morte de Shilaver (21). Em maio de 2020, o canteiro central da Silva Jardim transformou-se em um cemitério que homenageava as vítimas da polícia no Maciço do Morro da Cruz.
Mas, desta vez, a Silva Jardim foi apenas território de passagem. Os manifestantes cruzaram a rua e tomaram a Gustavo Richard, uma das principais avenidas da região central. Emocionados, marcharam por 500 metros sob forte vigilância da Polícia Militar — que filmava os manifestantes de perto. As marmitas de dois dias antes haviam se multiplicado aos montes, através da doação de cozinheiras da comunidade.
Manifestação em homenagem a Hudson tomou a Avenida Gustavo Richard, em 15 de dezembro de 2025. Foto: Rodrigo BarbosaQuando a manifestação chegou à Avenida Hercílio Luz, um dos principais destinos dos rolês de Hudson, demorou apenas um quarteirão para que sua família fosse ao chão. Na esquina com a Rua Dr. Álvaro Milen, ajoelharam-se em frente a duas viaturas do 4º Batalhão — justamente o responsável pela morte de Preto – e desabaram no choro. As centenas de moradores e representantes de movimentos sociais presentes também foram às lágrimas e levantaram o tom no protesto contra a polícia.
“Era inocente! Era inocente!”
A cem metros dali, às costas de onde a família se ajoelhou, encontrava-se o destino final dos manifestantes: o Tribunal de Justiça de Santa Catarina. A revolta pela morte de Hudson fechou a rua em frente ao local. Se na parada anterior faltou forças à família para expressar sua dor, desta vez foi diferente.
“Ele era trabalhador, ele fazia um monte de coisa boa. Ele era estudante! Ele entregava marmita que a minha mãe fazia! Mataram meu irmão, eu tô indignada! Querem trabalhar? A gente também quer trabalhar, mas justo! Não incorreto, matando inocente! Ele morreu! Ele não vai voltar mais pra minha casa! Eu vou voltar agora e ele não vai estar lá! Até quando vocês vão fazer isso”?
O segundo protesto em homenagem a Hudson. Fotos: Rodrigo Barbosa

Já no começo da noite, velas foram acesas em frente ao prédio do Tribunal em homenagem ao adolescente. Como forma de acolhimento à família, cantos da Umbanda foram ecoados pelos manifestantes. Um recado para o Estado de que, enquanto a memória de Hudson e seu atabaque ecoarem pelos becos do Moca, haverá busca por Justiça.
O eterno sorriso de Preto segue marcado na memória da família e dos moradores do Mocotó. Seu rosto, eternizado pelo mural de graffiti, é um lembrete diário de que a luta ainda não acabou.





