Ligia Tristão Prieto celebra 25 anos de carreira com o monólogo 'Invernáculo dos Sonhos'. Foto: Gabriella Thais
Em celebração a um quarto de século dedicado às artes cênicas, a atriz Ligia Tristão Prieto sobe ao palco do Teatro Aracy Balabanian, entre os dias 2 e 6 de fevereiro de 2026, para apresentar seu solo: "Invernáculo dos Sonhos". O espetáculo, que transita entre o teatro documental e a performance multimídia, propõe uma investigação sobre a sobrevivência da mulher artista em um contexto socioeconômico hostil.
Segundo informações divulgadas, o monólogo parte de uma premissa situada em um contexto geográfico específico: a vivência em um território onde “a arroba do boi vale mais que a vida de uma mulher”.
A partir desse ponto, a dramaturgia aborda as inquietações de uma criadora que busca, em meio a históricos recorrentes de violência e invisibilidade, condições mínimas de segurança para a existência artística e para a profissionalização no campo das artes.
Para Ligia, o título da obra carrega uma dubiedade necessária para suportar essa realidade.
"O invernáculo é refúgio e é trincheira de guerra. É um refúgio para a trincheira da guerra", definiu.
“ESTADO DE AGRO”
Atriz debate o corpo feminino no 'Estado do agro'. Foto: Gabriella ThaisA peça dialoga com uma discussão histórica. Da Roma Antiga à Belle Époque, mulheres que ocupavam a esfera pública artística foram frequentemente associadas à mercantilização de seus corpos. No Brasil, mecanismos de controle persistem, sobretudo em Mato Grosso do Sul.
Ao analisar sua trajetória de 25 anos, Ligia é ácida ao constatar a estagnação do cenário local.
"Às vezes eu tenho a sensação que as coisas melhoraram, às vezes essa sensação se perde completamente e a gente pensa: 'Cara, está tudo no mesmo lugar'".
Ela apontou a dificuldade de atuar em um território que ignora a produção local.
"A gente tem um caminho muito tenso aqui no estado, um estado que não entende a arte enquanto profissão, um estado que consome a arte de fora, mas não consome a arte de dentro, nem potencializa a arte de dentro".
Para a atriz, esses 25 anos foram de "muita luta e tentativa de ocupar um certo espaço". Ela cita o Grupo Casa como um exemplo desse isolamento necessário.
"Eu acho que o Grupo Casa é um certo invernáculo. A gente fica numa bolha mesmo, meio distante do restante, para gente conseguir criar, compor o que precisa", analisou.
A sustentabilidade financeira, segundo ela, tornou-se uma "invenção" diária para tentar viver de cachês e projetos.
"São pouquíssimas pessoas no Mato Grosso do Sul que vivem somente da arte. E eu acho que isso não é culpa dos artistas. É culpa de uma sociedade que não consegue compor uma estrutura que fomenta a arte, que entende a arte enquanto inerente à vida, enquanto existência necessária para uma relação comunitária respeitosa e digna".
Ligia foi categórica ao afirmar que, mesmo com a chegada de universidades e editais, o processo é lento demais.
"Hoje a gente tem artistas, sempre teve artistas muito fortes que ocupavam as ruas, mas a que custo? A gente tem um território que não paga pela arte. Todo mundo está fazendo outras coisas, mas usa arte enquanto hobby, porque não tem como pagar o aluguel vivendo de arte num território que não tem mercado artístico".
O desgaste é visível e denunciado pela atriz:
"Não há corpo, há alma, aluguel que aguente durante muito tempo. É muito maior o esforço que os artistas fazem durante a vida, e podia ser muito mais fácil se todo mundo entendesse para que serve a arte no mundo", avaliou.
DO ÍNTIMO AO POLÍTICO
Espetáculo 'Invernáculo dos Sonhos', monólogo de Ligia Tristão Prieto, estreia na capital sul-mato-grossense. Foto: Gabriella ThaisSe o contexto externo é árido, o palco se torna o local de dissecação da memória. Pela primeira vez encarando um monólogo, Ligia descreveu o processo como o mais sensível de sua vida.
A necessidade da obra nasceu do desejo de partilhar uma trajetória que envolve as mulheres que vieram antes, especialmente sua mãe.
"É uma brincadeira de uma metalinguagem bastante real. É uma autobiografia ficcional, então tem coisas que são muito reais, muito íntimas, ao mesmo tempo que tem coisas que são da parte da poesia, da cena", adiantou.
Essa mistura gera uma exposição brutal no palco.
"Me traz essa sensação de um escancaramento, de um rasgar mesmo o peito e colocar no palco: 'Olha, é isso aí. O que tem aqui dentro é isso aqui'", comentou.
A construção dramatúrgica, desenvolvida desde 2023 em paralelo ao seu mestrado e ao livro A Escuta da Criação, propõe que, ao mergulhar no fundo das marcas pessoais, a obra atinge o universal.
"Quando a gente começa a mexer lá no fundo, nessas histórias singulares, é muito natural ampliar para virar universal. Todo mundo nasceu de uma mãe, de uma pessoa. Todo mundo perde pessoas. Todo mundo encontra na vida desafios".
Ela disse que a personagem toma conta da cena, mas a gênese é sempre pessoal.
"Não tem como eu não mergulhar em mim mesma. Não é sobre mim, mas é a partir de mim, de cada passo, de cada conquista, de cada desistência, de cada lugar que a vida, enquanto uma artista mulher, apresenta".
TECNOLOGIA E MEMÓRIA
A encenação aposta em uma estética híbrida. O palco se transformará em um estúdio de observação, onde câmeras operadas ao vivo capturam e projetam as nuances da intérprete.
"O espetáculo é inteiro íntimo, mas quando a câmera entra é como se ela fizesse uma aproximação mais colada ainda. Ela amplia esse olhar, essa respiração, essa lágrima", avaliou Ligia.
O recurso técnico não é gratuito; ele dialoga com a ausência.
"Há uma utilização das câmeras como um espaço de comunicação com essas mulheres que já não estão mais também. A câmera entra não só como partilha ao vivo, mas como um espaço de registro da memória".
Como uma mulher que se define "da poesia, do cinema e do teatro", ela disse que não tinha como não misturar as três linguagens.
"Elas estão em cena o tempo inteiro, eu faço parte delas o tempo inteiro, todas elas me escancaram e me expõem".
CARNE E TEMPESTADE
"Invernáculo dos Sonhos" posiciona-se como um ato de resistência, mas Ligia alertou para o perigo de se isolar completamente no refúgio.
"Acho que o artista vive 'entre'. Entre esse invernáculo, essa necessidade constante de encontrar esse espaço de proteção para que a sua criação exista, e esse movimento de enfrentamento desse território seco que não traz árvores frutíferas".
A vulnerabilidade é a matéria-prima do trabalho.
"Eu acredito que os artistas vivam em carne crua, com a pele exposta, com o coração exposto. Todo e qualquer movimento em torno de si é muito grande, é muito turbulento, é muito dolorido".
Para a atriz, o "invernáculo" serve para compor realidades desejadas e novos imaginários, mas ele só funciona se houver o atravessamento para o mundo real.
"Nada vale ficar dentro do invernáculo para sempre. Se não for para você se fortalecer e ir para o mundo, você vai morrer ali nesse lugar que não entra nem sol, nem chuva, nem nada. É preciso também estar exposto às tempestades e às turbulências para construir".
A estreia do monólogo "Invernáculo dos Sonhos", marca, segundo Ligia, não apenas uma celebração de tempo, mas a reafirmação de que, em Mato Grosso do Sul, fazer arte continua sendo um ato de teimosia vital.
"Talvez o território mais difícil de se conquistar seja o nosso próprio território", concluiu.
SERVIÇO
- Espetáculo: "Invernáculo dos Sonhos" – Monólogo de Ligia Tristão Prieto;
- Data: De 2 a 6 de fevereiro de 2026;
- Horário: 20h;
- Local: Teatro Aracy Balabanian;
- Ingressos e reservas: Disponíveis via Sympla (clique aqui).





