Os atores Leonardo Medeiros e Sofepoar estrelam o espetáculo 'Beije Seu Preto em Praça Pública'. Foto: Gabriella Thais
Uma intervenção artística que mistura teatro, política e afeto promete transformar a paisagem urbana de Campo Grande (MS) a partir desta semana.
O espetáculo Beije Seu Preto em Praça Pública inicia sua temporada com a proposta de levar para as ruas e praças da Capital uma narrativa sobre o amor negro como ato de resistência.
A programação é totalmente gratuita e começa antes mesmo da estreia oficial nas ruas.
Nos dias 20 e 21 de janeiro, o Teatro Aracy Balabanian abre as portas para ensaios abertos e uma roda de conversa focada na ancestralidade, permitindo que o público mergulhe no processo criativo da obra.
PREPARAÇÃO SP/MS
Diretora Ligia Tristão Prieto e a preparadora paulista Gal Martins. Foto: Gabriella ThaisA preparação corporal do elenco teve um reforço de peso: a paulista Gal Martins, conhecida por seu trabalho no filme A Melhor Mãe do Mundo e no espetáculo Carvão.
Gal Martins prepara os atores Leonardo Medeiros e Sofepoar para o espetáculo 'Beije Seu Preto em Praça Pública'. Foto: Gabriella ThaisEm Campo Grande, ela aplicou a metodologia da "Dança da Indignação", fundindo poesia e posicionamento político no movimento dos atores.
CARTAS DE SOBREVIVÊNCIA
Obra é escrita por Leonardo Medeiros e Sofepoar que também estão em cena. Foto: Gabriella ThaisA trama gira em torno de Clara e Bento, personagens que constroem um laço profundo através da troca de cartas.
A narrativa epistolar (feita por correspondências) revela o cotidiano de dois corpos que vivem cercados pelas angústias da violência urbana, do desaparecimento de amigos e do medo constante.
No entanto, a peça subverte a lógica da tragédia. As cartas funcionam como um registro de esperança e desejo. A insistência em amar, diante de um mundo hostil, transforma o encontro dos personagens em um gesto de coragem radical.
DA DOR À LINGUAGEM POLÍTICA
A construção dramatúrgica foi guiada pela metodologia “A Escuta da Criação”, da diretora mestre Ligia Tristão Prieto.
Para o criador e um dos dramaturgos do espetáculo Leonardo de Medeiros, que traz sua bagagem do movimento estudantil para a cena, o objetivo era fugir dos estereótipos de sofrimento.
"Estamos acostumados a ver corpos pretos apenas sofrendo, morrendo ou sendo silenciados. Nós queremos o amor, mas também queremos a fúria. A metodologia me provoca a ir fundo no que me rasga, não como quem revisita a dor para se ferir novamente, mas como quem transforma essa ferida em linguagem, em presença e em gesto político", explicou Leonardo.
REVOLUÇÃO E ESTÉTICA DOURADA
A montagem conta com a participação da artista e ativista Sofepoar. A provocação central do processo — "o que muda quando o afeto vira um ato político?" — encontrou ressonância na vivência da artista.
“Percebi a força de afirmar que corpos pretos estão organizados, fazendo suas próprias revoluções e mostrando o quanto somos potentes quando decidimos nos movimentar”, afirmou Sofepoar.
Visualmente, a peça foi pensada para dialogar com o ambiente urbano. O cenário e os figurinos apostam em uma estética dourada, com o uso de estruturas de ferro e metal.
A escolha não é aleatória. Segundo a diretora Ligia Tristão Prieto, o metal representa a solidez necessária, enquanto a realeza simbólica reivindica a grandiosidade dos personagens.
"O elenco compôs a criação das marcações a partir da escuta de seus desejos de existências, partilhas e denúncias, o que torna a cena super delicada e sensível. Esse espetáculo é um convite ao respeito para tornarmos nossa convivência em sociedade possível para todas as pessoas, reivindicando a liberdade de existência e de felicidade a quem sempre teve a vida negada", completou a diretora.
O projeto recebeu R$ 40 mil de financiamento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), via Ministério da Cultura (MinC), gerenciado localmente pela Prefeitura de Campo Grande. A íntegra.
SERVIÇO E PROGRAMAÇÃO
Ensaios abertos e diálogos
-
Onde: Teatro Aracy Balabanian
-
20 de janeiro: Ensaio aberto, das 16h às 17h.
-
21 de janeiro: Ensaio aberto seguido de roda de conversa, das 16h às 18h.
-
Ingressos: Gratuitos (reserva pelo Sympla).
Temporada de rua (estreia)
-
22 de janeiro (quinta): Orla Morena, às 19h.
-
23 de janeiro (sexta): Praça Ary Coelho, às 19h.
-
26 de janeiro (segunda): Plataforma Cultural, às 19h.





