A artista e candidata a deputada federal Gleycielli Nonato Guató quer levar para a Câmara Federal uma cobrança que, segundo ela, nasce da própria rotina de quem trabalha com cultura: se o artista precisa cumprir prazos e prestar contas, o poder público também deve entregar os recursos dentro das datas previstas.
A proposta foi apresentada por Gleycielli em entrevista ao TeatrineTV. Candidata pelo PSOL, ela defendeu maior fiscalização sobre editais culturais, repasses aos municípios e obras destinadas à cultura.
"Nós vivemos dentro dessa sociedade, dentro de um estado aonde o artista não é respeitado como trabalhador. Então eu sei exatamente aonde o calo dói", disse.
Gleycielli afirmou que a espera por recursos públicos interfere diretamente na continuidade dos projetos.
"Nós sabemos o quanto é esperar pelos editais e sabemos o quanto nós dependemos deles para poder dar continuidade aos nossos trabalhos. Nós queremos ser honrados e respeitados como trabalhadores, como somos, trabalhadores da cultura".
Para a candidata, um deputado federal que tenha origem na área cultural pode atuar diretamente na fiscalização dos recursos.
"E uma das coisas que uma candidata deputada federal que é artista pode fazer para os artistas de Mato Grosso do Sul é fiscalizar e responsabilizar os municípios para que haja um comprometimento de entrega desses editais dos valores já recebidos", comentou.
Ela comparou a obrigação dos artistas com a responsabilidade dos governos.
"Se nós artistas temos o compromisso de fazer a prestação de contas em determinadas datas, então o governo também tem a responsabilidade de entregar o dinheiro nas datas previstas e corretas".
OBRAS ABANDONADAS
A proposta também alcança espaços culturais que tiveram obras iniciadas, mas não chegaram à população como equipamentos em funcionamento.
Durante entrevista, Gleycielli citou a Ação Orçamentária 00VF, do Ministério da Cultura, como um dos mecanismos existentes para ações relacionadas a espaços e equipamentos culturais.
"É uma ação de implementação, construção e apoio a obras que estão abandonadas", apontou.
Para ela, o problema não termina quando o recurso é destinado ou quando a obra é concluída.
"E não é somente transformar essa lei legislação em algo que seja específico para a construção, mas ter uma fiscalização contínua e exata, com comprometimento de entrega e comprometimento de mantê-la dignamente para a população".
A candidata defendeu acompanhamento permanente dos equipamentos culturais.
"A minha proposta é trazer esse compromisso de estar presente em todas as obras e pontos culturais do nosso estado, aonde o nosso trabalho possa ser visto como algo contínuo, presente e com responsabilidade com a população".
DO INTERIOR PARA BRASÍLIA
Gleycielli é do povo Guató e nasceu em Coxim. Sua trajetória profissional foi construída principalmente na cultura e na educação.
É licenciada em Artes e pós-graduada em Literatura, Cultura e Artes Cênicas. Atua como escritora, atriz, cineasta e produtora cultural.
Também preside o Fórum Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul (FESC).
Na literatura, publicou obras como "Índia do Rio", "Vila Pequena", "A Revolução de Catí Guató" e "Corixos dos Bichos". O último foi adquirido pelo Ministério da Educação para distribuição em escolas públicas.
No audiovisual, participou de trabalhos como atriz, roteirista, produtora e produtora executiva.
A candidatura, segundo ela, também busca representar municípios do interior.
"Eu sou uma candidata originária do interior, uma cidade, assim como várias outras cidades, são esquecidas e somente relembradas de 4 em 4 anos", alfinetou.
Gleycielli afirmou ainda que pretende construir a campanha com diferentes segmentos.
"A minha candidatura é uma candidatura plural, uma candidatura que é construída com várias vozes, para justamente fazer uma campanha digna aonde leve realmente a voz de nós, feito por nós".
ÚNICA ÍNDIGENA DE MS LEMBRADA EM PESQUISAS
A entrevista ocorre após Gleycielli ter sido a única candidata indígena lembrada espontaneamente em uma pesquisa de intenção de voto para deputada federal em Mato Grosso do Sul.
O levantamento da Ranking Comunicação e Pesquisas foi realizado entre 18 e 23 de julho, com 2 mil moradores de 30 municípios do Estado.
A pesquisa ouviu pessoas com 16 anos ou mais, tem intervalo de confiança de 95% e margem de erro de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos.
Para Gleycielli, a lembrança representou o alcance de uma trajetória construída antes da disputa eleitoral.
"Foi uma surpresa muito positiva. A gente acredita no trabalho que está sendo construído e na força dessa caminhada coletiva, mas ver meu nome lembrado espontaneamente mostrou que essa história começou a alcançar as pessoas. Para mim, significa que estamos levando muitas vozes para perto dos espaços onde as decisões são tomadas".
A candidata também afirmou que uma eventual eleição teria significado coletivo.
"Quando uma pessoa indígena chega, ela não chega sozinha. Chegam junto o nosso povo, a nossa comunidade, a nossa cidade e os povos originários do Pantanal. Ninguém faz essa caminhada sozinho. Ela é construída por muitas mãos, e isso traz uma responsabilidade muito grande", completou.