Logo Teatrine TV
MATO GROSSO DO SUL

Riedel se cala sobre mortes e ameaças a indígenas

Liderança Guarani Kaiowá reúne denúncias de violência em ao menos sete municípios

Por TERO QUEIROZ • 30/10/2026 • 15:41
Riedel se cala sobre mortes e ameaças a indígenas Eduardo Riedel segue em silêncio sobre assassinato e ameaças a indígenas em MS por motivação eleitoral. Foto: Foto Saul Schramm

“Depois que terminou a eleição do segundo turno, na mesma noite já aconteceu [...] mataram um indígena”. O relato é de Ava Poty Jú, liderança indígena de Panambizinho, em Dourados (MS), que acompanha e reúne informações encaminhadas por comunidades Guarani Kaiowá de diferentes municípios do Estado.

Integrante da coordenação executiva da organização indígena Aty Guasu, Ava afirmou que os primeiros sinais de intimidação apareceram ainda durante a campanha eleitoral. As mensagens circulavam em grupos de WhatsApp, principalmente entre comunidades próximas à fronteira com o Paraguai.

“Já mandavam recado para algumas lideranças que moravam na fronteira. As pessoas achavam que era só uma brincadeira, um mal-entendido. Talvez não acontecesse isso”, lembrou.

A avaliação mudou depois do segundo turno, realizado no domingo (25.out.26).

Conforme Ava, os relatos de ameaças se multiplicaram, acompanhados de xingamentos, intimidações nas cidades e episódios de violência contra indígenas.

“Os áudios, principalmente quando o pessoal ia para a cidade, já tinha muito receio. Primeiro os xingamentos, que a maioria das comunidades indígenas passou”, afirmou.

As denúncias chegaram a lideranças de municípios como Amambai, Coronel Sapucaia, Tacuru, Paranhos, Naviraí e Douradina.

AMEAÇAS ANTES E DEPOIS DAS URNAS

Ava explicou ao TeatrineTV que as ameaças estavam relacionadas à possibilidade de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente reeleito, e à preferência eleitoral manifestada por comunidades indígenas.

“Já circulava nos grupos de WhatsApp que, se o Flávio não ganhasse, iam fazer alguma coisa. Depois que terminou o segundo turno, na mesma noite, já aconteceu”.

Nas seções eleitorais indígenas de Mato Grosso do Sul, Lula recebeu 89,1% dos votos válidos no segundo turno, com base nos boletins de urna. Foram 27.137 votos para o petista, contra 3.315 para Flávio. No conjunto do Estado, Flávio recebeu 59,6% dos votos válidos.

O resultado também se refletiu em municípios com presença de comunidades indígenas. Além de Tacuru, Lula venceu em Corumbá, Miranda, Dois Irmãos do Buriti, Paranhos, Japorã, Itaquiraí, Taquarussu, Vicentina e Selvíria.

Em Amambai, as seções indígenas deram 95% dos votos válidos a Lula no segundo turno. Em Coronel Sapucaia, o percentual chegou a 94%.

NAVIRAÍ: DENÚNCIA DE MORTE

Entre os primeiros relatos recebidos por Ava estava a informação de que um indígena teria sido assassinado em Naviraí por apoiar Lula.

“Em Naviraí que aconteceu. Mataram um indígena que era morador da cidade. As pessoas que conheciam ele falaram que mataram por causa da política mesmo, porque ele apoiava o governo do presidente Lula”, afirma.

A denúncia também foi apresentada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

Entretanto, a apuração do Ministério Público Federal (MPF) trouxe uma conclusão diferente. O órgão verificou que imagens divulgadas nas redes sociais haviam sido associadas falsamente a ataques contra indígenas.

As duas vítimas de um dos crimes registrados em Naviraí foram identificadas como Junho Alves Fernandes e Renan Willian de Souza Vieira. Segundo o MPF, nenhuma delas tinha histórico de pertencimento indígena.

O caso investigado foi uma tentativa de duplo homicídio decorrente de desentendimento familiar e interpessoal, sem motivação política ou étnica.

Portanto, a denúncia de assassinato de indígena por motivação eleitoral em Naviraí não foi confirmada.

CORONEL SAPUCAIA

Em Coronel Sapucaia, a vítima encontrada na rodovia MS-289 foi identificada pela Polícia Civil como Valdenildo da Silva, de 25 anos, morador da Aldeia Taquaperi.

Na manhã de sábado (24.out.26), uma van Fiat/Doblò da Secretaria Municipal de Saúde, que transportava pacientes para Ponta Porã, passou sobre o corpo de Valdenildo nas proximidades do antigo Centro de Tradições Gaúchas (CTG), no trecho entre Coronel Sapucaia e Amambai.

Depois do impacto, o veículo pegou fogo. O motorista e os passageiros conseguiram sair sem ferimentos.

O episódio ocorreu na véspera do segundo turno. Até o momento, não há comprovação de que o atropelamento tenha sido intencional ou motivado por questões eleitorais.

A identificação de Valdenildo permite dar nome à vítima mencionada nas denúncias recebidas por lideranças indígenas.

AMAMBAI

Ava também recebeu relatos de dois atropelamentos na região da Aldeia Limão Verde, em Amambai.

Segundo ele, duas mulheres que estavam em uma motocicleta sofreram ferimentos graves, incluindo fraturas, depois de serem atingidas por veículos.

“A aldeia Limão Verde fica no meio da rodovia. Quebraram o braço, algumas meninas que estavam na moto sofreram grave acidente. Machucaram tudo”, lamentou.

O indígena afirmou que as informações chegaram por meio de outras lideranças e moradores. Até o momento, não há divulgação pública detalhada dos nomes das vítimas, prontuários médicos, números de registros de ocorrência ou identificação dos motoristas envolvidos nos incidentes relatados no final de outubro.

TACURU

O prefeito tucano Rogério Torquetti.

Entre os episódios que mais preocuparam as comunidades está a circulação de áudios enviados por dois servidores da Prefeitura de Tacuru, chefiada pelo tucano-bolsonarista Rogério Torquetti.

As gravações foram feitas após a divulgação do resultado eleitoral.

Na conversa, os homens reclamavam da votação indígena e com ataques racistas.

Em um dos trechos, um deles sugere assassinatos usando a máquina públicada prefeitura.

“Já falei, tem que ponhar veneno na água. Matar essas pragas na água”, disse um indivíduo na gravação. 

Após a repercussão negativa dos áudios, Torquetti confirmou que os dois interlocutores são servidores municipais. Um deles trabalhava na coleta seletiva da Secretaria de Meio Ambiente e o outro atuava na Secretaria de Infraestrutura, conduzindo caminhão-caçamba.

A Prefeitura de Tacuru divulgou nota oficial na 5ª.feira (29.out.26), na qual confirmou a abertura de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e o afastamento cautelar dos servidores envolvidos.

A administração afirmou que as declarações foram atribuídas a funcionários públicos em conversas privadas, fora do horário de expediente, mas alegou que não tolera condutas incompatíveis com o decoro do serviço público.

A nota informa três providências: abertura de PAD, afastamento cautelar dos servidores até a conclusão das investigações e colaboração com o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal.

A prefeitura também sustentou seu suposto compromisso com a proteção dos direitos fundamentais e com o diálogo com as comunidades das aldeias Sassoró e Jaguapiré.

O comunicado, porém, não informava os nomes dos funcionários, não detalhou as responsabilidades individuais nem apresentou o número do suposto processo administrativo.

O MPF cobrou explicações da administração municipal sobre as gravações e as providências adotadas.

Vale destacar que Torquetti, que também preside o Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento da Região Sul de Mato Grosso do Sul (ConeSul), fez campanha aberta para Flávio, mobilizando sua própria bolha eleitoral.

Diante de tudo isso, o que é fato nas comunidades é que o risco de violência política não é mais abstrato no caso de comunidades que dependem do abastecimento por caminhões-pipa.

Prefeita Nair Brant fez campanha para Flávio e agora é tem deixando de entregar água à comunidade indígenas.

Ava afirmou que, em Douradina, onde ele vive e também depende do fornecimento municipal, a entrega de água sofreu alteração desde o resultado eleitoral para presidente.

“A prefeitura só trouxe uma vez água essa semana para nós, na quarta-feira. Geralmente a prefeitura entrega na terça e na quinta. Vamos ver na próxima semana como que vai ser”, denunciou.

A cidade de Douradina é comandada pela também prefeita bolsonarista Nair Branti (PSD), sigla liderada nacionalmente por Gilberto Kassab. O partido teve como candidato à Presidência o ex-governador Ronaldo Caiado, que ficou em 5º lugar na corrida, obtendo apenas 2.605.148 votos. Caiado, após a derrota, apoiou Flávio, também derrotado nas urnas e agora foragido do país.

A prefeita Nair Branti fez campanha para Flávio e agora tem deixado de entregar água à comunidade indígena.

Tentamos contato com a prefeita bolsonarista para saber se a medida é uma espécie de vingança eleitoral ou qual o real motivo de o caminhão-pipa não manter as entregas duas vezes nesta semana para Panambizinho. Até a publicação da reportagem, porém, não obtivemos resposta.

CASA DE REZA INCENDIADA

Incêndio criminoso em casa de reza em Tacuru queimou instrumentos sagrados. Fotos: Arquivo pessoal

Outro episódio de violência pós-eleição ocorreu na Aldeia Jaguapiré, também na Tacuru do tucano-bolsonarista Rogério Torquetti. Na manhã de 5ª.feira (29.out), a casa da rezadeira Ñandesy Roberta, de 90 anos, foi incendiada.

A residência abrigava instrumentos sagrados utilizados nos rituais tradicionais Kaiowá e Guarani. Os objetos também foram destruídos pelo fogo.

De acordo com uma denúncia divulgada pela Kuñangue Aty Guasu, assembleia das mulheres Guarani e Kaiowá, Roberta sofria racismo e intolerância religiosa por manter práticas espirituais tradicionais. A organização afirmou que a idosa já havia perdido outra residência em um incêndio.

“Segundo ela, já estava sofrendo ameaça por intolerância religiosa dentro da comunidade também. E, de repente, queimaram a casa dela”, disse Ava.

A Polícia Civil registrou a ocorrência como incêndio e encaminhou equipe de investigação e perícia ao local.

A autoria e a motivação do incêndio permanecem sob apuração.

COMÉRCIOS RACISTAS

Além das ameaças físicas, Ava revelou que indígenas passaram a enfrentar discriminação em estabelecimentos comerciais.

Segundo ele, lideranças receberam capturas de tela de mensagens atribuídas a comerciantes de Coronel Sapucaia, com declarações contrárias à entrada de indígenas nos estabelecimentos por causa da preferência eleitoral.

“Mandavam uns prints dos comerciantes dizendo que não queriam quem votou no PT e os indígenas entrarem para fazer compra”, contou.

O indígena afirmou que situações semelhantes ocorreram em Dourados, Paranhos e outras cidades, com xingamentos contra pessoas que saíam das aldeias para fazer compras.

Em Dourados, ele também relatou uma situação em que um idoso quase foi atropelado enquanto circulava pela cidade.

MAIS DE 30 DENÚNCIAS

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) disse ter contabilizado mais de 30 denúncias de violência contra indígenas em Mato Grosso do Sul no período eleitoral de 2026.

Os relatos incluem ameaças, agressões, atropelamentos, intimidações, tentativas de assassinato e até mesmo assassinatos consumados.

A entidade encaminhou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pedindo medidas urgentes para conter a violência na região e avançar na demarcação das terras indígenas.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) informou que acompanha ao menos cinco casos de assassinatos de indígenas na região desde sábado (24.out). A entidade também recebeu relatos de caminhonetes circulando pelos territórios e agressões para provocar medo nas comunidades e dificultar o exercício do voto.

O coordenador do Cimi em Mato Grosso do Sul, Matias Benno Rempel, ressaltou que a violência contra os Guarani Kaiowá não começou com as eleições.

Na 5ª.feira (29.out.26), o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, anunciou a criação de uma força-tarefa federal para receber e apurar denúncias de ataques, ameaças e intimidações contra comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul.

A iniciativa envolve órgãos federais responsáveis pela proteção dos povos indígenas e pela investigação das denúncias. O objetivo é organizar o recebimento das informações, encaminhar os casos às autoridades competentes e acompanhar as providências.

RIEDEL E A VIOLÊNCIA CONTRA INDÍGENAS

A violência contra os povos indígenas foi colocada diante do governador Eduardo Riedel (PP) durante debate eleitoral com o candidato indígena Daniel Lemes (PCO), que se referiu a Riedel como genocida dos povos originários de MS.

“O que eu queria era que você respondesse por que, hoje, Mato Grosso do Sul é o que mais mata indígenas através da sua Secretaria de Segurança Pública”, questionou Lemes.

O candidato do PCO ainda diferenciou violência do quadro vivido pelos indígenas sob a gestão Riedel.

“Eu não vi você comentar a violência em seu governo. […] Escreve o que eu tô falando: ele é assassino de indígena”.

Riedel respondeu mencionando aquisição de terras, habitação, abastecimento de água e infraestrutura nas aldeias — todas medidas realizadas pelo governo do presidente Lula —, mas ações com as quais o pepista pegou "carona".

O governador não respondeu à cobrança sobre a violência e a responsabilidade do governo na proteção dos povos originários.

E esse silêncio segue ecoando. Riedel não teceu uma palavra acerca da violência contra indígenas ocorrida no estado que governa.

Ava completou apontando que as lideranças continuam reunindo informações e encaminhando relatos recebidos de diferentes comunidades.

“Estamos atentos por aqui. Qualquer informação a gente possa compartilhar, qualquer denúncia também, porque é uma situação bem grave que aconteceu essa semana para cá aqui no ConeSul do Mato Grosso do Sul”, conclui.

Há muito tempo, este veículo de comunicação não consegue contato com o governador de Mato Grosso do Sul. Em todo caso, se a gestão quiser se manifestar sobre os crimes cometidos contra indígenas no Estado, em grande parte associados a relatos de racismo e divergências políticas, o espaço segue aberto para futuras inserções de posicionamentos.

PRECEDENTE DA VIOLÊNCIA

Uma liderança indígena de Dourados ouvida pelo TeatrineTV que terá o nome preservado, apontou que o acordo de indenização firmado pelo Governo Federal para a retirada de fazendeiros da Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, em Antônio João, abriu um precedente que pode estar relacionado ao aumento da violência contra os povos indígenas em Mato Grosso do Sul, para além da motivação eleitoral.

Em setembro de 2024, após um Policial Militar de Eduardo Riedel matar o indígena Neri Ramos da Silva, de 23 anos, durante um conflito na região, foi firmado um acordo para indenizar não a família de Neri, mas sim os grileiros que usavam a Terra Indígena como propriedade rural intitulada "Fazenda Barra". 

O valor chegou a aproximadamente R$ 145,8 milhões, com recursos da União e do Governo de Mato Grosso do Sul.

Para a liderança, o pagamento representou uma sinalização perigosa em meio a décadas de conflitos pela demarcação de terras indígenas.

“Essa ocasião abriu um precedente no Governo Federal, porque o fazendeiro foi indenizado e isso nunca tinha acontecido”, afirmou.

Na avaliação da fonte, a medida alimentou a percepção de que a violência seria capaz de acelerar uma solução para disputas fundiárias que permanecem sem resolução há anos.

“Os grileiros passaram a pensar assim: vamos matar indígena porque aí o governo federal vai resolver, que aí eles vão nos indenizar”, disse.

A liderança também questionou quem recebe os recursos públicos nesse processo. Para ela, os povos indígenas deveriam ser os destinatários da reparação, além da garantia da demarcação.

“Quem tem que ser indenizado são os povos indígenas. Para além da reparação, com o território demarcado, esse valor teria que estar sendo todo investido dentro do território”, afirmou.

A crítica se estendeu aos grileiros que se tornaram fazendeiros roubando terras indígenas em Mato Grosso do Sul. Segundo a liderança, não se trata apenas de pequenos produtores, mas de grandes proprietários que concentram diversas fazendas.

“A gente não está falando de pequenos ruralistas. A gente está falando de grandes ruralistas que têm mais de 20 fazendas”, concluiu.

 


Siga no Google News

Veja Também

Nos apoie:
Chave PIX:

27.844.222/0001-47

QR Code para doação