A AfroRec, iniciativa criada em 2019 para formar e ampliar a entrada de profissionais negros, periféricos e indígenas no mercado audiovisual, passou a integrar, em maio de 2026, o Grupo Nexa Cine.
A mudança de posicionamento marcou a entrada da empresa no mercado B2B. O faturamento foi estimado em R$ 192 mil em 2025, com projeção de R$ 336 mil para 2026 e valuation de R$ 1,1 milhão.
A nova estrutura foi apresentada durante a Rio2C 2026, realizada até 31 de maio, no Rio de Janeiro (RJ).
A nova estrutura reúne, além da AfroRec, a Nexa Tech, a Nexa Eventos e a Nexa Studios, ampliando a atuação do grupo para áreas como tecnologia, pesquisa, dados, eventos, conteúdo e produção audiovisual.
Segundo Mill Müller, fundador da AfroRec e CEO do Grupo Nexa Cine, a integração representa uma mudança na estrutura de atuação da empresa, que passa a reunir formação profissional, tecnologia, pesquisa, eventos e produção audiovisual.
Como parte dessa nova estrutura, o grupo pretende criar uma plataforma digital para reunir profissionais do audiovisual, produtoras, empresas e marcas. A primeira versão prevê cadastro profissional, perfil técnico, portfólio, disponibilidade e networking. Outras ferramentas, como marketplace de serviços e relatórios de mercado, estão previstas para etapas posteriores.
Em entrevista ao TeatrineTV, Müller destacou que a AfroRec surgiu com foco na formação e inclusão de profissionais que enfrentam barreiras de entrada no audiovisual. Segundo ele, a criação do Grupo Nexa permitirá à empresa buscar relações comerciais com marcas e empresas.
Questionado sobre como preservar a autenticidade das narrativas negras, periféricas e indígenas diante das demandas do mercado, Müller argumentou:
“Temos certeza que autenticidade e mercado não são conceitos opostos. O grande desafio é construir relações onde as narrativas não sejam adaptadas para caber em expectativas externas, mas valorizadas justamente por sua originalidade", introduziu.
A relação entre produção cultural e mercado também aparece na estratégia comercial anunciada pelo grupo, que pretende aproximar profissionais do audiovisual de empresas, marcas e produtoras.
“O Grupo Nexa Cine entende que diversidade não é apenas uma pauta social, é também inteligência de mercado. O público busca cada vez mais identificação, pertencimento e experiências conectadas com vivências reais. Quando marcas compreendem isso, as relações se tornam mais equilibradas e os resultados mais relevantes para todos os envolvidos", afirmou.
Müller explicou que a empresa pretende utilizar a base de profissionais também para produzir informações sobre comportamento e intenção de uso. A Nexa Tech ficará responsável por essa frente.
OUTROS CAMINHOS
Levantamento apresentado pela empresa aponta que 41,8% dos profissionais pesquisados não tiveram oportunidade de cursar faculdade ou se profissionalizar por meio de cursos na área audiovisual.
A questão colocada a Müller foi sobre como a entrada desses profissionais pode interferir nas linguagens, nos temas e nas estéticas produzidas no país.
“Esse dado mostra que existe muito talento circulando fora dos caminhos tradicionais de formação. O audiovisual brasileiro sempre foi construído por pessoas de diferentes trajetórias, mas hoje existe mais visibilidade para profissionais que aprenderam através da prática, da internet, de coletivos, experiências comunitárias e iniciativas independentes".
A entrada desses profissionais, segundo Müller, também modifica os repertórios disponíveis para o setor.
“Isso amplia repertórios, referências e formas de olhar o mundo. Quando mais pessoas conseguem acessar o setor, surgem novas perspectivas sobre território, identidade, comportamento, consumo e relações humanas, enriquecendo a produção audiovisual brasileira como um todo", comentou.
Entre os demais dados apresentados pela empresa estão 21,6% de profissionais trabalhando em regime CLT e 18,4% como pessoa jurídica.
O levantamento também indica que 84,9% dos entrevistados utilizariam produtos e equipamentos aos quais tiveram contato durante as formações da AfroRec.
ACÚMULO DE FUNÇÕES
A pesquisa também identificou profissionais que atuam em diferentes funções dentro do audiovisual.
Questionado sobre o resultado que mais chamou sua atenção no levantamento, Müller disse:
“Foi justamente perceber o quanto o audiovisual brasileiro é impulsionado por profissionais que, muitas vezes, construíram suas trajetórias sem acesso a formações tradicionais ou caminhos formais de entrada no setor".
O levantamento também apontou a presença de profissionais que acumulam diferentes funções na cadeia audiovisual.
“Também observamos uma forte presença de profissionais atuando de forma multidisciplinar, acumulando funções e desenvolvendo carreiras híbridas. Isso revela um mercado extremamente criativo, adaptável e empreendedor, mas também evidencia desafios relacionados à profissionalização, empregabilidade e sustentabilidade das carreiras", avaliou.
A plataforma anunciada pela empresa terá, inicialmente, ferramentas para cadastro, apresentação de portfólio, identificação de habilidades técnicas, disponibilidade e networking.
Segundo Müller, em etapas futuras poderão ser acrescentados marketplace de serviços, relatórios de mercado, dados e trilhas profissionais.
PRODUÇÕES PARA ALÉM DO SUDESTE
No levantamento de 2025, 48,1% dos profissionais estavam no Sudeste e 25,1% no Nordeste.
A presença de profissionais de diferentes regiões foi outro tema da entrevista. Müller foi questionado sobre o que muda quando pessoas que vivem realidades diferentes das capitais do Sudeste passam a participar mais da produção audiovisual nacional.
“O potencial dessas regiões sempre existiu. O que mudou foi o aumento da visibilidade, do acesso às ferramentas de produção e das possibilidades de conexão com o mercado nacional".
A mudança, segundo ele, também interfere na própria construção das narrativas produzidas pelo setor.
“Quando profissionais de diferentes regiões participam da construção do audiovisual, ampliamos repertórios, perspectivas e formas de contar histórias. Isso não beneficia apenas a representação cultural, mas também a capacidade do setor de dialogar com um país que é extremamente diverso. O audiovisual brasileiro fica mais conectado com a realidade do próprio Brasil", declarou.
A empresa mantém o Nordeste entre as regiões que pretende atender com ações de formação e conexão profissional.
No caso do Centro-Oeste, a estratégia ainda está em fase de levantamento.
CENTRO-OESTE ESTÁ SENDO MAPEADO
Müller afirmou que a empresa iniciou uma pesquisa para conhecer o perfil dos profissionais da região, as formas de produção e o comportamento do mercado audiovisual local.
Para Müller, a região no coração da América do Sul é essencial para o avanço do cinema brasileiro.
“Enxergamos o Centro-Oeste com enorme potencial criativo e estratégico. Assim como aconteceu em outras regiões do país, acreditamos que ampliar visibilidade, acesso e conexão com o mercado será fundamental para fortalecer ainda mais a produção local".
Apesar da avaliação, a atuação da empresa na região ainda não passou da etapa de pesquisa.
“Estamos atualmente em fase de pesquisa e mapeamento da região para compreender melhor o perfil dos profissionais, as dinâmicas de produção e os comportamentos do mercado audiovisual local. A partir desses dados, poderemos desenvolver estratégias mais alinhadas às necessidades e potencialidades do território".
A possibilidade de expansão é tratada pelo grupo como parte de uma estratégia nacional.
“O Grupo Nexa Cine tem interesse em ampliar sua presença nacional e entende que o desenvolvimento do audiovisual brasileiro depende de uma visão que considere todas as regiões como parte ativa da construção do setor".
Até o momento, porém, a Nexa não tem uma sede ou operação específica no Centro-Oeste. O trabalho informado por
Müller está na etapa de pesquisa e mapeamento a distância.
DIVERSIDADE NO AUDIOVISUAL
A entrevista também abordou a presença de profissionais negros, indígenas e periféricos em funções criativas, técnicas e de decisão.
“Quando ampliamos a presença de profissionais diversos em funções criativas, técnicas e de decisão, ampliamos também as referências, os pontos de vista e as camadas que compõem uma narrativa audiovisual".
A avaliação de Müller envolve ainda a relação entre diversidade nos bastidores e posicionamento no mercado.
“O Grupo Nexa Cine entende o audiovisual como uma ferramenta de posicionamento, influência e geração de valor. Nosso objetivo é transformar comportamento e conexão em oportunidades de mercado. A diversidade nos bastidores amplia possibilidades de olhar".
Ele também fez uma ressalva sobre a relação entre identidade e autoria.
“Não significa que apenas determinadas pessoas possam contar determinadas histórias, mas que experiências diferentes ajudam a construir representações mais complexas, plurais e próximas da realidade".
A AfroRec continua responsável, dentro da nova estrutura, pelos programas de formação. A Nexa Tech concentra tecnologia e dados; a Nexa Eventos, eventos e ativações; e a Nexa Studios, conteúdo e produção audiovisual.
FORMAÇÃO E MERCADO NORDESTINO
A base da AfroRec possui presença significativa de profissionais do Nordeste. A empresa afirmou que pretende ampliar ações de capacitação, bolsas e conexões com oportunidades na região.
Müller explicou como a Nexa pretende trabalhar nesse mercado:
“O Grupo Nexa Cine possui uma base expressiva de profissionais no Nordeste e mantém como diretriz ampliar o acesso à formação e oportunidades nessas regiões".
Entre as ações citadas estão bolsas e programas de capacitação.
“Nosso trabalho contribui através de ações específicas designadas para a região, como bolsas de estudo, programas de capacitação, conexões com o mercado e geração de oportunidades profissionais".
A empresa também relaciona essas ações à tentativa de aproximar profissionais de outros agentes do setor.
“Acreditamos que o fortalecimento do audiovisual brasileiro passa também pela valorização dos talentos que já existem em diferentes territórios e pela criação de pontes que aproximem esses profissionais de empresas, produtoras e projetos".
A empresa também informou que 60% das vagas são destinadas a mulheres, pessoas trans, travestis e pessoas com deficiência. Outros 40% são reservados para profissionais das regiões Norte e Nordeste.
PROSPECÇÃO DE UMA DÉCADA
Por fim, o TeatrineTV questionou Müller acerca dos objetivos do Grupo Nexa Cine para a próxima década.
Conforme o CEO, a empresa pretende ampliar sua estrutura tecnológica, manter os programas de formação da AfroRec, expandir eventos e desenvolver novas soluções de conteúdo. Também estão nos planos novas operações na Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
“Nossa meta é consolidar o Grupo Nexa Cine como uma das principais plataformas de inteligência e conexão do audiovisual brasileiro. Queremos ampliar a estrutura tecnológica da Nexa Tech, fortalecer os programas de formação da AfroRec, expandir as experiências e ativações da Nexa Eventos e desenvolver novas soluções de mídia e conteúdo através da Nexa Estúdios".
A expansão territorial também aparece entre os planos apresentados pelo CEO.
“Também buscamos ampliar nossa atuação nacionalmente, com expansão de operações e sedes na Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de fortalecer nossos programas de bolsas de estudo e formação nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ampliando acesso, oportunidades e conexão com o mercado audiovisual brasileiro".
Para os próximos anos, Müller associa a expansão da estrutura à integração entre tecnologia, formação e negócios.
“Nos próximos anos, queremos contribuir para um audiovisual mais conectado, estratégico, tecnológico e acessível, integrando inteligência de mercado, formação e geração de negócios dentro do setor", concluiu.
A nova estrutura mantém a AfroRec na área de formação e incorpora outras frentes de atuação empresarial.
Para o Centro-Oeste, porém, ainda não há um modelo definido. Segundo Müller, a empresa está primeiro levantando informações sobre profissionais e sobre o funcionamento do mercado audiovisual da região.
A definição de possíveis ações deverá ocorrer a partir desse mapeamento.