Diante do caos, Whake contorna o mercado criando músicas para relaxar
Artista ressignifica batalha contra a ansiedade e dismorfia
17 JAN 2026 • POR TERO QUEIROZ • 10h28
Se a história da arte é, em última instância, a história da resposta humana ao trauma, o ano de 2021 ofereceu um vasto campo de estudo. Enquanto o mundo se via paralisado sob a égide do isolamento social e do silêncio forçado, Ciano Whake — que assina suas obras mononimamente como Whake (@cianowhake) — escolheu não apenas habitar esse vazio, mas preenchê-lo. O que emerge desse período não é apenas um projeto musical, mas um estudo de caso sobre a funcionalidade da arte na manutenção da sanidade em tempos de colapso.
"Em um momento de fragilidade que eu estava passando, eu vi a música New Age como um remédio para meus problemas, eu passei por momentos difíceis, minha mente não estava em deleite, eu busquei na música e na natureza algo que me faltava internamente, a paz", introduziu o artista.
A gênese da discografia de Whake ocorre em um limbo existencial clássico: o hiato vertiginoso entre o fim da vida escolar e as demandas predatórias do mercado de trabalho. Foi nesse interstício, agravado pelo confinamento global, que o compositor realizou uma espécie de arqueologia digital de si mesmo. Ao decidir "abrir as gavetas" e revisitar rascunhos arquivados, ele transformou fragmentos de memória em identidade estética.
No Spotify, principal plataforma de streaming de música do mundo, Whake soma 62.503 ouvintes mensais — doze mil a mais do que o principal grupo de rap do país tinha no início da carreira, quando cantava em Capítulo 4, Versículo 3: “Apenas um rapaz latino-americano apoiado por mais de 50 mil manos”, na voz de Mano Brown. Assim como Whake, o grupo não se importava com o mercado musical, mas com o que precisava ser cantado e tocado na época.
Nascido no Recife (PE), onde viveu grande parte da vida, o artista de 23 anos também morou em Campo Grande (MS) por cinco anos durante a juventude, em um contraste radical de cenários culturais. Enquanto a capital pernambucana fervilha arte, a capital sul-mato-grossense sempre luta pelo básico; o fazer artístico ainda é possível apenas a partir da resistência na Cidade Morena. Atualmente, Whake mora no interior de São Paulo, de onde conversou com a reportagem do TetarineTV por mensagens no WhatsApp.
MEDIDA NEW AGE
O cartão de visitas dessa nova fase, a faixa "Celestial", serviu como um manifesto de intenções. Ao promover o sincretismo entre a pulsação rítmica da música eletrônica e as atmosferas etéreas do New Age, Whake não estava apenas buscando uma sonoridade agradável; ele estava desenhando uma arquitetura de refúgio. A recepção orgânica e imediata no SoundCloud evidenciou um sintoma coletivo: havia uma audiência exausta, sedenta por aquela tranquilidade emotiva que a realidade externa negava.
"Eu criei esta música [Celestial] com um pouco deste sentido, devido ao caos, eu decidi criar algo que não demonstrasse o pior, e sim algo bom, algo de melhor, foi então que coloquei o nome da faixa Celestial, e coloquei como capa uma imagem que eu tinha tirado do céu", contou Whake.
Para o analista atento, a adesão de Whake ao New Age transcende o mero exercício de gênero. Trata-se de uma aplicação medicinal da estética. Em um movimento de honestidade radical, o artista revelou que suas composições operam como "válvulas de escape" para suas próprias batalhas contra a ansiedade e a depressão. A música, aqui, deixa de ser entretenimento para se tornar infraestrutura psíquica.
"Meu intuito era isto, criar algo terapêutico para minha melhora e para as pessoas que estava passando por problemas semelhantes", apontou o artista.
CORPO E OBRA
Após um hiato estratégico, o retorno do compositor em 2022, agora sob a bandeira de seu selo autoral, o Whake, marcou uma expansão para o Pop e o Ambient. Contudo, o aspecto mais fascinante dessa trajetória reside na tensão dialética entre a leveza de sua obra e a gravidade de sua vivência física.
"Foi de fato algo que eu imaginei, eu pensei: em meio ao caos que o mundo vem enfrentando, as coisas estão caóticas, devo pensar em algo que amenize a dor, então criei a música com a tensão do momento", argumentou.
Longe da curadoria asséptica que domina as redes sociais, Whake utilizou suas plataformas para expor a crueza de sua condição humana. Seus relatos sobre a convivência com a dermatite atópica e o transtorno dismórfico corporal inserem uma camada de complexidade em sua narrativa: há um corpo que sofre e luta para produzir um som que cura e eleva.
Ele revelou como criava as músicas de relaxamento, diante do contraste agressivo com a realidade.
"Eram momentos em que eu ia ao bosque, era um bosque muito belo, eu avistava o céu, e em contato com a natureza criei, a melodia inibiram um pouco os pensamentos autodestrutivos".
O ponto de inflexão de sua carreira ilustra o poder autônomo da criação artística. Em um momento de fragilidade extrema, onde pensamentos autodestrutivos flertavam com a desistência, o artista foi "salvo" por um objet trouvé de sua própria autoria: uma gravação esquecida no celular, feita apenas uma semana antes. Ao ouvir a si mesmo como um espectador, Whake reencontrou o propósito que a dor física tentava apagar. A obra, num ciclo virtuoso, resgatou o autor.
"LOW PROFILE"
Hoje, a postura "low profile" adotada por Whake pode ser lida como um ato de resistência contra a "economia da atenção". Ao priorizar a entrega musical em detrimento da performance de uma celebridade digital, ele reafirma a soberania da obra.
"Foi uma boa estratégia para manter a saúde mental, é uma boa escolha também o artista desaparecer um pouco para ficar isento de pressões psicológicas, e ter ideias para a próxima criação", completou.
Sua discografia atual não é apenas um catálogo de faixas para streaming; é o testemunho de uma sobrevivência. Whake prova que, na contemporaneidade, compor música ambiente é mais do que criar som de fundo — é uma forma sofisticada de reivindicar espaço, fôlego e sentido em um mundo ruidoso.
