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'CADEIRACINE?'

'Sem carros': UFMS desfigura Autocine após abocanhar R$ 6,8 milhões de Lula

Reitoria prega construção coletiva, mas decide sozinha

Por TERO QUEIROZ • 10/06/2026 • 20:13
Imagem principal (10.jun.26) - Reitora proíbe carros no 'autocine' de Campo Grande. Foto: Tero Queiroz

Após receber a bagatela de R$ 6,8 milhões do governo federal, para montar, em grande parte, uma estrutura semelhante a contêineres, a reitora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Camila Ítavo, anunciou nesta 4ª feira (10.jun.26), que o Centro de Convivência e Empreendedorismo Estudantil (Autocine), do Campus Campo Grande, não poderá receber carros.  

O valor investido na obra é 15,97% maior do que o solicitado no plano de trabalho original da empresa Souza dos Santos Construtora Ltda. (CNPJ 44.445.224/0001-82), submetido em 2023. Isso significa que a obra teve um aditivo de R$ 936,4 mil em relação ao custo inicial que levou a Souza dos Santos a ganhar a licitação.

Antes dedicado exclusivamente à sétima arte, o terreno do Autocine, que era de de 12,6 mil m², teve uma área de 2,1 mil m² ocupada por dois pavimentos que lembram contêineres que foi chamado de arquitetura modular em um comunicado da UFMS. 

(10.jun.26)  Tornar o terreno plano e construir a edificação do Autocine da UFMS custou R$ 6,8 milhões. Foto: Tero Queiroz(10.jun.26) – Tornar o terreno plano e construir a edificação do Autocine da UFMS custou R$ 6,8 milhões. Foto: Tero Queiroz

A cozinha experimental, espaço de escritórios, salas para coworking, refeitório, livraria, lojas, ambientes para eventos com palco, camarim e bilheteria — não visitamos todos esses espaços citados — está tudo nos contêineres.  

A reportagem do TeatrineTV [TTV] esteve no local, e quando Ítavo mostrava um dos banheiros dispostos na entrada da Livraria UFMS, a porta emperrou. Isso porque, o piso tátil desnivelado travou a abertura completa da porta, apesar do pavimento ser dito “novo”. 

(10.jun.26) - Porta do banheiro do edifício 'novo' do Autocine emperrou durante demonstração da reitora Camila Ítavo ao ministro da Educação, Leonardo Barchini. A porta foi travada devido à instalação incorreta do piso tátil. Foto: Tero Queiroz.(10.jun.26) - Porta do banheiro do edifício 'novo' do Autocine emperrou durante demonstração da reitora Camila Ítavo ao ministro da Educação, Leonardo Barchini. A porta foi travada devido à instalação incorreta do piso tátil. Foto: Tero Queiroz.

Durante declaração à imprensa hegemônica, Ítavo alegou que a “retirada dos carros” seria medida de “inclusão”. Para a reitora, a medida permitirá às pessoas irem ao local assistir em suas cadeiras. 

No mesmo comunicado, a reitoria disse que lançaria um edital para reinaugurar coletivamente o local. 

A IDEIA DAS CADEIRAS

(10.jun.26) - Até mesmo a senadora Soraya Thronicke questionou a ideia de permitir apenas cadeiras no local. Ainda durante a visita, a senadora indagou um aliado de Ítavo que desconversou. Foto: Tero Queiroz(10.jun.26) - Até mesmo a senadora Soraya Thronicke questionou a ideia de permitir apenas cadeiras no local. Ainda durante a visita, a senadora indagou um aliado de Ítavo que desconversou. Foto: Tero Queiroz

Criado em 1972, o Autocine de Campo Grande funcionou até 1989 e se consolidou como uma das principais opções de lazer da Capital. 

Durante a pandemia da Covid-19, o local voltou a receber sessões temporárias no formato drive-in.

Autocine do Morenão, como era conhecido o espaço de exibição nas décadas de 70 e 80. Foto: ArquivoO Autocine do Morenão, como era conhecido o espaço de exibição nas décadas de 1970 e 1980. Foto: Arquivo

Ao TTV, o operador cinematográfico Adão Matias, de 70 anos, que trabalhou no Autocine em 1988, por um mês, cobrindo as férias de um colega, deu detalhes de como o local funcionava. 

“Antes de trabalhar em cinemas eu ia assistir filmes lá. Ficava fora do alambrado, só vendo imagens e lendo as legendas, não tinha som. Depois colocaram guardas para não deixar mais as pessoas assistirem. O sistema de som eram duas caixinhas que ficavam em um "totem" que as pessoas colocavam dentro do carro. Os carros ficavam um de cada lado do totem era uma caixinha para cada carro”, narrou. 

(10.jun.26)  O telão do Autocine de Campo Grande. Reitora não mencionou campo de projetor de cinema. Foto: Tero Queiroz(10.jun.26) – O telão do Autocine de Campo Grande. Reitora da UFMS não mencionou a compra do projetor de cinema. Foto: Tero Queiroz

Apesar de Ítavo anunciar a permissão de cadeiras como inclusiva no Autocine, Adão explicou que o uso de cadeiras já era permitido quando trabalhava no local. 

“A cabine de projeção ficava no meio do pátio atrás da cabine, bem recuado, ficavam as cadeiras pra quem ia assistir sem ir de carro, iam de ônibus ou a pé”, revelou.  

Apesar de estar no Campus da UFMS, nas décas de 70 e 80 o Autocine era privatizado à Rede Pedutti, que escolhia os filmes e contratava os funcionários. Foto: ArquivoApesar de estar localizado no Campus da UFMS, nas décadas de 1970 e 1980 o Autocine era administrado pela Rede Pedutti, responsável pela escolha dos filmes e contratação dos funcionários. Foto: Arquivo.

A cineasta Ana Loureiro, de 58 anos, esteve muitas vezes no local com a família.  

“Tinha um filme que vi algumas vezes lá. Eu não me lembro do nome. Era um filme sobre gatinhos que eram bailarinos. Me parece que eram bailarinos de verdade, profissionais. Agora que você falou do Autocine me lembrei que vi lá e ele”, disse Ana de maneira nostálgica. Provavelmente, o filme ao qual ela está se referindo é ‘Gatos não Sabem Dançar’, o clássico musical infantil dirigido pelo cineasta e animador norte-americano Mark Dindal.

Questionada se as pessoas iam ao local sem os automóveis, Ana disse: 

“Eu era criança, me lembro de apenas carros. Teve uma época que tinha serviço de lanchonete.Nós éramos frequentadores assíduos. Não me lembro desse lance de cadeira, até porque a gente gostava do conforto de ficar no carro, com cobertas”, apontou.  

A massoterapeuta corumbaense Vera Hassan, de 62 anos, fazia faculdade em Campo Grande nos anos 80, quando frequentou o Autocine da UFMS. 

“Eu me lembro que esse Autocine ficava ali perto do estádio Morenão. Era um lugar bem amplo, bem legal, e tinha bastante carro”, destacou. 

Também questionamos ela sobre a incidência de pessoas à pé no local. Hassan declarou:

“Não me lembro de pessoas a pé, mas me lembro de vários carros. Também não me recordo de cadeiras. Pelo menos na época em que fui, era tudo de carro”.  

A corumbaense revelou que um dos filmes que viu no Autocine que te marcou tenha sido estrelado pelo ator e cantor norte-americano John Travolta. 

“Sempre assisti muitos filmes no cinema e essa lembrança acabou ficando vaga. Mas me lembro de ter gostado muito de estar lá. A gente ficava dentro do carro, comendo pipoca, tomando refrigerante e assistindo ao filme. E havia muitos carros. Também me parece que algumas pessoas se sentavam no capô dos veículos”, reviveu.

Hassan citou as adidas ao Atocine como uma das melhores experiências da sua vida.  

“O que mais guardo na memória não são os filmes em si, mas as emoções vividas: a companhia de quem eu amava, a expectativa antes da sessão começar e a alegria de compartilhar momentos simples, mas muito especiais. Até hoje, lembrar do Autocine me traz uma sensação de saudade e gratidão por uma época tão bonita da minha vida”, acrescentou Hassan.  

A jornalista e diretora de teatro campo-grandense Lu Bigatão Rios, 66 anos, destacou a experiência de assistir a um filme dentro do carro como uma experiência inesquecível, não só pelo filme.

“Na minha época, tinha uma caixinha de som que ficava ao lado do carro. O duro era se concentrar no filme, porque, às vezes, pegava fogo dentro do carro. Conversas, paqueras, discussões sobre o filme. Era uma coisa maravilhosa. Tempos áureos. O carro era uma espécie de sofá, só que debaixo das estrelas”, poetizou.  

Autocine UFMS fez sessão de filmes depois de 30 anos, em 2020. Foto: Cyro Clemente/Ovo FilmesAutocine UFMS fez sessão de filmes depois de 30 anos, em 2020. Foto: Cyro Clemente/Ovo Filmes

A cineasta Ara Martins, que também é parte da coordenação do Colegiado de Audiovisual do estado, lembrou de como foi a exibição do Autocine em Julho de 2020, quando a UFMS realizou sessões de cinema no local ainda no formato original. 

“Eu estava em casa. Moro a cerca de 1 km do Autocine. Não é tão perto, mas, quando acontecem eventos na UFMS com som e shows, eu consigo escutar daqui. Naquele dia, achei estranho porque comecei a ouvir áudio de filme. Pensei: "Nossa, que estranho, né?". Aí pesquisei na internet e vi que estava acontecendo uma projeção no Autocine. Achei muito legal. Consegui encontrar a programação e, se não me engano, era uma animação sobre insetos. Peguei o carro e fui até lá. Estava lotado e as pessoas estavam sentadas em cadeiras”, detalhou. 

Ara pode ter integrado o público de mais de 130 famílias que compareceram em carros naquele julho de 2020 e viveram pela última vez a experiência do Autocine antes de ele ser desfigurado. 

“Lembro que eu não estava preparada, não sabia como iria funcionar. Fiquei do lado de fora da área de projeção, mas dava para assistir e ouvir perfeitamente”, anotou. 

A reportagem apurou que o Curso de Audiovisual da UFMS não foi convidado para a cerimônia do Autocine.

(10.jun.26)  Camila Ítavo defendeu a construção coletiva do novo Autocine, mas não convidou nem mesmo representantes do curso de Audiovisual da própria UFMS para a cerimônia de inauguração, em Campo Grande. Foto: Tero Queiroz(10.jun.26) – Camila Ítavo defendeu a construção coletiva do novo Autocine, mas não convidou nem mesmo representantes do curso de Audiovisual da própria UFMS para a cerimônia de inauguração, em Campo Grande. Foto: Tero Queiroz

Ainda assim, durante a cerimônia na manhã desta 4ª, a reitora anunciou um edital e defendeu uma suposta construção coletiva da ocupação do espaço.  

"Para essa questão de a gente se apropriar, porque é muito ruim chegar com um conceito fechado: "vai ser assim". Não é o que a gente está acostumado a fazer", argumentou Ítavo. 

A reitora defendeu que o espaço será diferentes de outros semelhantes existentes na Capital. 

"Hoje, em Campo Grande, tem o Centro de Gastronomia. Não é isso. Aqui é arte, é cultura, é ter o curso de Nutrição, Engenharia de Alimentos, produzindo coisas diferentes. É um outro conceito". 

A reportagem insistiu em entender o que a reitora estava querendo dizer com a afirmação de "abraçar a comunidade cultural". O repórter do TTV quis saber a qual comunidade Ítavo estava se referindo. 

"Dos artistas. Porque eu tenho aqui os setoriais, os estudantes estão aqui, mas também tenho muitos formados pela universidade que vão utilizar esse espaço para trabalhar sua arte. Tanto que vamos trazer para cá a Escola de Artes. A ideia é abrir uma galeria de arte universitária. Temos espaços para exposição", apontou. 

Então, o repórter questionou a reitora se ela chamaria para essa conversa o Colegiado de Audiovisual do Estado, que segundo Ara Martins, nunca foi acionado. A reitora, então, disse que acionará o colegiado e citou uma servidora de artes visuais que seria a ponte dela com a cultura campo-grandense. 

"Sim. Nós temos a nossa diretora, Rosana, que é artista visual e faz toda essa conexão com os entes do setor. É ela quem vai fazer essa articulação com a Fundação de Cultura e com todo esse ecossistema maravilhoso", completou, Ítavo. 

O operador Adão, destacou que em seus anos de decadência, o Autocine sofria com uso do local por casais que faziam sexo nos carros. Entretanto, ele opinou que proibir os carros não seria a solução ao problema que só se iniciou nos anos de abandono do cinema. 

“Eu acho que não tem a mesma graça [ser só para cadeiras]”, disse, sobre a proposta de Ítavo. 

A reportagem do TTV compreendeu que o novo Autocine, sem rampa de acesso de carros, permitirá, por escolha exclusivamente do projeto, que o ambiente se torne em mais um espaço sem destinação correta no Campus da UFMS campo-grandense.  

 


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