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10ª FEIRA LITERÁRIA DE BONITO

FLIB é o mais exitoso projeto artístico de MS

Consegue promover aquilo que nenhum festival sul-mato-grossense já fez na história

Por TERO QUEIROZ • 16/07/2026 • 11:34
FLIB é o mais exitoso projeto artístico de MS (11.jul.26) - Palestra do Pedro Bial durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB). Foto: Tero Queiroz

A 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB), realizada de 7 a 12 de julho na cidade turística sul-mato-grossense, devia ser usada como exemplo pelo serviço público (governos municipais e estaduais) e até mesmo pelo poder público (sociedade civil organizada) como símbolo de êxito de uma ação artístico-cultural.

Realizada pelo Instituto Imolé, com organização da Bolt Produções, a FLIB contou, nesta edição, com apoio de R$ 800 mil oriundos de emenda do deputado federal Vander Loubet (PT).

Diferentemente dos demais projetos (festivais e semelhantes) realizados em Bonito, que são em grande maioria bastante difusos, a FLIB tem uma missão clara: promover a leitura, o livro e o debate literário, mas ser, ao mesmo tempo, espaço de oportunidades de multilinguagens na Praça da Liberdade.

DIFERENTE EM QUÊ?

Susylene Dias Araújo — professora da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e Kelio Júnior Santana Borges — professor e pesquisador de literatura no IFG (Instituto Federal de Goiás). Foto: Tero Queiroz (11.jul.26) - Debate de Intelectuais Negros e Negras de MS durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB). Foto: Tero Queiroz (11.jul.26) - Debate de Intelectuais Negros e Negras de MS durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB). Foto: Tero Queiroz (11.jul.26) - Debate de Intelectuais Negros e Negras de MS durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB). Foto: Tero Queiroz Kelio Júnior Santana Borges — professor e pesquisador de literatura no IFG (Instituto Federal de Goiás). Foto: Tero Queiroz (11.jul.26) - Debate de Intelectuais Negros e Negras de MS durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB). Foto: Tero Queiroz (11.jul.26) - Debate de Intelectuais Negros e Negras de MS durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB). Foto: Tero Queiroz (11.jul.26) - Debate de Intelectuais Negros e Negras de MS durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB). Foto: Tero Queiroz (10.jul.26) - Roda de Conversa sobre política pública para o livro durante a 10ª FLIB. Foto: Tero Queiroz (10.jul.26) - Luiz Antonio Simas. Historiador, professor e escritor. Ele esteve na 10ª FLIB. Foto: Tero Queiroz Cantor e compositor Pedro Luís, apresentou seu livro 'Amor, Palavra Que Se Canta'. Foto: Tero Queiroz (11.jul.26) - Palestra do Pedro Bial durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB). Foto: Tero Queiroz (11.jul.26) - Palestra do Pedro Bial durante a 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB) Tero Queiroz

Explico: na FLIB, Itamar Vieira Jr., Daniel Munduruku, Luiz Antônio Simas, Ana Martins Marques, Elisa Lucinda, Mariana Salomão Carrara, Pedro Bial, Oscar Nakasato, Marcílio França Castro, Pedro Luís, Luciana Gerbovic, Moema Vilela, Sérgio Vaz, Leonardo Piana e outros nomes da mais alta prateleira da literatura e artes mundiais sentaram numa roda de debate com escritores emergentes, estudantes e entusiastas, sem nenhum bloqueio de acesso aos autores.

Com isso, a FLIB conseguiu promover aquilo que nenhum festival sul-mato-grossense já fez na história: dar o devido respeito ao público e aos artistas da terra, sem tratá-los de maneira diferente à luz dos nomes reconhecidos.

O trato de igual para igual começa no correto uso das nomenclaturas: a organização da FLIB não se refere aos escritores de fora como “autores nacionais”, e sim como “autor(a) do estado X ou Y”.

Curiosamente, fazer isso não tem custo financeiro, é apenas uma mudança de postura. Sendo assim, a compreensão da reportagem é que a FLIB escolheu tratar autores de outros estados em equivalência aos autores sul-mato-grossenses.

ACERTO DA 10ª EDIÇÃO

Outro grande acerto da FLIB nesta edição está em sua programação, que, além dos debates, lançamentos e vendas de livros, consistiu em um circuito educativo comandado pela multiartista Ligia Tristão Prieto e na composição do palco com teatro, dança, intervenção artística (poesias musicadas) e shows musicais.

E durante os seis dias, crianças e pré-adolescentes tiveram acesso a esses produtos artístico-culturais, sendo que houve pouco mais de mil visitas ao dia, como também destacamos aqui. Seiscentos pequenos também ganharam vouchers da FLIB para adquirir seus primeiros livros.

ATRAÇÕES EXITOSAS

DANÇA

Dentre as atrações teatrais, foram apresentados trabalhos consolidados como ‘Edu Brincante - Teatro de Brincar’; o espetáculo ‘Navegantes’, da Cia Deslimites; e o espetáculo ‘Grandes Miudezas do Pantanal’, do Grupo Casa.

Dentre as atrações de dança, as crianças e adolescentes do Ballet Municipal de Bonito e da Cia Juvenil Bonito de Danças apresentaram o espetáculo ‘LUMA’. A propósito, realizaram uma boa apresentação, com dramaturgia interessante e variadas idades de bailarinos. Dos não profissionais, foram os ballets que melhor performaram.

MÚSICA

Já as atrações musicais tiveram início com o belíssimo espetáculo ‘Dois Lados’ (que destacamos aqui). Dentre as belas apresentações, assistimos também a Guilherme Rondon, Sandra de Sá, Angelique Brasil, Fino do Fino, a Orquestra de Cateura, Jorge Vercillo e Alzira E.

Destes, destacamos o show espetacular da banda Fino do Fino que, apesar de ser 100% cover, entregou uma performance histórica no palco principal da FLIB.

Outro grande show foi o de Sandra de Sá. A artista carioca executou seu espetáculo com alta energia, defendendo a música como canal de “diversão e reflexão”.

Uma das frases repetidas pela artista ao longo do show é de que “humildade é superestimada”. “Eu sou foda para caralho”, disse a artista ao rebater a cobrança por humildade por parte de artistas negros.

A chuva e o frio afetaram o penúltimo dia da feira, no sábado (11.jul), à noite, quando acontecia o show de Jorge Vercillo. Apesar disso, o público permaneceu no local para assistir ao também carioca que realizou um belo show. Ele é dono de sucessos em trilhas sonoras de novelas, como “Que Nem Maré”, “Final Feliz” e “Monalisa”.

Durante a execução do seu show, pouco antes de a chuva ter início, Vercillo desceu para o meio da plateia e cantou rodeado pelos fãs no chão da Praça da Liberdade.  

Outra grande apresentação, essa que podemos elevar ao status de melhor show da 10ª FLIB, foi da cantora sul-mato-grossense Alzira E. Ela executou o espetáculo musical Senhora do Tempo e, com uma banda composta por apenas dois músicos, entregou um dos melhores shows musicais já assistidos por essa reportagem. Por isso, indicamos (AQUI) o álbum de Alzira para que o leitor confira as músicas apresentadas.

A bonitense Angelique Brasil, mesmo com uma banda pouco sintonizada, realizou uma grande apresentação do seu show ‘Brasileiríssima’, que destacamos aqui quando apresentado em Corumbá.

Uma belíssima atração da FLIB foi a Orquestra de Cateura. O projeto, que circula o mundo, reúne adolescentes de enorme talento musical e executa canções em instrumentos confeccionados a partir de materiais reciclados. 

O show da orquestra, apesar de curto, foi uma das sensações da noite final da FLIB.

ATRAÇÕES MENOS EXITOSAS

TEATRO

A apresentação menos exitosa na linguagem teatral foi ‘Autobiografia Autorizada’, de Paulo Betti. O espetáculo, que narra a história da família do autor, é um monólogo que, na ocasião da apresentação em Bonito, enfrentou problemas técnicos em uma apresentação que, apesar de conter momentos engraçados e um texto interessante, foi bastante prejudicada, sem energia e com déficit de concentração do veterano.

DANÇA

Compondo a programação artística, o ballet da Batsarah Corpo & Dança entregou uma performance de menor qualidade, sem uma dramaturgia definida. 

Já na dança profissional ocorreu a apresentação do espetáculo ‘Labirinto’, com direção e coreografia de Márcio Elias para a Cia Selma Azambuja.

O trabalho, que estreou na FLIB, é esteticamente bonito (iluminação, maquiagem, trilha e figurino), com performances limpas e o ballet composto por Isabela Sanches, João Rodrigues, Luisa Camy, Marcela Pereira, Rafael Fornazare e o próprio Márcio Elias, com alto nível de preparo. Apesar disso, a história é arrastada para além do necessário para chegar ao final já esperado. Ainda assim, é mais um trabalho promissor, ancorado em pesquisa, realizado pela Cia Selma Azambuja.

MÚSICA

Já as apresentações musicais de menor qualidade foram as realizadas por Gio Resquin, a Brasiguaia com DJ Bruno TGB e por Kalu. Essas atrações executam performances pouco interessantes no palco principal.

Gio, que se apresenta como cantora de reggaeton, não parecia estar à vontade no palco principal e, por vários momentos, cometeu deslizes de afinação e ritmo.

Já Kalu, que era uma das atrações esperadas a ser conferida pela reportagem, realizou um show de pouco entusiasmo e não embalou o público, ainda que tenha executado diversos sucessos da música popular brasileira.

Também não executou um bom show, a banda bonitense 'As Máquinas do Seu Antônio', composta por Alexandre (vocal e guitarra), Felipe (guitarra), Giovan (baixo) e Eduan (bateria).

LEGADO DA FLIB

Para além das artes cênicas, a diversidade do que oferece a FLIB ainda passa por debates ao longo de todo o dia acerca de livros, como a mesa de Intelectuais Negros, além de lançamentos de escritoras que apresentaram seus primeiros livros.

A FLIB, então, é multilinguagem, multidisciplinar, bem-curada na literatura e quase bem-curada nos espetáculos de artes da cena. O dever de casa para a feira, agora, é envolver mais o público adolescente e conquistará isso promovendo na FLIB uma das manifestações de poesia de rua, os slams.

Com isso, também abrirá as portas para os demais elementos do hip-hop, que sem dúvida é a grande falha da FLIB: não compreender essa manifestação mesmo ocupando a Praça da Liberdade.

 


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