O escritor, cronista e roteirista Luis Fernando Verissimo morreu neste sábado (30.ago.25), aos 88 anos, em Porto Alegre (RS). Internado desde o dia 17 de agosto na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Moinhos de Vento, com um quadro de pneumonia, o autor gaúcho não resistiu após enfrentar, nos últimos anos, complicações graves de saúde, entre elas a doença de Parkinson, sequelas de um AVC sofrido em 2021 e problemas cardíacos.
Nascido em 26 de setembro de 1936, na capital gaúcha, Verissimo foi figura central na literatura brasileira contemporânea. Filho de Mafalda e do também escritor Erico Verissimo (1905–1975), passou parte da juventude nos Estados Unidos, onde o pai lecionou na Universidade da Califórnia. Foi nesse período que se aproximou do jazz — paixão que nunca o deixou — e começou a experimentar a escrita como ofício.
Autor de mais de 70 títulos e com mais de 5,6 milhões de exemplares vendidos, Verissimo transitou com fluidez por gêneros como a crônica, o conto, a sátira e o romance, sempre com um olhar atento às idiossincrasias da classe média brasileira. Obras como O Analista de Bagé (1981), Comédias da Vida Privada (1994) e Ed Mort e Outras Histórias (1979) tornaram-se clássicos modernos da literatura nacional.
Seu humor refinado, quase sempre pontuado por uma crítica social sutil — mas contundente —, consolidou uma voz inconfundível no jornalismo cultural brasileiro. Verissimo colaborou com veículos como O Estado de S.Paulo, O Globo, Veja e Zero Hora, onde manteve colunas regulares por décadas.
“Eu comecei a escrever tarde, com mais de 30 anos. Até então, só tinha feito algumas traduções e não tinha a menor intenção de ser escritor”, contou ele em 2016, em uma entrevista à revista Época. “Quando me deram um espaço assinado no jornal, eu, por assim dizer, me descobri.”
DA CRÔNICA ÀS TELAS
O alcance de sua obra não se limitou às páginas impressas. Parte considerável de seus textos foi adaptada para o audiovisual, incluindo a celebrada série Comédias da Vida Privada (1995–1997), exibida pela TV Globo e criada por Jorge Furtado e Guel Arraes. Com elenco estelar — Marco Nanini, Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Marieta Severo — e roteiros assinados também pelo próprio Verissimo, a série traduziu com êxito o espírito de suas crônicas: o absurdo cotidiano, a ternura cínica, o riso melancólico.
Sua contribuição à TV inclui ainda roteiros para TV Pirata, Viva o Gordo e Planeta dos Homens, além de adaptações de suas crônicas em séries como Sexo Frágil (2003–2004), Aventuras da Família Brasil (2009) e Amor Verissimo (2014–2015), no GNT.
“Sou um gigolô das palavras. Vivo à custa delas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas”, escreveu, com ironia característica, na crônica O gigolô das palavras.
REVOLUÇÃO NO GÊNERO LITERÁRIO
Antes de Luis Fernando Verissimo, a crônica brasileira se centrava no “eu” do cronista, no tom confessional e nas nuances biográficas. Verissimo revolucionou o gênero, ao criar tipos universais e personagens que representavam o cotidiano de todos, como o amigo, a vizinha, o professor, o policial. A crônica deixou de ser uma narrativa pessoal e se tornou o território da terceira pessoa, capaz de falar sobre qualquer um — e, de maneira quase secreta, sobre o próprio Verissimo.
Ele não só modernizou a crônica como a transformou em um instrumento literário mais plural e inclusivo. Era impossível não se reconhecer em suas personagens, fosse a velhinha de Taubaté, que acreditava nas promessas do governo durante a ditadura militar, ou o Analista de Bagé, com seu humor impiedoso.
"SER DE ESQUERDA NÃO É UMA OPÇÃO, É UMA DECORRÊNCIA"
Apesar da leveza que marcava sua produção literária, Verissimo nunca se furtou ao debate político. Com posições abertamente de esquerda, foi crítico severo do governo de Jair Bolsonaro e defensor da inclusão social promovida pelos primeiros governos petistas. Para ele, posicionar-se politicamente era uma questão de coerência com a realidade do país.
“Talvez ingenuamente, eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda”, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2020. “Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência.”
ÚLTIMOS DIAS
Nos últimos anos, debilitado, Verissimo enfrentava dificuldades de fala — em seus últimos dias, balbuciava apenas algumas palavras em inglês, segundo relatou sua esposa, Lucia Verissimo, com quem foi casado por 61 anos. O casal teve três filhos.
Mesmo diante da proximidade da morte, o autor manteve o humor resignado e a lucidez branda que o tornaram tão reconhecido. “A morte é uma injustiça, essa é a melhor descrição. Mas a gente tem de conviver com isso”, disse à Folha, em 2011. Dois anos depois, ao sair de uma internação em UTI, foi mais direto: “A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra.”
Luis Fernando Verissimo deixa um legado incontornável para a literatura e o jornalismo brasileiros — não apenas pela quantidade de obras, mas pela qualidade do olhar. Seu Brasil era cômico, mas não leviano; trágico, mas não amargo. Era o Brasil que ainda cabe numa crônica.