A atriz Nilcedes Soares de Magalhães, conhecida como Glória Menezes, faleceu aos 91 anos, nesta 3ª feira (18.ago.26).
Ontem (17.ago), havia falecido a atriz da mesma geração, Laura Cardoso, como destacamos aqui.
Por seu trabalho, Glória Menezes acumulou a conquista de um Prêmio APCA, três Troféus Imprensa e três Prêmios Qualidade Brasil. Ela recebeu homenagens com o Troféu Oscarito do Festival de Gramado e o festejado Troféu Mário Lago por sua trajetória artística.
Glória fez Escola de Arte Dramática, na Universidade de São Paulo, onde criou realizou suas primeiras peças de teatro.
O primeiro trabalho profissional de Glória Menezes ocorreu em 1959, sendo a Devoção à Cruz, ao lado de Juca de Oliveira, esse falecido em 21 de março deste ano.
A atuação lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz Revelação em um festival de teatro amador promovido por Antunes Filho.
A carreira avançou rapidamente. Ainda em 1959, Glória estreou na televisão como Eloá na novela Um Lugar ao Sol, da TV Tupi, dirigida por Dionísio Azevedo.
No ano seguinte, voltou ao teatro com As Feiticeiras de Salém, adaptação de As Bruxas de Salem. Ela interpretou Abigail Williams, personagem responsável pela acusação que levou pessoas inocentes à prisão sob suspeita de bruxaria.
O trabalho lhe rendeu o Prêmio APCA de Atriz Revelação no Teatro. Foi também nos bastidores da peça que Glória conheceu Tarcísio Meira.
Os dois se casariam pouco depois e formariam uma das duplas mais conhecidas da televisão brasileira.
Enquanto avançava no teatro, Glória também acumulava trabalhos na televisão. Participou de Há Sempre o Amanhã e, entre 1960 e 1962, esteve no TV de Vanguarda, interpretando diferentes personagens em histórias apresentadas pelo teleteatro.
Ao assistir a atriz no teatro, o cineasta Anselmo Duarte se interessou por seu trabalho e a convidou para O Pagador de Promessas, rodado em 1960.
Glória havia sido escalada inicialmente para interpretar Marli, uma prostituta. A personagem, porém, acabou nas mãos de Norma Bengell depois que Maria Helena Dias, que faria Rosa, contraiu pneumonia.
Com a mudança, Glória assumiu Rosa, mulher de Zé do Burro, personagem de Leonardo Villar.
O filme acompanhava a tentativa de Zé do Burro de cumprir uma promessa feita em um terreiro de Candomblé. Para isso, ele carregava uma pesada cruz de madeira por um longo percurso.
Rosa permanece ao lado do marido durante a jornada, inclusive quando ele passa a ser pressionado pela Igreja e por parte da população.
O Pagador de Promessas estreou no Festival de Cannes, em 1962, e conquistou a Palma de Ouro. Depois, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
A estreia de Glória no cinema, portanto, já aconteceu em uma produção que ganhou repercussão internacional.
Pelo trabalho, ela recebeu prêmios de Melhor Atriz, incluindo uma premiação no Festival de Cinema de Curitiba.
A rapidez com que tudo aconteceu surpreendeu a própria atriz. Em depoimento ao Memória Globo, ela resumiu aquele começo:
“As coisas vieram assim para mim de uma maneira que eu fico pensando: ‘Meu Deus, se acontecesse hoje, com a experiência que eu tenho, seria um horror’. Mas você vai de cabeça nas coisas quando está começando”.
GLÓRIA E TARCÍSIO
Glória Menezes e Tarcísio Meira se casaram em 1962.
A união durou quase seis décadas e se tornou uma das mais conhecidas da história da televisão brasileira.
Os dois tiveram um filho, Tarcísio Filho, que também seguiu carreira como ator.
Glória ainda tinha dois filhos de um casamento anterior, João Paulo e Maria Amélia.
O casal permaneceu ligado à Globo por décadas. Os contratos dos dois com a emissora foram encerrados em setembro de 2020, após 52 anos.
Depois da aposentadoria, Glória e Tarcísio passaram a viver em uma fazenda em Porto Feliz, no interior de São Paulo.
Durante a pandemia, os dois permaneceram na propriedade.
Em 2021, foram internados após serem diagnosticados com Covid-19. Tarcísio morreu em agosto daquele ano, em decorrência de complicações da doença.
Glória recebeu alta dias depois.
A partir dali, passou a viver de maneira ainda mais reservada, longe da rotina pública que marcou mais de seis décadas de sua carreira.
CASAL FENÔMENO
Em 1963, Glória foi contratada pela TV Excelsior para protagonizar 2-5499 Ocupado, ao lado de Tarcísio Meira.
A novela marcou o início de uma parceria que se repetiria inúmeras vezes na televisão.
A produção também entrou para a história por ser considerada a primeira novela diária da TV brasileira, estabelecendo uma estrutura que se tornaria padrão na teledramaturgia, com capítulos exibidos diariamente e ganchos no final de cada episódio.
Glória interpretava Emily, uma detenta que trabalhava como telefonista em um presídio. Em uma ligação por engano, ela conhece Larry, personagem de Tarcísio.
Os dois se apaixonam pela voz um do outro, sem que ele soubesse inicialmente que Emily estava presa.
Depois vieram outras novelas na Excelsior, entre elas Uma Sombra em Minha Vida e Pedra Redonda, 39.
Esta última foi gravada no Rio Grande do Sul e marcou a primeira experiência de Tarcísio Meira como diretor. O casal chegou a se mudar para Porto Alegre durante a produção.
A novela, porém, não funcionou. Prevista para 30 capítulos, acabou interrompida no décimo.
A dupla voltou ao sucesso com A Deusa Vencida, em 1965.
Glória interpretou Cecília, jovem prometida a um homem que poderia salvar financeiramente sua família, mas apaixonada por Edmundo, personagem de Tarcísio.
Na sequência, vieram Almas de Pedra, As Minas de Prata e O Grande Segredo.
Em O Grande Segredo, Glória esteve entre as cinco protagonistas da trama e interpretou Marta, mulher que vivia uma vida dupla ao assumir a identidade de uma mulher morta.
IDA PARA A TV GLOBO
No fim de 1967, Glória e Tarcísio foram contratados pela TV Globo.
A estreia dos dois na emissora aconteceu em Sangue e Areia, novela de Janete Clair baseada no romance de Vicente Blasco Ibáñez.
Glória interpretou Doña Sol de Alcântara, uma mulher misteriosa que se apaixona pelo toureiro Juan Galhardo, vivido por Tarcísio.
A novela ficou marcada pelo melodrama. Em determinado momento, a personagem de Glória chegou a arrancar os próprios olhos como prova de amor.
Depois, a atriz protagonizou Passo dos Ventos, novamente de Janete Clair, desta vez ao lado de Carlos Alberto.
A Globo chegou a testar uma estratégia diferente naquele período. Passo dos Ventos e A Gata de Vison estrearam no mesmo dia, colocando Glória e Carlos Alberto como casal principal de uma trama e Tarcísio e Yoná Magalhães em outra.
O público, porém, não reagiu bem à troca dos pares.
Glória e Tarcísio voltaram a atuar juntos em Rosa Rebelde, em 1969.
O reencontro ganhou força no ano seguinte com Irmãos Coragem.
IRMÃOS CORAGEM
Em 1970, Glória viveu Lara em Irmãos Coragem, personagem que apresentava diferentes personalidades.
Lara era tímida, culta e introspectiva. Ao longo da história, assumia também as identidades de Diana, uma mulher vulgar e indomável, e Márcia, mais equilibrada.
A personagem se apaixonava por João Coragem, interpretado por Tarcísio Meira.
O sucesso foi tão grande que a Globo repetiu a equipe em O Homem que Deve Morrer.
Glória voltou a contracenar com o marido em O Semideus, de 1973, e em Cavalo de Aço, também de 1973.
Em Cavalo de Aço, a novela discutia a reforma agrária e acabou enfrentando problemas com a Censura Federal.
Em 1975, Glória protagonizou O Grito, de Jorge Andrade.
Foi um dos trabalhos em que ela passou a atuar sem Tarcísio depois de anos formando casais românticos na televisão.
A atriz interpretou Marta, uma ex-freira que vivia em um prédio de São Paulo com um filho com deficiência intelectual. Os gritos da criança durante a noite incomodavam os vizinhos e provocavam conflitos entre os moradores.
A novela não foi bem compreendida pelo público na época.
Mesmo assim, Glória considerava o trabalho um dos marcos de sua carreira.
Em 1977, ela e Tarcísio voltaram a dividir a tela em Espelho Mágico.
A novela brincava com a própria televisão ao apresentar uma novela dentro da novela. Os dois interpretavam atores famosos que protagonizavam a fictícia Coquetel do Amor.
O público, entretanto, se interessou mais pelo romance da trama interna do que pela história dos atores e dos bastidores.
Dois anos depois, Glória viveu Ana Preta em Pai Herói.
A personagem era uma mulher batalhadora, temperamental e sem papas na língua. O papel foi apontado pela crítica como um dos melhores da carreira da atriz.
Sobre a personagem, Glória relembrou:
“Ela era divertida, arrumava a casa e, quando chegava à noite, se botava toda bonita e ia dançar. As mulheres colocavam flor no cabelo, a roupa da Ana Preta, tudo da Ana Preta. Foi um sucesso muito grande! Ela era mãe solteira, aquela mulher bem moderna, dona da sua vida”.
COMÉDIA, VILANIA E NOVOS DESAFIOS
Na década de 1980, Glória ampliou ainda mais os tipos de personagem que interpretava.
Em Jogo da Vida, de 1981, ela explorou pela primeira vez com maior destaque seu lado cômico.
Dois anos depois, em Guerra dos Sexos, voltou à comédia ao lado de Tarcísio Meira. Pela primeira vez, os dois não formavam um casal romântico, mas personagens que começavam a história como rivais.
Em 1984, Glória voltou ao horário nobre com Corpo a Corpo, de Gilberto Braga.
Ela interpretou Tereza, uma enfermeira de origem humilde que se envolve com uma família rica e esconde segredos do passado.
A atuação foi considerada um dos destaques da produção.
Em 1987, Glória dividiu o protagonismo de Brega & Chique com Marília Pêra.
A trama contava a história de duas mulheres casadas com o mesmo homem, sem saber da existência uma da outra.
Quando o marido simula a própria morte, as duas acabam em situações completamente diferentes. Uma perde a fortuna e a outra herda um milhão de dólares.
A atuação de Glória como Rosemere foi elogiada pela crítica.
No ano seguinte, ela voltou a trabalhar com Tarcísio em Tarcísio & Glória, série criada por Daniel Filho, Euclydes Marinho e Antônio Calmon.
Além de atuar, o casal também participou da produção do programa, que inaugurou uma linha de coprodução entre a produtora dos atores e a Globo.
1ª GRANDE VILÃ
A década de 1990 começou com uma mudança importante na carreira de Glória.
Em Rainha da Sucata, ela interpretou Laurinha Figueiroa, sua primeira grande vilã.
Socialite esnobe e arrogante, Laurinha era casada com Betinho, personagem de Paulo Gracindo, mas mantinha uma paixão proibida pelo enteado Edu, vivido por Tony Ramos.
A personagem se tornou uma das mais lembradas da novela.
Em 1992, Glória interpretou Baby Bueno em Deus nos Acuda e recebeu o Troféu Imprensa de Melhor Atriz.
Três anos depois, esteve em A Próxima Vítima como Júlia Braga.
A personagem acabou envolvida no principal mistério da novela e foi assassinada depois que seu carro foi cercado por um Opala preto.
Em 1996, Glória participou de Vira-Lata, vivendo Stella.
A novela teve problemas nos bastidores e a atriz pediu para deixar a produção antes do fim.
Em 1998, voltou a formar par com Tarcísio Meira em Torre de Babel.
Os dois interpretaram César e Marta Toledo, um casal rico em crise no casamento.
DE VOLTA AO TEATRO
A partir dos anos 2000, Glória passou a dividir novamente sua carreira entre televisão e teatro.
Em 2000, voltou aos palcos com Jornada de um Poema.
Ela interpretou uma professora que descobre ter câncer e passa a enfrentar o tratamento médico enquanto a peça discute sua relação com a própria vida.
O trabalho rendeu à atriz uma indicação ao Prêmio Shell de Melhor Atriz e o Prêmio Qualidade Brasil de Melhor Atriz Teatral Drama.
Na televisão, fez uma participação em Porto dos Milagres.
Em 2002, voltou às novelas com O Beijo do Vampiro.
Na trama, interpretou Zoroasta, uma senhora excêntrica fascinada por esoterismo e alquimia.
Dois anos depois, participou de Um Só Coração.
Também em 2004, esteve em Da Cor do Pecado e em Senhora do Destino, onde interpretou a Baronesa de Bonsucesso.
Sobre o papel, Glória disse:
“Tenho um carinho muito grande por esse personagem. Talvez seja o menor personagem que eu tenha feito na televisão, mas de uma repercussão imensa, imensa! Porque não foi a quantidade, foi a qualidade”.
Em 2006, participou de Páginas da Vida e voltou ao cinema em Se Eu Fosse Você.
No mesmo ano, retornou aos palcos em Ricardo III, dirigido por Jô Soares.
A atuação como Duquesa de York lhe rendeu outro Prêmio Qualidade Brasil de Melhor Atriz Teatral Drama.
Em 2008, viveu outro grande momento no teatro com Ensina-me a Viver.
Ao lado de Arlindo Lopes, interpretou Maude, uma mulher de 80 anos apaixonada pela vida que transforma a visão de mundo de um jovem obcecado pela morte.
Pelo trabalho, recebeu novamente o Prêmio Qualidade Brasil e o Prêmio Contigo! de Melhor Atriz de Teatro.
Na televisão, também se destacou em A Favorita.
Glória interpretou Irene, uma mulher rica marcada pela morte do filho e convencida de que Flora, vivida por Patrícia Pillar, não havia cometido o crime.
O papel cresceu ao longo da novela e acabou ganhando muito mais espaço do que o inicialmente previsto.
A própria atriz lembrou que o autor João Emanuel Carneiro a colocou “em praticamente todas as cenas”.
ÚLTIMOS TRABALHOS
Depois de A Favorita, Glória reduziu o ritmo na televisão.
Em 2012, entrou no elenco principal de Louco por Elas, como Violeta, avó do protagonista vivido por Eduardo Moscovis.
A série teve três temporadas e terminou em 2013.
Em 2014, Glória fez uma participação especial em Joia Rara, aparecendo no último capítulo como Pérola Hauser na fase adulta.
No ano seguinte, voltou ao teatro com Ensina-me a Viver, retomando a personagem Maude.
Em 2015, veio sua última novela.
Em Totalmente Demais, Glória interpretou Stelinha, mãe do personagem de Fábio Assunção.
Depois da produção, a atriz deixou os trabalhos regulares como atriz e passou a aparecer cada vez menos em público.
Sua última participação em um programa de televisão aconteceu em 2018, no humorístico Tá no Ar: a TV na TV, interpretando a si mesma.
Em 2025, recebeu uma homenagem na segunda temporada da série Tributo, do Globoplay, para a qual gravou depoimentos sobre sua vida e sua carreira.