Uma newsletter criada em Campo Grande (MS) por um indígena Guarani alcançou 1 milhão de acessos por e-mail em seis meses. O resultado é do MS Poetar, projeto independente que ampliou sua atuação para além da divulgação de poesia.
À frente da iniciativa, Vinícius Guarani atribuiu o crescimento à mudança editorial e ao trabalho diário de produção e distribuição de conteúdo. Hoje, o projeto informou ter 25 mil assinantes e leitores em diferentes continentes.
"Um projeto feito paulatinamente, todos os dias, de maneira cotidiana, com luta, com sangue, com escrita, com pesquisa, com embasamento, com pesquisa fotográfica, com pesquisa acadêmica, até onde esteve ao meu alcance, foi feito por uma pessoa guaranítica", afirmou ele em entrevista ao TeatrineTV.
O número de 1 milhão, segundo Vinícius, corresponde exclusivamente aos acessos provenientes de e-mails.
"Eu sei quantos usuários ativos tivemos, quantos vieram por e-mail, quantos vieram pelo Google, quantos vieram pelo ChatGPT, quantos vieram pelo Gemini, quantos vieram pelo Claude, quantos vieram pelo Bing, por outros acessos e pelo WhatsApp. Eu sei quantos acessos tivemos em todas as frentes", detalhou.
MUDANÇA DE RUMO
O MS Poetar nasceu em 9 de setembro de 2024, depois de uma conversa com uma poetisa sul-mato-grossense que reclamava da dificuldade de fazer suas produções chegarem ao público.
Vinícius contou que a falta de circulação das poesias também expunha problemas da cena artística, como a ausência de políticas públicas, infraestrutura e articulação entre os próprios artistas.
A proposta inicial foi criar um espaço independente de divulgação. A adesão cresceu rapidamente, reunindo escritores de diferentes origens, gêneros e orientações políticas e sexuais.
"Durante esse período de um ano e meio, mais de 1.500 poesias foram compartilhadas no grupo. Todas estão salvas, e aquelas que passaram pelo crivo de análise textual e crítica foram para publicação", explicou.
Entre os colaboradores estão nomes como Emanuel Marinho, Raquel Naveira, André Alves e Silvia Cesco. O projeto também abriu espaço para autores de diferentes gerações, como Dona Delinda, correspondente em Mato Grosso, que, segundo Vinícius, tem mais de 90 anos e continua publicando.
Em 2026, o fundador decidiu ampliar a linha editorial. A proposta deixou de se restringir à poesia e passou a abordar também sociedade, cultura, literatura e política.
"Foi preciso mudar drasticamente a linha editorial do MS Poetar, porque não cabe a ele ser um canal de poesia sul-mato-grossense", comentou.
Para Vinícius, a produção cultural não pode ser separada das questões políticas, sociais, identitárias e territoriais que atravessam a vida dos povos.
"Não cabe ser apenas e somente isso quando temos pautas transversais que transbordam corpos e são atravessadas de diferentes maneiras: pautas políticas, existenciais, cosmológicas, identitárias e relacionadas à forma como vivemos e convivemos na pólis", opinou.
CONTEÚDO ALÉM DA LITERATURA
A ampliação editorial abriu espaço para novas frentes. Uma delas é a cobertura de humanidades digitais, com discussões sobre inteligência artificial, tecnologias e seus impactos na sociedade e na cultura.
A newsletter também mantém o Cultura Me, dedicado ao teatro, cinema, televisão, séries e produções audiovisuais. Outra frente é o Diverso, que aborda masculinidades, feminilidades, feminismo, direitos LGBT, racialidades, negritudes e diversidade.
A iniciativa também questiona a concentração da produção cultural e intelectual brasileira no eixo Rio-São Paulo.
"Transformamos uma newsletter feita em Campo Grande, no interior de Mato Grosso do Sul, por um indígena Guarani, em um dos maiores, senão o maior, canais de divulgação de conhecimentos e saberes fora do eixo Rio-São Paulo, em curto prazo", celebrou.
A própria escolha do nome carrega uma dimensão política. Vinícius disse que se apropriou da sigla MS, utilizada pelo Estado, para construir uma identidade ligada à produção poética de Mato Grosso do Sul.
"Sou eu, enquanto indígena, me apropriando de uma sigla estatal, utilizada pelo Governo de Mato Grosso do Sul em seus projetos sociais. E o indígena, pertencente a um povo que tem suas disputas referentes a territórios, pertencimentos e questões latifundiárias, se apropria desse MS".
A produção de conhecimento a partir dos territórios também orienta as pautas sobre povos indígenas. Entre as preocupações está o uso de línguas originárias no desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial.
"Quando temos modelos de inteligência artificial sendo treinados para aprender o Guarani, fica a questão: com qual finalidade? Para que queremos uma IA que fale Guarani, ainda mais com tantos erros?".
DESAFIO DA MANUTENÇÃO
O crescimento da audiência não resolveu um dos principais problemas da iniciativa: garantir recursos para manter a produção.
Vinícius afirmou que mais de 473 textos foram publicados nos últimos seis meses, com uma média diária de cinco a dez conteúdos. O trabalho envolve pesquisa, produção textual, levantamento acadêmico e pesquisa fotográfica.
"É um trabalho de Hércules. É um trabalho que não dá descanso, cotidiano, feito paulatinamente e de enfrentamento", definiu.
A dificuldade de financiamento também está relacionada ao modelo de acesso. Segundo o fundador, a maior parte dos 25 mil assinantes acompanha gratuitamente o conteúdo.
"Então, temos a problemática da arrecadação", observou.
Sem uma equipe para dividir as atividades, Vinícius concentra a produção e a gestão da iniciativa. Ele citou que tem buscado alternativas de financiamento e informou que o projeto concorre a dois fundos internacionais de jornalismo, um deles voltado à inteligência artificial.
"Mesmo tendo conseguido esse feito de 1 milhão de acessos em seis meses, ainda não consegui os meios para me subsidiar fazendo esse trabalho. Porque o projeto, por si só, ainda não é sustentável na medida do possível, dentro daquilo que poderia ser e daquilo que é capaz de oferecer comercialmente, especialmente aos clientes que poderiam ser convertidos em contratos recorrentes para o próprio projeto".
Para Vinícius, o próximo passo é converter o alcance de público em apoio concreto para a iniciativa.
"Tornar isso plausível, realizável e praticável na práxis do cotidiano, acredito que seja uma forma de realização humana", completou.