Criado em 1946 e financiado por contribuições compulsórias sobre a folha de pagamento do comércio — ou seja, dinheiro do povo —, o Sesc se apresenta como uma entidade voltada ao bem-estar social.
O Sesc diz ter a missão institucional de “colaborar com o cenário social e beneficiar trabalhadores do comércio e comunidades”.
Na prática, o volume de recursos — bilionário em escala nacional — contrasta com a pouca transparência dos fundos do Sesc e com o retorno social efetivo, principalmente no campo cultural.
Em Campo Grande, o debate sobre o real apoio do Sesc à cultura ganhou novo capítulo na última semana.
Isso porque o Sesc MS anunciou o leilão do Cine Campo Grande, último cinema de rua da Capital.
O imóvel será vendido com lance inicial de cerca de R$ 4,9 milhões. A decisão encerra um projeto anunciado em 2013, quando o prédio foi adquirido por R$ 3 milhões para abrigar um centro cultural.
À época, a compra foi considerada “louvável” e gerou “enorme expectativa na comunidade artística do estado”.
Mais de uma década se passou e o Sesc MS pró-cinema se converteu em um Sesc que promove a gentrificação institucional ou, no português claro, especulação com o patrimônio público.
SESC VIROU UM 'GENTRIFICADOR'
O Sesc MS terminou de sucatear o Cine Campo Grande antes de colocar o prédio a leilão. Foto: Tero QueirozQuando comprou o prédio, o Sesc prometeu fazer uma reforma para reativar o espaço. Essa promessa foi feita ao longo de muitos anos.
"Foi devido à importância que este local teve para a cidade que o Sesc MS, adquiriu
o local a fim de implantar nele um espaço cultural, para apresentações de dança e teatro, exibições de filmes, oficinas de arte e instrumentos musicais, além de espaço de leitura", sustentava até 6 de setembro de 2022 o Sesc (a prova
).
Porém, o Sesc não realizou a reforma e o prédio acumulou abandono, episódios de vandalismo e nunca chegou a cumprir a função prometida.
Assim seria a fachada do prédio Cine Campo Grande se o Sesc MS tivesse cumprido o acordado.Diante da pressão para dar finalidade ao prédio, o Sesc passou a inventar desculpas. Uma delas: o prédio não tem espaço arquitetônico para estacionamento.
Essa justificativa é uma das mais furadas possíveis, pois unidades do Sesc em todo o Brasil, incluindo 6 unidades na capital paulista, não possuem estacionamento e, ainda assim, atuam como impulsionadores do teatro, cinema e diversas artes paulistas.
Além de a justificativa do Sesc não ter sustentação, ela erra no contexto das cidades inteligentes. Isso porque a visão moderna de urbanismo e a própria missão do Sesc de "promover o bem-estar e a transformação social" sugerem que espaços culturais em centros urbanos devem ser acessíveis e democráticos, não dependentes de automóveis particulares.
Edison Araújo, Presidente do Sistema Comércio de Mato Grosso do Sul.Com a justificativa fraca, o presidente do Sesc MS, Edison Araújo, foi à mídia hegemônica campo-grandense com uma nova justificativa. Edison alega que o Cine Sesc precisa ser financiado para viabilizar a reforma do Parque Florestal Antônio de Albuquerque, o Horto Florestal, outro espaço urbano de interesse cultural entregue pelo Estado ao Sesc.
Quem já ouviu o ditado “despir um santo para vestir outro” talvez não saiba sua origem.
A expressão vem de antigas igrejas e irmandades religiosas que, para economizar, não mantinham todas as imagens luxuosamente vestidas. Em dias de festa, retiravam adornos de uma estátua para “vestir” o santo em destaque no altar ou na procissão.
O resultado não é estranho — e se repete na movimentação do Sesc MS. A lição é simples: se quer fazer algo corretamente, não se tira de um para dar a outro.
REAÇÕES CIVIS E DE ÓRGÃOS

Para o Colegiado Audiovisual de Mato Grosso do Sul, a venda representa "andar para trás" na política pública do audiovisual do estado.
"Entendemos que sua venda para outra atividade sem relação com o universo artístico será um grande retrocesso do ponto de vista simbólico e material para Mato Grosso do Sul".
Em Carta Aberta ao Sesc MS, o Colegiado destacou também o papel histórico do equipamento cultural, definido como “um importante pilar da formação do olhar de milhares de campo-grandenses”. Leia a íntegra da carta abaixo:
A deterioração do imóvel já havia sido alvo de alerta. A Controladoria-Geral da União apontou a ociosidade do prédio ao longo dos anos, sem destinação cultural efetiva (a prova. pg 13). Em resposta à CGU, pasmem, o Sesc MS fez uma espécie de linha do tempo que, apesar de detalhada, não explica o abandono do prédio por 13 anos. A reportagem recriou em uma arte gráfica, a linha do tempo informada pelo Sesc à CGU:

Como adianta a arte acima, agora o caso chegou ao Ministério Público Federal. Em ofício, o órgão requisitou explicações ao Sesc sobre “as razões técnicas e estratégicas que fundamentam a decisão de alienar o imóvel”.
O procurador também solicitou os laudos de avaliação. No documento, há um alerta direto para possível “gestão temerária ou prejuízo ao erário”, uma vez que o prédio permaneceu “13 anos sem cumprir sua função social”. Leia a íntegra do ofício do MPF:
'AGENDA TAMPÃO'

Enquanto enterra o último cinema de rua de Campo Grande, o Sesc MS ignora o apelo público pelo cumprimento da promessa de retomar o prédio de interesse cultural. Ao invés de debater o Cine Campo Grande, o Sesc MS passou a disparar uma agenda cultural completamente equivocada.
De acordo com a instituição, entre 25 e 28 de março, será realizada a 2ª edição Prosa – Mostra Sesc de Teatro e Circo, no Teatro Prosa, em Campo Grande.
Em seu anúncio institucional da Mostra Sesc de Teatro e Circo, o Sesc afirmou que a programação “reúne produções locais e nacionais”, iniciativa que, segundo a instituição, celebra o Dia Mundial do Teatro e o Dia Nacional do Circo, em 25 de março.
Na prática, porém, a presença local é residual. Das quatro atrações principais da Prosa – Mostra Sesc de Teatro e Circo, apenas a abertura — um espetáculo de mágica — é de Mato Grosso do Sul.
Os demais espetáculos vêm do Rio Grande do Sul (1) e do Rio de Janeiro (2), o que configura cerca de 75% da grade ocupada por produções de fora (a prova).
APOIADOR FICCIONAL
O dado não é pontual, mas sintoma. A propaganda do Sesc como “apoiador das artes de Mato Grosso do Sul” é uma ficção.
Por exemplo, o Sesc enfia grande parte do recurso dos impostos do povo sul-mato-grossense — que deveria ser destinado à cultura local — nos bolsos de artistas de fora de MS.
Peguemos o MS Ao Vivo, um programa de oferta de apresentações musicais gratuitas no Parque das Nações Indígenas. Nesse programa, realizado pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), o Sesc propôs pagar exclusivamente os cachês das chamadas “atrações nacionais” — uma espécie de selo destinado a artistas que conquistaram o apoio dos grandes veículos de comunicação.
Mesmo com o recurso relevante sendo destinado aos artistas de fora do estado, o Sesc insiste em se apresentar como apoiador assíduo do artista sul-mato-grossense. O que tem restado para o artista de MS, na verdade, é uma espécie de esmola.
Se quiser colocar essa informação à prova, o bom leitor pode observar o material divulgado pelo Sesc MS nesta semana em que leiloa o Cine Campo Grande. Notará um esforço da instituição para se vender como grande “apoiadora do cinema de MS”.
Na publicação em seu site oficial, o Sesc sustentou a seguinte manchete: “Sesc MS impulsiona o cinema regional com programação gratuita e inclusiva” (a prova).
Diretor regional do Sesc MS, Vitor Mello.“Investir no audiovisual e no cinema local é investir no futuro da nossa cultura. O Sesc, com suas ações contínuas, como o Cine Sesc e a Mostra Sesc de Cinema, oferece não só acesso à arte, mas também contribui para o desenvolvimento de novos talentos, ampliando o alcance das produções sul-mato-grossenses”, disse o diretor regional do Sesc MS, Vitor Mello.
O conteúdo, confuso, traz à baila a entrevista de uma cineasta sul-mato-grossense e mistura assuntos como a Mostra Sesc de Cinema, o Bonito CineSur e uma programação intitulada “Cine Sesc”.
O problema desse conteúdo é que, além de enganoso, é carregado de má-fé.
O Sesc publicou a referida manchete em que diz apoiar o “cinema regional”, mas, na programação Cine Sesc, não há nenhum filme de Mato Grosso do Sul.
Essa é apenas uma das formas de revelar a verdadeira face do Sesc em Mato Grosso do Sul. Talvez o que a gerência local do Sesc não saiba é que o setor artístico trabalha com ficção — e sabe notar quando está sendo tratado como personagem descartável.
Ao longo dos últimos anos, o Sesc MS usufruiu e abandonou o prédio da Morada dos Baís e o prédio histórico da 30ª Circunscrição do Serviço Militar, ambos na Avenida Afonso Pena. E agora, em uma nova modalidade de usufruto, chegou a vez de sucatear o Cine Campo Grande. A pergunta que precisa ser feita é se a instituição seguirá fazendo isso à revelia. Se sim, por que o Estado segue entregando bens públicos a essa instituição?
O QUE DIZ O SESC
Procurado pela reportagem do TeatrineTV para comentar a Carta Aberta do Colegiado do Audiovisual, que protesta contra o leilão do Cine Campo Grande, o Sesc MS enviou o que se pode chamar de um posicionamento protocolar:
“O Sesc MS informa que o prédio que abrigou o antigo Cine Campo Grande foi a leilão porque suas condições estruturais impossibilitaram seguir com o projeto em andamento. Entretanto, isso não inviabiliza o Sesc de promover, em um futuro próximo, um novo projeto que irá abrigar, de forma mais ampla e estratégica, ações de todas as linguagens artísticas ofertadas gratuitamente para a população”.
Na resposta ao TeatrineTV, o Sesc também quis se vender como apoiador do cinema de MS:
“É válido ressaltar que o Sesc reconhece a importância do audiovisual em nosso estado, a exemplo das diversas ações que já acontecem em nossas unidades, como o Cine Sesc, a Mostra Sesc de Cinema e o Sesc Lab Mais, demonstrando assim que, independente do local, sempre haverá abertura para exibição de produções audiovisuais”, concluiu.
MANIFESTAÇÃO DO AUDIOVISUAL

Neste domingo (22.mar.26), trabalhadores do audiovisual de Campo Grande devem realizar um protesto contra o leilão do Cine Campo Grande.
A manifestação está marcada para iniciar às 18h, em frente ao cinema de rua, localizado na Rua 15 de Novembro, 750, no centro da Capital.







