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"AFUNDAÇÃO DA CULTURA"

Na 'mão grande', prefeitura sequestra verba da Aldir Blanc para o Executivo

Sob a batuta do secretário Valdir Gomes, Fundac drena quase meio milhão de reais que deveriam ir para a Cultura para comprar móveis para a Prefeitura

Por TERO QUEIROZ • 07/02/2026 • 12:08
Imagem principal Adriane Lopes, Valdir Gomes e a equipe de finanças da prefeitura de Campo Grande abocanha recursos da Política Nacional Aldir Blanc para ações do Executivo. Fotos: Reprodução

A "malandragem" burocrática tem endereço certo em Campo Grande: Avenida Afonso Pena, 2270, na Casa de Cultura. Foi lá, na noite de 13 de maio de 2025, que a gestão da prefeita Adriane Lopes (PP), representada pelo diretor presidente da Fundação Municipal de Cultura (Fundac), Valdir Gomes, operou o que podemos chamar de um "sequestro institucional" da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) – 2º Ciclo.

Uma ata de reunião, obtida pela reportagem do TeatrineTV (a íntegra), revela como a Prefeitura de Campo Grande desenhou um Plano de Ação que, sob o pretexto de "consultar" a classe artística, na verdade, oficializou o uso de recursos federais emergenciais para cobrir buracos da administração municipal.

O "pulo do gato" da gestão Adriane Lopes está na Meta C do plano apresentado. Do montante total de R$ 5.802.794,95 que a União enviou para ser destinados aos trabalhadores da cultura da capital sul-mato-grossense, a Prefeitura decidiu abocanhar R$ 481.676,96.  

A justificativa? "Aquisição de Equipamentos e Mobiliário para Espaços Culturais mantidos pelo município". 

É isso mesmo que você leu. Em vez de injetar dinheiro na produção artística independente, em grupos de teatro que mal conseguem pagar aluguel ou em coletivos de periferia, a Fundac vai usar quase meio milhão de reais para comprar móveis e equipamentos para prédios que a própria Prefeitura tem a obrigação constitucional de manter com o orçamento do tesouro municipal. É  a federalização da manutenção predial, às custas do suor do artista. 

Durante a reunião, a produtora Simone Bulhões teve a lucidez de questionar esse percentual destinado a investimentos em equipamentos públicos. A resposta da assessora governamental Cármen Conceição Britez de Eugênio foi burocrática: argumentou que o dinheiro “retorna para a classe artística”, pois os espaços são cedidos sem ônus. A pergunta que fica é: qual espaço? Seria o auditório sem infraestrutura mínima, recém-reinaugurado — o do Paço Municipal? Pois esse é o único equipamento, mal restaurado, que Adriane Lopes entregou desde sua entrada na Executivo.

O diretor-presidente da Fundac, Valdir Gomes, no reinaugurado auditório chamado de Teatro do Paço Municipal. Foto: ReproduçãoO diretor-presidente da Fundac, Valdir Gomes, no reinaugurado auditório em frente a prefeitura, chamado de Teatro do Paço Municipal  (Teatro José Otávio Guizzo). Foto: Reprodução

No espaço acima, único possível para uso de apresentações de teatro e semelhantes, foram torrados R$ 936.041,56 para ser devolvido praticamente do mesmo jeito: sem coxia, sem iluminação, sem palco. Ou seja, muito dinheiro gasto, sem nenhuma melhora real no espaço.

Com mais de 1 milhão de habitantes, a Capital sul-mato-grossense não tem sequer um teatro público disponível para ensaios e atividades gratuitas à população. Como mostramos aqui no TeatrineTV, a cultura teve que brigar com a administração para não perder o Armazém Cultural, único espaço que ainda pertence aos trabalhadores da arte.

Na prática, a Prefeitura disse ao trabalhador das artes na PNAB 2: "Não vou destinar dinheiro para montar sua peça, vou usar o dinheiro para comprar uma cadeira nova para o meu auditório de reuniões, e deixo você sentar nela de graça".

CABIDE DE EMPREGO? 

Não para por aí. Na proposta, a gestão reservou R$ 290.139,75 para a nebulosa “operacionalização” — mas isso já virou praxe. As gestões pegam esse recurso, soltam na mão de alguma plataforma e se eximem dos problemas oriundos da má gestão dos editais — que são muitos.

O texto da ata é claro: o dinheiro servirá para "contratação de pareceristas", mas também para a "contratação de produtores culturais para ministrar oficinas" e pagamento de "subsídio mensal". Em um ano eleitoral ou de acomodações políticas no caso da prefeitura, criar rubricas para contratar terceiros para fazer o trabalho que deveria ser da equipe técnica da Fundac liga um alerta vermelho de "cabide de emprego" e aparelhamento da máquina.

Além disso, prevê-se a contratação de uma plataforma privada para inscrição de projetos, ignorando sistemas públicos gratuitos ou a capacidade da própria TI da prefeitura. Mais dinheiro saindo do bolso do fomento direto para o ralo da prestação de serviços.

"AMÉM FORÇADO"

A ata registra, com a frieza típica dos documentos oficiais, que "todos os presentes [...] concordaram com o Plano de Ação proposto". Mas as entrelinhas mostram que os poucos da classe artística que compareceram numa terça-feira numa reunião feita a toque de caixa, até tentou pautar as reais necessidades, mas foram ignorados pela gestão especialista em calotes, que não executa seus editais públicos corretamente desde 2022.  

A produtora Patrícia Rodrigues cobrou que o dinheiro chegasse onde a gestão Adriane Lopes raramente pisa: na cultura de periferia, no Hip Hop, no Slam e nos DJs. Também pediu socorro para as manifestações da Rua 14 de Julho, historicamente negligenciadas. Simone Bulhões suplicou por melhorias básicas na plataforma de inscrição, pedindo aumento da capacidade de arquivos para 30MB, uma demanda técnica simples que expõe a precariedade digital da pasta.

O produtor José Carlos de Souza pediu editais para novos talentos, tentando furar a bolha das cartas marcadas.

No fim, a ata assinada por Valdir Gomes, Jacqueline Vital e sua equipe serve como um recibo de que a PNAB em Campo Grande virou um puxadinho do orçamento municipal. Enquanto a cultura respira por aparelhos, a Prefeitura usa o oxigênio federal para mobiliar a casa. A tal esculta em Campo Grande, na verdade se configurou como uma nova "malandragem" oficializada em ata.

A reportagem procurou o diretor presidente da Fundac, Valdir Gomes, para explicar a medida de sequestro da verba, entretanto, mas mensagens enviadas à ele não foram respondidas. Também o questionamos de quando sairão os editais do Ciclo 2 da PNAB, diante do cronograma oficial disponibilizado pelo Ministério da Cultura (MinC), veja:

O QUE FOI APROVADO NO PAR AO MINC

O Plano de Aplicação de Recursos (PAR) referente à Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) enviado pela Fundac ao MinC detalha a destinação de verbas para o exercício de 2025, supostamente focando em ações afirmativas, cultura periférica e manutenção de espaços culturais. A íntegra

Embora o município tivesse um montante total disponível de R$ 23.211.179,80, a prefeitura não solicitou esse recurso, na verdade solicitou apenas R$ 5.802.794,95, divididos em três metas principais. O recurso solicitado representa 25% do valor que os artistas de Campo Grande poderiam ter acesso, se a gestão tivesse tido a capacidade de fazer um PAR mais robusto, mas isso não ocorreu.  

Investimento cultural (meta 1)

A maior fatia do orçamento segundo o PAR, cerca de R$ 4 milhões, deveria ser destinada a ações gerais de fomento. O plano previa uma ampla distribuição de recursos, incluindo:

  • A -Editais culturais: R$ 2,25 milhões reservados para publicação de editais de fomento.
  • B - Subsídio mensal: R$ 515 mil destinados à manutenção de espaços e organizações.
  • C - Aquisições: R$ 481 mil para compra de equipamentos e itens para áreas de patrimônio.

O plano era mais inteligente que a proposta de execução, já que segmentou verbas para nichos específicos, como R$ 50.000,00 para formação de DJs na periferia , R$ 100.000,00 para o setor de Moda e R$ 245.000,00 para o Cinema.

Cultura Viva e Pontos de Cultura (meta 2)

Para fortalecer a política de base comunitária, eram para ser alocados R$ 1,5 milhão para contemplar 15 projetos de Pontos de Cultura, com um valor individual de R$ 100 mil cada.

Custos operacionais (meta 3)

Para gerir a aplicação da lei, a prefeitura de Campo Grande previu gastar R$ 290 mil. Este valor cobriria a contratação de plataforma de gestão (R$ 215 mil) e o pagamento de pareceristas (R$ 75 mil) para avaliação dos projetos.

Vale ressaltar que o PAR, gerado em dezembro de 2025, apresentava o status de "Inabilitação por aferição" devido a prefeitura até 8 de julho de 2025 não ter executado o mínimo de 60% dos repasses do Ciclo 1 da PNAB, que teve em 2024. O documento indicava que o município ainda passava por processos de verificação junto ao Ministério da Cultura, que posteriormente aprovou o PAR. 

 


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Tags: Adriane Lopes, Cármen Conceição Britez de Eugênio, Fundac, Fundação Municipal de Cultura, Hip Hop, Jacqueline Vital, PNAB, Política Nacional Aldir Blanc, Simone Bulhões, Valdir Gomes

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