'Não me resumo às minhas dores', diz SoulRa sobre novo lançamento 'Muito Love'. Fotos: João Pichinim
A rapper sul-mato-grossense SoulRa (Raíssa Sousa Carvalho) lançou na 2ª feira (15.jun.26) a música "Muito Love", produzido pela LP 067.
De acordo a artista, o single inaugura o projeto "Contrabandeando Fatos" e aposta no gangsta love, uma vertente que une a crueza e a vivência do gangsta rap ao romantismo.
A faixa propõe uma imersão criativa dividida em dois ambientes.
SoulRa lança 'Muito Love', um manifesto revolucionário sobre o afeto e o cuidado. Fotos: João PichinimOs refrões transportam o ouvinte para a sintonia de um programa de rádio fictício, a "SoulRa Love FM".
É nesse cenário de comunicação popular que toca a canção principal, anunciada como a mais pedida do dia, celebrando o ato de ser amada em voz alta.
Em tempos de pressa e liquidez nas relações, SoulRa dedica a obra a todas as mulheres negras e àqueles que ainda acreditam no poder transformador do amor.
A faixa propõe uma imersão criativa dividida em dois ambientes. Os refrões transportam o ouvinte para a sintonia de um programa de rádio fictício, a 'SoulRa Love FM'. Foto: João PichinimPara a artista, reivindicar esse lugar de cuidado vai muito além da estética; é um posicionamento profundo.
"Abordar o afeto pela perspectiva de uma mulher negra contemporânea, num cenário de abundância, autoestima e reciprocidade é revolucionário. Primeiro, porque amar e ser amado é um ato político. Segundo, porque contraria radicalmente as infelizes estatísticas que ainda nos colocam à margem do cuidado", introduziu a artista.
Ainda segundo SoulRa, a música propõe uma ótica alternativa ao discurso sobre dores ou buscas de direitos. A música pode ser conferida abaixo acompanhado de um visualizer:
Em entrevista exclusiva ao TeatrineTV, SoulRa detalha as inspirações do single "Muito Love".
Na conversa (abaixo), SoulRa declara que o afeto, a abundância e o cuidado para mulheres negras é um ato político de resistência que subverte narrativas historicamente limitadas à dor.
'Não me resumo às minhas dores', diz SoulRa Foto: João PichinimTTV: O que te inspirou a criar a rádio “SoulRa Love FM” no meio da faixa?
SoulRa: "Eu me inspirei nos programas de rádio que tinham na madrugada como o 'Clube da Insônia' onde tocava flashback e músicas românticas. Os ouvintes podiam mandar 'salve' para os amigos, suas quebradas, recados de amor ou se apresentarem como pretendentes. Era muito divertido e interativo", lembrou.
TTV: E como essa escolha reflete a comunicação popular e a vivência periférica na cultura sul-mato-grossense?
SoulRa: "A rádio faz parte da minha vida, especialmente na infância, eu ficava no ateliê de costura com minha mãe o dia todo e muitas madrugadas também, então consumia todos os gêneros ali e isso me fez musicalmente eclética. Eu tinha um MP3 que pegava rádio e também um microsystem em casa onde eu brincava de gravar meus próprios programas de rádio com as fitas antigas do meu pai", contou.
TTV: O que é "o rádio" para você?
SoulRa: "Vejo as rádios como um grande veículo de democratização da música e das informações, de fácil acesso para as pessoas e que entra diretamente em nossas casas. Por isso é importante que elas prezem pela diversidade".
TTV: A música foca muito no cuidado e no amor, saindo daquela pressão de que o corpo negro só pode cantar sobre suas dores. Isso simboliza uma virada no seu discurso artístico?
SoulRa: "Não vejo como uma virada porque eu sempre me propus a falar do cotidiano e das minhas vivências de forma transversal, com abordagens diversificadas assim como é a vida, desde o meu primeiro trabalho 'A flor da pele'. Eu entendi que não me resumo apenas as minhas dores e que preciso celebrar o que há de bom, que isso também me pertence e que ser feliz, apesar de tudo, é o maior ato de resistência que há. Faço por mim e pelas minhas ancestrais".
TTV: Qual o peso político de colocar o afeto no centro do rap em MS?
SoulRa: "O papel do cuidado é atribuído a nós mulheres desde sempre, enquanto que historicamente aos homens cabia o prover. Atualmente, a maioria de nós provê e cuida, e a pergunta que fica é 'quem cuida de quem cuida?'. Então ser amada, cuidada e mimada de forma recíproca e abundante, nos permitindo sonhar e projetar futuros num mundo que nos preparou apenas para sobreviver com desconfiança, é uma quebra gigantesca. É difícil para nós mesmas processarmos afetivamente esse lugar", avaliou.
TTV: E qual sua expectativa em relação a receptividade do mercado a 'Muito Love'?
SoulRa: "Sei que atualmente no RAP feito por mulheres a ideia de esculachar homens é mais abraçada e vendável. Eu acho divertido e necessário também essa abordagem. Mas na prática, continuamos nos relacionando e vendo os índices de violência crescerem, então estipular e falar sobre padrões de relacionamentos saudáveis e dignos é tão urgente quanto. Eu sigo a minha verdade e falo daquilo que acredito ser necessário e construtivo sem me preocupar necessariamente com as 'waves' do mercado e acho essa autenticidade um traço identitário muito forte do RAP sul-mato-grossense".
TTV: Sua caneta em "Muito Love" foca muito nos micro-afetos, transformando o básico da rotina, o café na cama, em linha de frente da música. Como é puxar o cotidiano pra dentro da sua lírica e de que forma essa intimidade espelha o corre e a vivência urbana aqui em Campo Grande e no estado?
SoulRa: "A minha poética é sempre sobre o cotidiano ou imaginários cotidianos que almejo para mim e para todos nós. Eu estou atenta aos detalhes daquilo que vivo e do que vejo as pessoas ao meu redor viverem. O que eu trago em 'Muito Love' são situações afetivas corriqueiras, que toda pessoa que já se relacionou, viveu: acordar com alguém especial; deixar um dia de trabalho ou compromissos de lado para ficar com quem gosta; receber um café da manhã… A ideia é gerar identificação, mas mais ainda, de causar um sentimento de valorização de momentos como esse", disse.
TTV: A faixa cruza gangsta rap, love song e estética de rádio. Como é trampar essa fusão de linguagens na cena do MS, batendo de frente com a visão que insiste em separar som em caixinhas de "regional" e "global"?
SoulRa: "Eu adoro fazer música para o mundo. Gosto, sim, de trazer identidade regional, mas sem monotonia. Precisamos romper a 'jacarelândia' que atribuíram a nossa arte. Nos empoderarmos enquanto cultura, especialmente sendo de um lugar tão à margem dos eixos culturais, é mais do que necessário. Mas somos parte do mundo e ninguém chama a música feita em São Paulo ou no Rio de música sudestina, apenas de música brasileira."
TTV: "Muito Love" puxa a fila do projeto "Contrabandeando Fatos". Sem dar muito spoiler do que vem por aí, o que exatamente você tá "contrabandeando" nessa fita? São novas narrativas, estéticas, afetos ou a própria forma de existir e fazer rap aqui no MS?
SoulRa: "Contrabandear é importar e exportar produto ilegal, certo? Então eu falo do RAP, uma arte de origem gringa e marginal que foi importada para o Brasil, e chegou até o Mato Grosso do Sul, lugar onde o contrabando faz parte do cotidiano real da fronteira e minha terra natal. Então é desse lugar que eu trago os fatos e faço o meu rap exportado para o restante do Brasil. Essa é a analogia", concluiu SoulRa.
A Letra: "Muito Love"
(rádio)
Alô ouvintes da rádio SoulRa Love!
Obrigada pela sua sintonia!
Continue com a gente!
Um admirador secreto mandou um beijo quente
para as ouvintes do jardim Miriam
E segue a programação:
(vinheta) SoulRa Love FM.
Acordou antes de mim
Me beijou dos pés à cabeça
Demonstrou estar muito afim
Ignorou que era uma terça
Se banhou e se escovou
do compromisso esquivou
desligou o celular
me deu "bom dia, amor".
Trouxe na minha cama café preto, torrada e coalhada
Frutas, suco, água numa tábua em madeira talhada
O meu riso falou por mim: muito obrigada!
Com brilho nos olhos e o coração mais mexido que os ovos
Como eu gosto disso de ser bem tratada, mimada, cuidada
Não porque eu preciso
Mas porque é gostoso e eu mereço.
E eu também faço questão
de ser a minha melhor versão.
Tão saborosa, saudosa e deliciosa sensação.
(rádio)
A mais pedida do nosso programa hoje
SOULRA LOVE
Vocês escolheram e eu vou tocar agora
MUITO, MUITO, MUITO LOVE
antes eu quero dar um salve para o Canaã 3, o Terra Roxa
SOULRA LOVE
Num oferecimento “Mina Zika Style”
LOVE
Vamos casar na capela
Jurar que jamais se larga
Cerimônia intimista
Lua de mel na Jamaica
Vamos por mais dez minutinhos pra despertar o alarme
Se o desejo já não discerne Se é a mente ou se é carne
Dar outra na onda da planta
Fazer almoço na janta
Planejar para ficar rico
ir nuns pico em meio ao mato
Talvez haja um hiato até eu ter meu iate
Mas por grana eu não me mato
Gato, eu vivo pela arte
De amar com qualidade
(rádio)
Esse foi nosso programa de hoje
SOULRA LOVE
Eu vou ficando por aqui
MUITO, MUITO, MUITO LOVE
Muito obrigada pela companhia de vocês
SOULRA LOVE
um beijão no coração
MUITO, MUITO LOVE
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Ficha Técnica Completa:
| Função | Profissional / Equipe |
| Letra, Intérprete e Direção Geral | SoulRa |
| Instrumental | LP 067 (@lp067_) |
| Mixagem e Masterização | Gutta (@8gutta) |
| Produção Executiva | Kion (@kion.iow) |
| Capa e Fotografias | João Pichinim (@joaopxnm) |
| Style | Rekt4da (@rktd4.co) e Mina Zika Style por SoulRa |
| Produção Artística e Assistência | SoulRa, Kion (@kion.iow), @ben1tes, @art.jmss, João Pichinim (@joaopxnm), @gabrielferreir4.s |
| Assessoria Musical | @nanacoloralmusic |
| Demais Colaboradores | @artezzrevel, @nicksleite, @marianepenzo, @dudarborges_, @puntoaureo, @pretabri_acessorios, @preta_bri, Bruno, @liscarolmilani, @ferdidecastro |
| Agradecimento Especial | @floriculturafloresesonhos |

















