Logo Teatrine TV
ELEIÇÕES 2026

Candidata da direita, Viviane Luiza tem proposta e apoio da esquerda

Canidata recebeu pagamentos suspeitos da Segov; marido dela é do PSB

Por TERO QUEIROZ • 05/08/2026 • 06:05
Candidata da direita, Viviane Luiza tem proposta e apoio da esquerda Ex-Cidadania, Viviane Luíza, esposa de Maurício Bumlai, ligado ao PSB, lança candidatura tucana com pautas e apoio na esquerda. Foto: Reproduções

Na política, existe uma expressão conhecida nos bastidores que diz: "nada é o que aparentemente é".

É diferente do conhecido ditado popular "nem tudo que reluz é ouro", pois não há brilho na maioria dos personagens que ocupam cargos públicos.

Neste ano eleitoral, vão surgir muitas controvérsias devido a essa característica dos bastidores da política. Uma delas já pipocou e envolve a candidata a deputada federal pelo PSDB e ex-secretária de Estado de Cidadania, Viviane Luiza da Silva, que esteve na Secretaria de Estado de Turismo, Esporte, Cultura e Cidadania (Setesc), mas não defende pautas relacionadas à arte e à cultura, devido à ausência de influência sua no setor.

Viviane disputa as eleições de outubro por um partido de oposição ao governo do presidente Lula, mas com uma base de sustentação política e uma agenda temática construídas majoritariamente no campo da esquerda sul-mato-grossense.

Entenda, abaixo, como Viviane tem usado em sua campanha demandas que, historicamente, pertencem ao campo político da esquerda.

PAUTA INDÍGENA

Estudiosa do tema, Viviane Luíza tem prometido defender a causa indígena na Câmara Federal. Foto: Reprodução

A trajetória de Viviane Luiza começa longe da política partidária. Segundo a biografia divulgada pelo próprio Governo do Estado na sua posse, ela atua desde 2003 com povos indígenas do Brasil Central, com passagem pelo Museu Dom Bosco, em Campo Grande, primeiro na arqueologia, depois na etnografia, onde trabalhou como conservadora de etnologia.

Em 2013 concluiu mestrado em Desenvolvimento Local na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) com a dissertação "Herança de um Brasil Central: Aspectos do Patrimônio Indígena Brasileiro na Ótica dos Viajantes e Pesquisadores não-Brasileiros de Alexandre Rodrigues Ferreira a Claude Lévi-Strauss", trabalho que percorre a construção do olhar estrangeiro sobre o patrimônio indígena brasileiro até o antropólogo francês que fundou o estruturalismo.

Seguiu para o Departamento de Antropologia da University of Manitoba, no Canadá, onde seu perfil acadêmico na plataforma ResearchGate registra pesquisa em cultura material, antropologia da arte e antropologia visual, com foco em associações e cooperativas para promoção da independência econômica de indígenas. Consta ainda a assessoria à criação de associações de mulheres artistas Kadiwéu e Terena, e a idealização de centros culturais em comunidades indígenas.

ARTICULADOR É DO PSB DE LULA

Apesar de se lançar candidata na oposição, Viviane é esposa de Maurício Bumlai, herdeiro de José Carlos Bumlai, ligado ao presidente Lula. Foto: Reprodução | Redes sociais

O empresário Maurício Bumlai, marido de Viviane e tido como principal articulador da pré-campanha é filiado ao PSB, partido da base do governo do  presidente Lula, e foi convidado pessoalmente pelo deputado Vander Loubet (PT), presidente estadual do partido, para ser seu primeiro suplente na chapa ao Senado. 

Filho do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo pessoal de Lula, ele carrega um sobrenome que atravessa a história recente do PT, o empréstimo de R$ 12,17 milhões tomado no Banco Schahin em 2004, cujo destinatário final, segundo o próprio pecuarista, era o partido.

José Carlos foi condenado em 2016, teve a condenação confirmada pelo TRF4 e o processo anulado pelo STJ em 2021. Maurício foi réu no mesmo caso e absolvido por falta de provas. Na época, ficou famosa a foto do gabinete presidencial, no Palácio da Alvorada, citando que Bumlai tinha acesso livre ao presidente.

Em junho, Bumlai recusou a suplência na chapa de Vander e retirou o apoio ao petista. O motivo declarado foram os ataques de Zeca do PT, da deputada federal Camila Jara e da vereadora Luiza Ribeiro contra Viviane Luiza, e a incapacidade de Vander de contê-los. 

A reação do presidente estadual do PT foi defender a adversária. Em nota de 22 de junho, Vander declarou:

"Viviane tem trajetória própria e deve ser reconhecida por suas ideias, por sua atuação e por sua história, não a partir de relações da vida privada". 

E "emulou" um rompimento com Zeca e Camila Jara. Isso, porém, era somente movimento, sem real efetividade. Vander é sobrinho de Zeca e não "separaria politicamente" do tio. 

Nesse quadro de esquerdistas "pró-Viviane" ainda falta citar o apoio que ela detém do ministro dos Povos Indígenas, o sul-mato-grossense Eloy Terena, cuja proximidade com a candidata do PSDB virou objeto de ofício formal ao presidente da República.

SECRETÁRIA DE ESQUERDA OU DIREITA?

Como secretária, Viviane conquistou míseros 'ganhos' no governo anti-indígena de Eduardo Riedel. Foto: Reprodução | SecomMS

Criada em 2024 e apresentada pelo governo como a primeira do gênero no país, a Secretaria de Estado de Cidadania reúne oito frentes: povos indígenas, igualdade racial, juventude, assuntos comunitários, pessoa idosa, mulheres, população LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. Viviane Luiza foi subsecretária e assumiu como titular em janeiro de 2025.

Viviane fez uma gestão, na prática, com caráter progressista. Veja algumas ações 'propostas no mandato dela', mas que infelizmente só ficaram no papel:

  • Programa MS Sem Racismo, instituído pelo Decreto Estadual nº 16.602/2025, voltado ao enfrentamento do racismo estrutural e institucional, com menção expressa a povos indígenas, comunidades de terreiro e de matriz africana;
  • Plano Estadual de Metas Antirracistas, que ela definiu como "fruto de um trabalho coletivo que reconhece as lutas históricas";
  • CEC LGBTQIA+, centro de referência no Centro de Campo Grande;
  • Campanha "Eu, Mulher Preta", na 7ª edição em 2025, e a programação do Julho das Pretas;
  • MS em Ação, mutirão de serviços levado a aldeias de Caarapó e Paranhos, com mais de 43 mil atendimentos segundo a pasta;
  • Central Estadual de Libras Virtual, de acessibilidade comunicacional.

Em março deste ano, Viviane mediou em Campo Grande um evento de empreendedorismo feminino ao lado da empresária Luiza Trajano e de Cida Gonçalves, ex-ministra das Mulheres do governo Lula.

PAGAMENTOS SUSPEITOS

Com base em documentos oficiais e em publicações feitas pela própria Viviane, surgem dúvidas sobre o momento exato em que ela passou a integrar a estrutura do governo estadual.

O TeatrineTV localizou documentos que apontam possíveis inconsistências entre as datas de nomeação, os registros de pagamentos e as declarações públicas da servidora, o que levanta suspeitas sobre uma eventual situação de "funcionária fantasma" — jargão que define funcionários públicos que podem ter recebido salários de verba pública sem que tenham trabalhado presencialmente. 

No Diário Oficial, a reportagem localizou um extrato em que o então secretário Flávio César Mendes de Oliveira nomeia Viviane para um cargo na Segov em 15 de junho. Esse foi o primeiro vínculo dela com o governo estadual identificado pela reportagem. Eis:

Ao consultar o nome de Viviane no Portal da Transparência, os registros mostram que ela recebeu valores desde julho de 2022, ou seja. Eis:

Print da página do Portal da Transparência.

Em uma publicação em sua rede social, porém, a própria Viviane afirmou que retornou a Mato Grosso do Sul após cerca de 10 anos morando no exterior. Segundo ela, a volta ocorreu em 8 de dezembro de 2022. A declaração, no entanto, entra em conflito tanto com as informações do Portal da Transparência quanto com a data de sua nomeação publicada no Diário Oficial.

Outro dado curioso é que Viviane torrou diárias elevadas em julho de 2022, período em que, segundo ela mesma, ainda estava na América do Norte. Em uma suposta viagem de Campo Grande a Miranda (207 km de distância), Viviane gastou R$ 1.100,00 em diárias entre os dias 4 e 9 de julho de 2022. Depois, torrou mais R$ 1.650,00 entre 11 e 17 de julho para uma viagem da Capital de MS a Dourados.

As duas últimas notas são gastos de Viviane Luiza em agendas à frente de cargo na Segov. 

Parece que a incoerência é a estratégia de campanha de Viviane. Durante a pesquisa sobre sua candidatura, localizamos outra manifestação dela que é, no mínimo, imoral. A tucana afirmou ao Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul que é uma pessoa parda. No entanto, Viviane é branca. Eis a prova:

Viviane Luiza declara ao TRE ser "parda", apesar de ser branca.

'ZECA NÃO RODEOU TOCO'

Especialista em bastidor, deputado estadual Zeca do PT 'desmascarou' indígenas pró-Viviane em reunião, mas foi gravado ao defender o nome de Camila Jara à reeleição. Foto: Reprodução

Numa conversa gravada entre o ex-governador e o deputado estadual Zeca do PT com lideranças da Aldeia Lalima, em Miranda, o veterano engrossou o tom contra indígenas que estavam apoiando o nome de Viviane Luíza para deputada federal, ao invés de apoiarem a reeleição de Camila Jara.

Tanto é verdade que a referida aldeia está "fechada com o nome da tucana", que a gravação em que Zeca praticamente chama os indígenas de "trairas" foi feita escondida. Na ocasião, outras pessoas e o cacique João da Silva vazaram a gravação para a imprensa paga.

Na referida gravação, Zeca disse o seguinte:

"A informação que eu tenho, de fato, de vocês é que vocês receberam aqui a candidata bolsonarista para manifestar apoio para ela. Não sei qual a razão, não sei o que está por trás disso, apesar de imaginar que seja grana, tenho que ser sincero, olho no olho. E, quando aparece a grana, se esquece de quem ajudou, sem problema", disparou o ex-governador petista, que é conhecido por "ser sem rodeios".

Os indígenas insistiram que não fecharam nada com Viviane, mas que não podiam "fechar a porta para ela". Eles também apontam que supostamente não defendiam "A ou B". Como é sabido, essa narrativa não existe quando se trata de eleição.

"E é assim, felizmente, as coisas se pagam dessa forma. Não tem problema. Eu acho uma coisa que não se justifica. Você apoia Lula, apoia porra nenhuma, apoia Riedel, apoia Reinaldo. Lula não precisa desse apoio", disse Zeca.

A imprensa hegemônica de direita sul-mato-grossense "caiu matando" em Zeca, e ele foi alvo de ataques até por algumas personalidades de esquerda que não entendem ou simplesmente ignoram o fator "bastidor da política".

Mas cabe observar que, após ser eleita, Viviane não deve manter um mandato "progressista", isso devido à força que os acordos de legenda têm dentro de cada mandato. Ainda mais sendo ela "novata". A escolha da aldeia por Viviane é uma escolha um tanto arriscada e que desconsidera totalmente o fator "bastidor".

MATEMÁTICA DAS URNAS 

Viviane Luíza faz aposta arriscada de 'colher votos' na esquerda e direita sul-mato-grossense.

A capacidade de articulação entre legendas aliadas e adversárias pode ser um movimento decisivo para eleições sem testes nas urnas anteriores. Entretanto, esse movimento também pode surtir um efeito de insegurança no eleitorado.

Vamos à análise: ao votar em Viviane, a pessoa que é de direita estaria votando em um projeto que defenderia aquilo em que acredita? E a pessoa de esquerda que votar em Viviane estaria desconsiderando a força do ninho partidário?

Nessa matemática, ainda não entram os eleitores de centro.

O fato é que, após eleito, qualquer político com propostas muito "confusas" acaba adotando aquelas que melhor lhe convêm, e não necessariamente as que convêm ao eleitorado.


Siga no Google News

Veja Também

Nos apoie:
Chave PIX:

27.844.222/0001-47

QR Code para doação