(12.fev.26) - Bloco de Carnaval de Rua, Evoé Baco ocupa Rua 14 de Julho em Campo Grande (MS) com cortejo de 'arrastão'. Foto: Tero Queiroz
A Rua 14 de Julho, artéria pulsante do comércio e do “centro do capital” em Campo Grande (MS), teve sua lógica subvertida na noite desta 5ª feira (12.fev.26). Onde normalmente impera a pressa do trabalhador ou o fluxo do consumo, o Bloco Carnavalesco Evoé Baco, do grupo de teatro e ponto de cultura Imaginário Maracangalha, instaurou outra ordem: a do encontro.
Em meio ao cortejo que arrastou um público diverso e participativo, o fundador do grupo, Fernando Cruz, definiu o carnaval não como fuga, mas como enfrentamento — um ato de desarmamento emocional.
(12.fev.26) - Fernando Cruz durante performance no cortejo do Bloco Carnavalesco Evoé Baco em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz "O carnaval na rua, feito por cada uma das pessoas, provoca o que chamo de 'remover a couraça'. As pessoas que muitas vezes estão duras, no corpo imposto pela sociedade, se soltam, dançam e cantam", teoriza o diretor.
Para Cruz, ocupar a via revitalizada por cimento e pouco arborizada é contrapor a ideia de higienização social e ambiental imposta à cidade.
"Em todas as transformações do mundo, as revoluções aconteceram na rua, com o povo lutando, gritando, jogando suas poesias. A ideia é continuar ocupando a rua não apenas como espaço de ida e vinda, mas com resistência e alegria", explicou.
A SERPENTE E O TEATRO
(12.fev.26) - Serpente da crença indígena integrou Bloco Evoé Baco em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz O nome do bloco — "Evoé", saudação às bacantes de Dionísio — carrega uma missão prática que remonta às origens do grupo: abrir alas para a arte.
"Existia um motivo: abrir caminho para o teatro", relembra Fernando, citando que os primeiros cortejos eram marcados pelos estandartes cênicos.
(12.fev.26) - Val Eloy porta estandarte do Bloco de Carnaval de Rua Voro'pi criado em 2025. Foto: Tero Queiroz Mas a "oferta" do Evoé se expandiu. O que Fernando descreveu poeticamente como a união de "povos de terreiro e o bolo de cobra", materializou-se na presença marcante do Bloco Voro'pi. A liderança indígena Val Eloy explicou a profundidade dessa aliança, que une a mitologia grega à cosmologia dos povos originários.
"A Voro'pi, para nós, é uma serpente do nosso povo. Ela nasce das águas, protege o nosso território. É a nossa força central", detalhou Val.
Segundo ela, a presença indígena no cortejo não é aleatória:
"Nós participamos dentro do Evoé Baco porque é um bloco de resistência, a favor das minorias e da educação. Trazemos a serpente para as ruas como um símbolo de luta".
(12.fev.26) - Bloco Evoé Baco realiza cortejo de arrastaão em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz Essa fusão sagrada foi arrematada por Fernando Cruz ao traçar a linha que conecta o Dionísio grego — deus da colheita e da festa cívica — à figura de Exu na cultura afro-brasileira.
"É uma demarcação milenar. Por isso gritamos: 'Vem, Laroyê Exu'. É Exu que abre o caminho".
"VIVA EVOÉ BACO!"
(12.fev.26) - O professor Cristiano Santos homenageou Ney Matogrosso durante o Bloco Evoé Baco em Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz Ciente da crítica política e social, o público encarnou a filosofia do "arrastão" defendida pelo Imaginário Maracangalha: um espaço onde todos cabem. O professor Cristiano Santos, de 41 anos, viu no bloco o reflexo da liberdade estética de um ícone do estado.
"Ney é da nossa terra e faço essa singela homenagem. O carnaval está ligado à liberdade e à beleza do nosso povo, algo que se assemelha à trajetória de Ney Matogrosso", comparou Cristiano.
(12.fev.26) - O professor Cristiano Souza durante celebração do carnaval de rua em Campo Grande (MS), no Bloco Evoé Baco. Foto: Tero QueirozPara ele, o Evoé Baco representa a "essência" do que é ser um Bloco de Rua:
"Alegria, diversão, comunhão e também o carnaval político. Evoé Baco está no meu coração. Viva esse bloco o qual acompanho há seis anos".
A ocupação da Rua pelo Evoé Baco foi celebrada também por quem viu a história acontecer. O turismólogo aposentado Carlos Augusto Ferreira Sá, de 64 anos, ex-carnavalesco com raízes nas escolas de samba da cidade, vê no bloco de rua algo necessário.
(12.fev.26) - Carlos Augusto Ferreira Sá, de 64 anos, durante festejo do Bloco Evoé Baco. Foto: Tero Queiroz"O carnaval estava ficando muito fechado. Essa retomada é importante como movimento cultural natural do povo brasileiro. O amor ao carnaval é maior do que qualquer escola, porque nasce nas comunidades", defendeu.
Mas talvez a síntese da noite tenha vindo da cantora Madinha. Aos 68 anos, ela evocou suas memórias de adolescente na mesma rua para reivindicar o presente.
(12.fev.26) - A cantora Madinha celebrou o Bloco Evoé Baco de Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz"Esse bloco tem tudo a ver comigo: é forte, feliz e ocupa o espaço. Eu tenho a dizer às pessoas da minha idade: ocupemos a rua. Ocupemos o carnaval. Estamos vivos e é um direito se divertir", decretou.
EVOÉ BACO CONTRAPÕE INÉRCIA DA PREFEITURA
(12.fev.26) - Deputada federal Camila Jara prestigia Bloco Evoé Baco e cobra apoio do Executivo. Foto: Tero QueirozEnquanto o sagrado pedia passagem e o público celebrava o Evoé Baco, a política institucional também marcava território na folia. A deputada federal Camila Jara (PT), presente no bloco com sua família — o jornalista Gerson Jara e Edna Bazachi —, celebrou a tradição do Bloco e do Imaginário Maracangalha. Entretanto, ela propôs uma reflexão sobre a postura municipal no que tange aos investimentos na festa popular brasileira.
Camila lamentou a falta de apoio financeiro da Prefeitura de Campo Grande ao carnaval de rua, contrastando a alegria do público com a ausência de estrutura estatal.
"A prefeitura precisa ajudar. Sinto que Campo Grande perde a oportunidade de crescer. Vemos tanto o Estado quanto o Governo Federal agindo, mas quero saber qual é a obra estruturante que está sendo construída no município. Isso não acontece sem planejamento claro", cobrou a parlamentar.
Jara destacou que o carnaval vai além da festa: é motor da economia criativa.
"Precisamos fortalecer a moda na cidade, produzir fantasias aqui em vez de importar da China. Se tivéssemos prazo e estrutura da Fundação de Cultura, teríamos todo um setor trabalhando meses antes da festa", comentou.
(12.fev.26) - Moreno Mourão e Fran Corona, integrantes do Teatro Imaginário Maracangalha e realizadores do Bloco Evoé Baco. Foto: Tero Queiroz
Mesmo diante das adversidades, Camila celebrou o volume de ocupação artístico-cultural do Bloco Evoé Baco nas ruas.
"Estou feliz demais com essa noite. Me diverti, cantei, pulei e vi todos ao redor celebrando a vida, a arte, por meio do cortejo musical carnavalesco singular do Evoé Baco. O Maracangalha é um presente à nossa cidade, que bom que vivemos o carnaval com esse grupo", completou.
Com isso, celebrando seus 15 anos, o Bloco Carnavalesco Evoé Baco provou a tese de seu fundador: a luta, para ser sustentável, precisa ser celebrada.
"Essa é uma luta prazerosa para todo mundo, isso que nos dá força para continuar", finalizou Fernando Cruz.
(12.fev.26) - Moreno Mourão e Fran Corona, integrantes do Teatro Imaginário Maracangalha e realizadores do Bloco Evoé Baco. Foto: Tero Queiroz






























































































































































































































































