No sambódromo, entregar o "samba no pé" é algo tão natural quanto respirar. Por isso, o que o público busca ao ocupar a Praça do Papa, em Campo Grande (MS), é algo a mais: um Carnaval visualmente estético, narrativo, musical e, sobretudo, comprometido com temas sociais.
Para o ouvinte atento que trabalha às margens da passarela, os comentários do público a cada ala que surge são um termômetro. Acompanhando o Carnaval da Capital Morena ininterruptamente há sete anos, noto que o espectador campo-grandense torna-se mais exigente e analítico a cada edição. Eles não avaliam apenas o samba ou os fogos da abertura; observam o rigor estético.
“Aquela escola de ontem, a do José Abrão, estava com carros menos compreensíveis. Esta acertou mais”, comentava uma espectadora com o marido. Ele, por sua vez, ponderava um ponto positivo: “Mas a música do José Abrão estava muito melhor, né?”, ao que a esposa assentiu.
O casal referia-se ao desfile da Vila Carvalho — campeã de 2026, que debateu a conexão entre Pantanal e Amazônia por meio da Arara-Azul — em comparação à Cinderela Tradição do José Abrão. Esta última trouxe o tema “Diáspora”, abordando o deslocamento forçado de povos por conflitos étnicos e religiosos. Apesar do excelente samba-enredo e da relevância do tema, a Cinderela amargou a 5ª colocação (penúltima posição).
Fica claro que a percepção do público coincidiu com a dos jurados: embora o enredo da Cinderela fosse melódico e com letra certeira, as alas falharam em traduzir visualmente a história proposta.
Já no quesito Comissão de Frente, a aclamação popular foi para os Catedráticos do Samba. “Com certeza a melhor”, afirmava uma senhora à filha, referindo-se ao enredo saudosista “De Volta ao Passado: Os Catedráticos do Samba em um Flashback de Emoções”.
O TeatrineTV endossa ambas as análises, não por mera conveniência, mas porque elas refletem o amadurecimento artístico das escolas campo-grandenses.
O QUE 2026 ENSINA
Carro alegórico da Vila Carvalho no Carnaval 2026. Foto: Tero QueirozO Carnaval deste ano demonstra que preservação ambiental, direitos humanos e memória são os ganchos que realmente conectam a escola ao público local.
A Vila Carvalho transformou um tema potencialmente complexo em algo palpável ao unir os dois maiores biomas do país. A escola acertou na tradução visual: carros e figurinos, além de respeitarem o verde e rosa da agremiação, eram narrativos e objetivos. O samba, embora menos potente que o da Cinderela, embalou 600 componentes com uma adereçagem primorosa.
Um detalhe curioso da edição do Carnval 2026: em Campo Grande, as escolas que apostaram em homenagens a personalidades não obtiveram sucesso. Este parece ser um interesse mais latente no Sudeste. No Rio de Janeiro e em São Paulo, as campeãs Unidos da Viradouro e Mocidade Alegre venceram celebrando, respectivamente, o Mestre Ciça e a multiartista Léa Garcia.
Em Campo Grande, venceu a escola que entregou mais que o 'feijão com arroz'. Arriscou e colheu os louros pelo risco. Venceu quem levou à passarela a beleza das matas, das águas e da planície pantaneira. Ao colocar no centro do debate a ave símbolo do estado, a Vila Carvalho homenageou cada espectador presente. Para nós, foi a vitória incontestável da identidade sul-mato-grossense. Portanto, o TeatrineTV concorda com os jurados: venceu a Vila Carvalho.





