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CURTA CAMPO GRANDE

Festival de cinema inventou regra de limite de votantes

Sessão com maior lotação de público da edição do festival, teve restrições por parte da organização

Por TERO QUEIROZ • 04/11/2026 • 17:13
Festival de cinema inventou regra de limite de votantes Dannon Lacerda, idealizador e diretor do Festival Internacional Curta Campo Grande, durante a sessão de 30 de outubro. Foto: Henrique Kawaminami

O Festival Internacional Curta Campo Grande, idealizado e dirigido por Dannon Lacerda, com produções de Bianca Machado e Carol Dória, teve sua 3ª edição realizada de 26 a 31 de outubro, em Campo Grande (MS).

Este jornalista que vos escreve estava concorrendo com seu primeiro filme profissional, o curta-metragem de ficção "Amoitado", e realizou uma campanha exaustiva para mobilizar um grande público para a estreia, na noite de 30 de outubro.

Quando o grande número de pessoas começou a ocupar a sala do Teatro do Mundo, este diretor foi informado pelos colaboradores do festival de que não haveria entrega de bilhetes de votação para todo o público.

"Acabaram os bilhetes. Temos um limite de 100", disse um jovem colaborador do festival na entrada da sala de exibição.

O curta-metragem 'Amoitado' foi dirigido por Tero Queiroz e Aly Freitas. Foto: Tero Queiroz

Naquele momento, pela educação que foi dada a este autor, deixei que a medida fosse "implementada" sem criar problemas, visto que o mais importante ali era atender ao grande público mobilizado para assistir ao filme.

Mas agora, passados quatro dias do fim do festival, trago à baila um questionamento, visto que, após consultar o documento do regulamento (a íntegra), que rege a 3ª edição do Festival Internacional Curta Campo Grande, não localizei qualquer regra que estabelecesse um número máximo de participantes, nem mesmo restrições para convidados nas mostras competitivas.

Pelo regulamento, o item 6.3 determinava que “o público presente às sessões irá votar no melhor curta nacional, melhor curta sul-mato-grossense e melhor curta internacional”.

A regra não citava um número máximo de votantes de qualquer concorrente e tampouco estabelecia critérios de credenciamento ou exclusão de participantes da votação.

Pelo referido regulamento, a organização poderia adotar procedimentos para distribuir cédulas e organizar a apuração, mas não havia no documento permissão para que fossem criados critérios que excluíssem parte do público autorizado pelo próprio regulamento.

O item 8.3 previa que situações não contempladas no documento seriam avaliadas pela organização, cuja decisão é considerada soberana. A disposição, entretanto, não autorizava automaticamente a alteração de uma regra expressa no item 6.3.

Além disso, este autor havia solicitado, mais de uma vez, aos responsáveis pelo festival que exibissem 'Amoitado' com legendas. No entanto, o pedido não foi atendido, impossibilitando que alguns convidados com baixa audição na plateia acompanhassem a sessão com acessibilidade.

Este artigo não pretende desqualificar as obras vencedoras da competição e não visa alterar o resultado, mas é meu dever buscar entender o motivo que levou a organização do Curta Campo Grande a adotar essas atitudes justamente na sessão do 'Amoitado'.

OUTRO LADO 

Dannon Lacerda, Bianca Machado, Carol Dória e Marjorie Rojas, equipe do Curta Campo Grande. Foto: Tero Queiroz

Mesmo no caso de um artigo de opinião, é justo que se traga aqui o posicionamento dos responsáveis pelo festival acerca da crítica deste comunicador.

Nesse sentido, o idealizador e diretor do Festival Internacional Curta Campo Grande, Dannon Lacerda, declarou que a “equipe do festival” ficaria a cargo do posicionamento.

A produtora Bianca Machado argumentou que iria buscar se informar sobre a referida sessão, já que não estava presente no dia.

Por fim, a também produtora, responsável pela parte de comunicação do festival, Carol Dória, disse:

"A limitação de 100 votantes foi estabelecida como referência operacional para a participação nas sessões competitivas, considerando também a capacidade do lugar e a quantidade de cadeiras disponíveis. No caso da exibição de 'Amoitado', houve uma procura superior a essa capacidade, o que ocasionou a ultrapassagem desse número", apontou.

Questionada se em todas as sessões a medida foi adotada, Carol revelou: "A única sessão que ultrapassou o limite foi a do 'Amoitado'. As outras todas, não", concluiu. 

NOTA DO ESPECTADOR 

O advogado especializado na área cultural Arthur Henrique, que acompanhou a sessão de "Amoitado", enviou uma nota técnica ao jornal, que reproduzimos abaixo na íntegra:

"Um edital, em si, nasce para estabelecer as regras pontuais que irão reger uma competição… e, considerando as informações prestadas, podemos apurar que a regra de “limitação a 100 votantes” não estava prevista no edital. Infelizmente, condutas assim mancham o processo de avaliação e geram dúvidas sobre os critérios adotados, sendo que o ideal é sempre termos a máxima transparência possível. O público na sessão mencionada não foi limitado a 100 votantes, o que se traduz em desrespeito até mesmo às opiniões de quem assistiu e não pôde votar. Perde a produção de “Amoitado”, perdem os telespectadores que compareceram e dedicaram seu tempo ao Festival. Para as próximas edições, recomendamos um edital melhor elaborado e com regras mais claras. 

De toda forma, ficam os parabéns à organização por não se esconder, bem como pela iniciativa — afinal, falamos de um Festival ainda em sua 3ª edição. Ainda há muito a ser feito pela cultura, especialmente no Estado em que estamos. Se há espaço para melhorias, se são possíveis, torçamos para que sejam feitas nas próximas edições".


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