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OPINIÃO

Descobri que meu artista é uma IA: reflexões sobre arte e inteligência artificial

Por EDVALDO QUARESMA NETO* • 19/01/2026 • 12:30
Imagem principal O computador atualmente aparece como um refinamento daquilo que a indústria cultural passou décadas descobrindo e acumulando de informações de consumo | Foto: Vitor Munhoz

Um bom café combina com música? É o que eu penso. Lá estava eu pronto para fazer o desjejum quando o Spotify me recomenda pela terceira vez um artista. Escutei, apreciei. Com essa recorrência achei que estava na hora de ir mais fundo nele, então entrei no perfil do artista. Para a minha surpresa: nada!

Sim, nem sequer uma informação. Além de uma capa comum para todas as músicas que revelava que ele era uma produção ainda em sua juventude. Nem um artista por trás, capas feitas em animação, sem imagens reais. Fui direto ao Google (a essa altura já estava curioso) e descobri no reddit que outras pessoas estavam se perguntando sobre a origem das músicas, pois curtiram a “vibe”, mas alguns não queriam mais apoiar pela convicção da ajuda de inteligência artificial, pois segundo os usuários haviam fortes indícios.

Foi aí que me dei conta: A I.A nas produções artísticas já é uma realidade, podemos até individualmente não apoiar, mas já não é possível voltar atrás, enquanto algo estrutural ela veio pra ficar.

Assim como em Her (2013), a relação que tinha estabelecido com a música pareceu ser uma via de uma única mão. Do meu lado: sentimento. Do outro lado, cálculos que produziram o que seria uma boa arte, dentro de um formato padrão de respostas, o resultado: algo melodioso e sonoramente prazeroso. 

O que isso revela? Que embora todos possam ter suas opiniões de concordar ou discordar da presença da inteligência artificial no mundo da arte, não parece realista acreditar que ela irá nos abandonar. Pelo contrário, parece um tanto óbvio supor que ela estará cada vez mais presente. A resposta de aprendizado com erro é surpreendente, e nesse sentido, o aperfeiçoamento é em nível exponencial. 

O que isso nos diz sobre arte? Que a I.A é capaz de detectar padrões, por exemplo no caso da música, entender métrica, ritmo e o que industrialmente é comercial e produzir isso em massa. O que um artista poderia demorar uma semana para fazer, a Inteligência Artificial pode fazer em um dia. 

Foto: Vitor MunhozFoto: Vitor Munhoz

Me parece que isso é uma extensão ao máximo da lógica da Indústria Cultural explicada pela escola de Frankfurt: a instrumentalização da arte para fins de consumo, não de experiência estética. 

Contudo, não quero parecer ingênuo. É nesse ponto que penso que talvez a I.A apareça como um bode expiatório. A inteligência artificial não é a responsável pela instrumentalização. Ela é meramente um apogeu da lógica do capital sobre a arte produzida a partir meramente do sentimento. Isso não foi criado pela I.A. A indústria fonográfica produz música em série há quase um século, e nos últimos tempos ficou mais claro artistas que são na verdade produtos. 

A indústria da arte de maneira geral já domina a técnica da produção artística, seja no audiovisual seja na música, o que dizer dos filmes que são mal avaliados pela crítica e são fenômenos de venda? Não irei adentrar mais a esse ponto para não desviar do sentido do texto, mas há mais coisas a pensar.

No que diz respeito a música, basta lembrar dos “chicletes”, as músicas que grudam e não saem da cabeça, independentemente de você gostar ou não. Aqui você pode ter a tendência de pensar que isso é um fenômeno diferente do que acontece agora, mas eu argumento que não. 

As músicas feitas exclusivamente para ir para as rádios no passado e agora para tocar em momentos específicos, com os refrões chicletes, são produzidas a partir da mesma lógica: sem alma, feitas para serem consumidas. 

Aí você pode responder dizendo: mas ainda é um ser humano criando. Eu concordo parcialmente. No sentido estrito do termo da criação ainda é o ser humano, mas no sentido da instrumentalização, é um resultado da técnica e do estudo analítico comercial do que vende e do que não vende. Nada muito diferente de um funcionamento de um algoritmo.

O computador atualmente aparece como um refinamento daquilo que a indústria cultural passou décadas descobrindo e acumulando de informações de consumo. Uma vez catalogadas essas informações tornam-se base para a criação sistemática de qualquer coisa, nesse caso um rit.

Para voltar ao artista que gerou essa reflexão, posso dizer sinceramente que a produção era boa e não era tão comercial assim. Isso porque com o sistema de streams vale a pena fazer produção para nicho. Diferente da lógica da rádio, agora é possível focar em pequenos subgrupos e atender essas demandas. Nesse caso, as músicas tinham sim um formato padrão e remetiam aquela sensação agradável que eu buscava e me pareceu que quem estava produzindo se divertia no processo. 

O que quero dizer com isso? Embora o produto final possa ter saído de um computador, a manipulação daquela tecnologia foi feita por um ser humano que tinha uma intenção: produzir arte pura. Pois as músicas tinham sentido, uma direção, uma humanidade.

Aqui ousarei e irei conjecturar: é possível afirmar que com o tempo um novo modelo de arte poderá emergir: o ser humano que manipula a Inteligência Artificial. 

Você pode imaginar um artista plástico que produz a partir da I.A? Na medida em que essas tecnologias se desenvolverem e do nosso lado começarmos a entender melhor seus funcionamentos e limitações a expressão humana irá aparecer não como falseabilidade, mas domínio artístico e criativo das ferramentas que essa tecnologia proporciona, tal qual outrora alguém olhou para pedras e criou Davi ou Vênus de Milo, mas neste momento vemos uma arte rudimentar, tal qual a arte rupestre. Nesse sentido, estamos na pré-história da arte da inteligência artificial. 

Porém, não quero parecer completamente otimista ou defensor da I.A em detrimento de artistas humanos. Apenas quero ser realista no que diz respeito a chegada dessa tecnologia e sua inevitável permanência. No que diz respeito ao lado dos artistas acredito que sempre haverá espaço para a humanidade, pois isso é algo intrínseco na psiquê. Mesmo que no futuro haja filmes produzidos completamente pela Inteligência Artificial, haverá pessoas que irão buscar apreciar obras humanas, simplesmente por serem humanas. 

Não busco aqui concluir essa questão, pelo contrário é meramente as primeiras reflexões que faço do assunto. Não me parece que a “I.A vai acabar com a arte”, como li no reddit, tampouco devemos descartar uma produção meramente por achar que ela não é 100% humana. Por outro lado, podemos nos questionar o que causa esse estranhamento? Esse tipo de produção é uma simulação? Uma manipulação de nossos sentimentos? 

Assim como notei que “faltava algo” naquelas músicas – embora seja do ritmo soul, pareceu sem alma. Sempre buscaremos um reflexo de nós mesmos naquilo que tocamos, nenhuma I.A poderá substituir isso: a nossa humanidade, e nesse sentido, somos humanos, demasiadamente humanos.

Foto: Edvaldo Quaresma Neto/ ArquivoFoto: Vitor Munhoz
*Historiador de formação, colunista por impulsão. Formado pela Universidade da Amazônia, Edvaldo transita entre cultura, história das ideias e a natureza humana. Seu foco é a relação do sujeito com o meio social e nos modos que ele se expressa. Crítico analítico – com uma pitada de Ironia. 

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Tags: #arte, artigo, artista, Edvaldo Quaresma Neto, IA, inteligência artificial, inteligências artificiais, opinião

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