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ATIVO CULTURAL

Árabes denunciam 'golpe' e demolição de prédio de 72 anos em Corumbá

Edifício histórico foi comprado por 20 famílias; empresário vendeu local sem consultar integrantes da Liga

Por TERO QUEIROZ • 24/05/2026 • 15:16
Imagem principal (24.mai.26) Máquinas iniciam demolição do prédio de 72 anos da Liga Árabe em Corumbá (MS). Foto: Teatrineiros

O histórico prédio da Liga Árabe Brasileira de Corumbá teve parte da sua estrutura derrubada por uma patrola que entrou no terreno na madrugada de domingo (24.mai.26).

Segundo denúncia enviada ao TeatrineTV, a Liga teve abertura legal em 1977, localizada na Rua Frei Mariano, nº 584, no Centro.

Historicamente, o prédio foi levantado por uma colônia de 20 famílias árabes. Um livro histórico enviado à reportagem comprova que foi feita uma espécie de vaquinha entre as famílias para comprar o local. Veja abaixo:

INTEGRANTES CITAM 'GOLPE' DE AUTOINTITULADO PRESIDENTE

(24.mai.26) - No domingo, máquinas entraram no local e iniciaram a demolição. Integrante da liga compara cenário encontrado à situação de Gaza. Foto: Teatrineiros(24.mai.26) - No domingo, máquinas entraram no local e iniciaram a demolição. Integrante da liga compara cenário encontrado à situação de Gaza. Foto: Teatrineiros

De acordo com o ator e diretor teatral Salim Haqzan Hassan, de 56 anos, que também é integrante da Liga, um autointitulado responsável pela entidade teria vendido o prédio após sucatear as atividades culturais no local desde a pandemia.

"Corumbá tem uma população árabe muito expressiva. Temos uma comunidade muito forte e, desde o início da década de 1970, várias famílias, principalmente sírias, libanesas e palestinas, compraram juntas um terreno. Durante muitos anos, realizamos eventos ali.

Depois da pandemia, a situação meio que desandou. O terreno ficou largado, sem diálogo e sem organização. Então, essa pessoa, sendo secretário e presidente, envolveu familiares, irmãos e cunhados e, na surdina, vendeu o prédio, vendeu todo o espaço", resumiu.

(24.mai.26) - Famílias árabes impedem a demolição total de prédio de 72 anos vendido por pessoa nomeada pela Justiça como presidente da entidade. Foto: Teatrineiros(24.mai.26) - Famílias árabes impedem a demolição total de prédio de 72 anos vendido por pessoa nomeada pela Justiça como presidente da entidade. Foto: Teatrineiros

Ainda de acordo com Salim, o suspeito de vender o prédio entrou na Justiça para “legalizar” a venda do prédio histórico.

"Na sexta-feira passada, houve uma reunião entre as famílias e decidiram que isso era inadmissível e que iríamos recorrer. Provavelmente ele ficou sabendo disso ontem e hoje tomou essa atitude. Quando as pessoas ficaram sabendo, foi criado um outro grupo, além do nosso grupo do Islã, para chamar as pessoas. Muito rapidamente, muitas famílias, senhoras, pessoas idosas e senhores foram para lá e ocuparam a frente da Liga Árabe. Mas eles já tinham derrubado uma boa parte do prédio que nós construímos", lamentou Salim.

Outro integrante da Liga, de 57 anos, que terá o nome preservado, confirmou a existência do processo no Judiciário impetrado pelo autointitulado “responsável” pela organização.

"Recentemente, uma pessoa da comunidade árabe entrou com um pedido no Judiciário se alegando presidente, querendo, de certa forma, usar o Judiciário para dar legalidade a todas essas fraudes. Então, montou um grupo no qual estão a irmã dele, o cunhado, o sobrinho e outras pessoas que a gente nem sabe quem são. Não sabemos como isso foi colocado, se foi publicado, se foi filmado. Nesse processo, nós entramos pedindo para que ele não fosse reconhecido, porque ele não nos representa. O juiz determinou que ele fizesse uma nova eleição e deu um prazo, mas ele não cumpriu", relatou.

(24.mai.26)  População árabe ocupa prédio de 72 anos da Liga Árabe em Corumbá (MS) para impedir demolição. Foto: Teatrineiros(24.mai.26) - População árabe quer impedir demolição. Foto: Teatrineiros

Mesmo assim, o autointitulado responsável teria se valido de uma ata que fizeram, mudou o estatuto e, além disso, segregou outros membros da colônia.

"Por exemplo, nós temos árabes, libaneses, sírios e palestinos. Ele só montou tudo com a família dele, não chamou os libaneses, não chamou os sírios e acabou vendendo a Liga Árabe, que não é propriedade dele, é da colônia, por um preço vil", denunciou.

A testemunha ressaltou que o prédio tem avaliação de R$ 2,7 milhões pela prefeitura e, no mercado, está avaliado em R$ 4 milhões, mas o suspeito vendeu o local por R$ 1,9 milhão.

"Além disso, essa pessoa, o nome dele é Ragh, disse que não conhece nenhum árabe, por isso não falou com os árabes. Isso é mentira, porque ele já foi presidente da Liga Árabe. Foi ele quem deixou a Liga Árabe na condição de devedora na prefeitura, com multas e tudo mais. Ou seja, deixou ela praticamente sucateada. Além disso, ele faz parte de três grupos de WhatsApp entre os árabes, então são só falácias. Do lado dele deve ter meia dúzia de pessoas e, do outro lado, tem toda uma comunidade, uma colônia", afirmou.

O início da destruição do prédio histórico nesta madrugada de domingo foi sorrateiro. Para a testemunha, a cena encontrada pela manhã foi devastadora culturalmente.

"Quando a gente olha, causa tristeza. Envolve nossa emoção. Nossos antepassados construíram isso e tudo foi jogado no lixo. Sinceramente, isso aqui está parecendo Gaza, a Síria bombardeada, o Líbano bombardeado. É lamentável".

A reação contra o suspeito será pautada em documentos, provas e uma mobilização das famílias fundadoras que estão no local.

"Temos pessoas que já confessaram que não participaram dessa reunião, desta assembleia. Então, estamos juntando tudo novamente para levar ao Judiciário. E agora, neste exato momento, apareceu um advogado aqui dizendo que quer continuar com a demolição, sendo que, horas antes, haviam conversado com alguns políticos, que falaram com o comprador. O comprador teria afirmado a esses políticos que não faria mais nada e que amanhã se reuniria com a comissão legítima da comunidade e que, se houvesse alguma irregularidade, iria desfazer o negócio. Então, causa espanto o aparecimento desse advogado aqui para dar continuidade a essa situação de demolição", concluiu o denunciante que está no local.

 

SUSPEITO MOVE PROCEDIMENTOS JUDICIAIS

Não anexamos
as peças judiciais na íntegra
por conterem dados pessoais
das partes citadas.
A reportagem apurou que o suspeito de vender o prédio é Ragh Adiy Abdel Aziz Ady. Ele é proprietário da Ragh Sport S LTDA, ao lado de familiares.

Apuramos que, de fato, Ragh ingressou com ações judiciais para se tornar responsável pelo prédio e usufruir comercialmente do mesmo.

No processo nº 0804741-79.2024.8.12.0008, em tramitação na 3ª Vara Cível de Corumbá, Ragh alegou que a entidade estava abandonada administrativamente, acumulando dívidas e sob risco de penhora judicial.

No processo, ele sustentou que a Liga Árabe “não vem sendo administrada e tampouco cuidada”, acrescentando que a dívida com o município estaria aumentando e que o imóvel já se encontrava “na iminência de mais uma penhora”.

Ragh também afirmou ao Judiciário que teria tentado localizar documentos históricos da associação junto aos membros antigos da colônia, sem sucesso. Segundo a alegação na ação, “ninguém tinha posse do estatuto para que pudesse o requerente iniciar o processo de regularização da Associação”.

Com base nesses argumentos, ele pediu à Justiça para ser nomeado administrador provisório da Liga Árabe Brasileira de Corumbá, com autorização para praticar “todos os atos necessários à administração”.

A decisão judicial assinada pelo juiz André Luiz Monteiro acolheu o pedido. Na sentença, o magistrado reconheceu que a entidade atravessava um cenário de ausência administrativa e destacou que a legislação permite intervenção judicial em situações semelhantes.

Ao fundamentar a decisão, o juiz citou o artigo 49 do Código Civil:

"Se a administração da pessoa jurídica vier a faltar, o juiz, a requerimento de qualquer interessado, nomear-lhe-á administrador provisório".

A sentença também ressaltou que a Liga Árabe estava em situação de risco fiscal para com o município:

"Verifica-se que a Liga Árabe de Corumbá encontra-se em processo de execução fiscal (...) e está na iminência de sofrer penhora, o que demonstra que a Associação não vem sendo devidamente administrada."

Com isso, o magistrado decidiu:

"ACOLHO OS PEDIDOS para NOMEAR o autor administrador provisório da Liga Árabe Brasileira de Corumbá, pelo prazo de 120 dias, devendo convocar, neste período, assembleia para eleição de novos dirigentes".

Apesar da nomeação provisória, o próprio processo revela que houve reação imediata de integrantes da colônia árabe. Os membros Sadique Adi, Taher Mahid Hasan Asrieh e Yahya Muhd Omar Said ingressaram judicialmente como terceiros interessados e pediram a nulidade da assembleia conduzida pelo administrador provisório.

Protocolos obtidos pela reportagem mostram movimentações recentes em cartórios de Corumbá relacionadas à entidade.

Um recibo do Registro Civil das Pessoas Jurídicas, datado de 22 de maio de 2026, registra protocolo referente ao “REGULAMENTO INTERNO” da Liga Árabe Brasileira de Corumbá. O documento aponta como interessado “Hag Nasser Safa Ahmad” e traz apresentação vinculada ao grupo de Ragh Ady.

Outro protocolo, emitido pelo 1º Registro de Imóveis de Corumbá em 19 de maio de 2026, demonstra pedido de averbação relacionado ao imóvel histórico poucos dias antes da demolição parcial do prédio.

A reportagem também teve acesso à certidão histórica do imóvel, que denota o vínculo coletivo da colônia árabe com o espaço. O documento registra que o terreno foi adquirido oficialmente pela Liga Árabe Brasileira de Corumbá em 12 de janeiro de 1954, muito antes da fundação jurídica da Liga.

A escritura descreve que o imóvel foi comprado pela entidade como sociedade civil organizada da comunidade árabe local:

"Nome, profissão e domicílio do adquirente: ‘Liga Árabe Brasileira de Corumbá, Sociedade Civil, com sede nesta cidade’".

E o cartão CNPJ da entidade confirma como atividades principais ações associativas ligadas à cultura, arte e defesa de direitos sociais.

OUTRO LADO

Procurado, o senhor Ragh não quis responder às perguntas do repórter. “Para isso, você fala com meu advogado”, respondeu, antes de encerrar a ligação.

Sendo assim, ainda no intuito de ouvir a parte de Ragh, procuramos seu advogado Diego Nassif, proprietário do escritório Nassif Advogados.

Provocado a explicar a venda do prédio da Liga Árabe, Diego iniciou afirmando que as pessoas que estão fazendo “toda essa celeuma em torno da venda dos terrenos da Liga Árabe sequer são filiadas à associação”.

“É uma associação privada, não recebe dinheiro público de espécie alguma. Eles entendem, dizem e estão propagando que houve uma autorização judicial para o senhor Ragh ser administrador provisório e que ele teria 120 dias para fazer a assembleia de eleição da nova diretoria; o amigo pode fazer a consulta pública e terá acesso à íntegra. Vai verificar que o processo já transitou em julgado”, argumentou.

Sobre a assembleia e eleição contestada pelos manifestantes, o advogado alegou:

“O Ragh já fez a assembleia de eleição da nova diretoria, tanto que está registrada em cartório, como prevê o estatuto da Liga Árabe. Toda a negociação e toda a parte documental foram feitas de acordo com o estatuto e com a legalidade. Essa parte de ‘demolição de prédio histórico’: o prédio não é tombado, muito menos estava em condições de habitabilidade. Foi objeto de notificações da prefeitura para que fosse feita a limpeza e a adequação, porque estava até em situação de risco à segurança pública. Pessoas em situação de rua pulavam o muro e faziam uso da sede. Havia risco de queda por conta da deterioração e da falta de cuidados durante todos esses anos. E essas pessoas que fazem essa alegação sequer são filiadas à associação e nunca se mobilizaram para serem diretores ou para fazer uma assembleia e cuidar da Liga Árabe. Então, vejo que são assuntos particulares da outra parte”.

O defensor de Ragh dividiu os “palestinos” do “povo árabe” e questionou a legalidade de um dos manifestantes.

“O principal motor dessa celeuma se diz presidente da Liga Palestina de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Eu não vi um documento sequer. Ele fala inclusive em nome de Brasília, diz que tem uma delegação de Brasília afiliada a outras questões, mas não apresenta nenhum documento comprobatório... Ele fez uma reunião convocando árabes e palestinos. Se ele é presidente de uma Liga Palestina, que trate da Liga Palestina. Por que se imiscuir nos objetivos e tratativas de uma Liga Árabe que não diz respeito às origens dele? E ele não é filiado. Acredito que essas pessoas que entraram em contato contigo também não sejam filiadas à Liga Árabe atual”, criticou.

A defesa de Ragh insistiu que tinha autonomia para vender o prédio da Liga.

“A compra e venda é legítima. Foi devidamente documentada e registrada em cartório. O comprador é legítimo detentor dos direitos de posse e propriedade. O registro está prenotado no cartório. É óbvio que as questões administrativas levam tempo, não acontecem de forma célere”, sustentou.

Quanto à ocupação para impedir a demolição total do prédio da Liga Árabe, o advogado de Ragh afirmou que medidas cabíveis estão sendo adotadas.

“Foi feito boletim de ocorrência da invasão por parte deles. Há vídeos demonstrando que derrubaram o portão e adentraram o terreno da Liga Árabe, coagindo os trabalhadores que estavam ali a orientação do comprador. Tudo isso foi registrado perante a Polícia Civil e está sendo acompanhado de perto pelo advogado do comprador e por mim, na qualidade de advogado da Liga Árabe”.

Questionado se Ragh havia se autointitulado “presidente da Liga Árabe” apenas para vender o local, o advogado rebateu, apontando o aval judicial.

“Jamais. Tanto que o processo enviado a vocês — e vocês certamente têm advogados no corpo da imprensa — demonstra que o Raj foi designado por uma autoridade judiciária, ou seja, por um juiz, para atuar na qualidade de presidente provisório. Esse é o termo correto. Foi determinado que realizasse a assembleia para eleição da nova diretoria, e ela foi feita dentro do prazo de 120 dias, devidamente registrada no 4º Ofício de Corumbá, cartório competente para esse tipo de documento”.

Para o advogado de Ragh, os ocupantes do prédio estão “usando inclusive crianças ao redor do terreno. Isso eu repudio de forma veemente. Essa é uma questão puramente cível”.

De acordo com a argumentação, o terreno da Liga Árabe teve de ser vendido por dívidas de IPTU e por estar em suposta situação de abandono desde a pandemia de Covid-19 (em 2020). A parte contrária à venda do local diz que a administração que levou ao “sucateamento do local” foi justamente a de Ragh. O advogado acusou os manifestantes de “mentir” sobre o período de “sucateamento”, mas não soube informar se seu cliente estava à frente da Liga nos últimos anos.

“Não procede a afirmação de que havia atividades antes da pandemia. A Liga Árabe já estava ‘sucateada’, usando a palavra deles, há mais de 10 anos, com deterioração da estrutura física. Não sei dizer [se o sucateamento teve a gestão de Ragh]. Já passaram vários presidentes nesse período. Não fiz levantamento sobre as gestões anteriores”.

Sobre a dívida acumulada de não pagamento de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), primeiro, o advogado afirmou que “a própria prefeitura sequer tinha conhecimento correto das transcrições das matrículas — as cobranças de IPTU foram suspensas até que se apurasse a real situação imobiliária dos imóveis”.

“Depois disso, foi dada legalidade aos imóveis. Houve a reativação dos BICs, que são as inscrições imobiliárias. Hoje, perante a prefeitura, está tudo totalmente legítimo e legal, com todos os documentos apresentados”.

Segundo o defensor de Ragh, quatro dos terrenos estavam apenas em transcrição, sem inscrição imobiliária.

“O valor gira em torno de R$ 270 mil em IPTU. Com o trabalho do nosso escritório e os pedidos junto à prefeitura, inclusive sobre débitos prescritos, a própria prefeitura pediu a suspensão da execução fiscal até que fosse concluído o procedimento de regularização imobiliária e cadastral”.

Diego declarou ter sido surpreendido pela mobilização em torno da preservação do local, algo que, segundo ele, nunca ocorreu antes.

“Ficamos surpresos com tamanha mobilização, que nunca ocorreu para colocar a Liga Árabe novamente nos trilhos e recuperar os tempos que, segundo eles, foram valorosos. Não retiramos esse mérito, mas, na situação em que estava, a Liga perderia os imóveis para a prefeitura ou até por desapropriação em razão do abandono”.

O advogado classificou a medida como positiva à cidade e anunciou que seu cliente comprará outro imóvel para a Liga com o valor recebido.

“Na realidade, foi feito um serviço público ao município, no meu entendimento, porque agora será dada aos imóveis a destinação que merecem. A Liga Árabe já está em processo de aquisição de uma nova sede, pendendo apenas a assinatura da escritura de compra e venda para dar seguimento às atividades da sociedade”, finalizou.

No início da reportagem, explicamos que 20 famílias teriam feito uma vaquinha para comprar o terreno da Liga Árabe no Centro de Corumbá. Questionado sobre a veracidade dessa informação, o advogado esquivou-se da pergunta.

 


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