(5.jan.25) - Pedro Morato durante o 1º encontro de Hip Hop do ano de 2025 em Campo Grande. Na ocasião, Pedro e amigos coloriram um enorme muro com arte na periferia de Campo Grande. Foto: Tero Queiroz
O artista visual Pedro Nunes Moraes Marques Morato, de 33 anos, morreu em um acidente às 20h30 de domingo (2.ago.26), na Avenida Fábio Zahran, na Vila Carvalho, em Campo Grande (MS).
Segundo apuração, Morato seguia pela Avenida Fábio Zahran, no sentido norte-sul, quando bateu na lateral de um BYD que seguia na mesma direção, próximo ao cruzamento com a Rua das Primaveras.
A dinâmica exata do acidente ainda será apurada.
Conhecido no mundo das artes pelo seu trabalho no grafite, onde assinava Pm.morato, ele também era diretor de arte, ilustrador, designer gráfico e artista digital.
Pedro trabalhava nas artes desde a adolescência, mas também acumulava, há 15 anos, experiências no mercado publicitário, atuando em branding, identidade visual e campanhas institucionais para diferentes segmentos.
Seu personagem mais marcante nas paredes espalhadas pela capital sul-mato-grossense era o símbolo do Pantanal, o jacaré. Porém, outros animais também eram explorados nos traços de Morato, como a arara, o tucano e outros integrantes da fauna pantaneira.
"Esse tipo de notícia deixa a gente em choque. A gente não espera um acidente assim, repentino. O Pedro era um menino muito de boa, muito alto astral, sempre brincando com a gente. É um cara que não tinha tempo ruim, bicho", introduziu, aos prantos, a artista visual Erika Pedraza.
De acordo com Pedraza, além de contribuir artisticamente, colorindo a cidade, Pedro também era tido como um mestre pelos mais jovens.
"O trabalho dele era muito rico, ele era muito talentoso. O jacaré dele é muito incrível. E a gente aprendia muito com ele. Eu aprendia muito com ele por eu estar iniciando e ele ter mais tempo de estrada", comentou.
Pedraza ressaltou que, além de admirado, Pedro era muito querido pelos colegas.
"Estar com ele era muito bom, porque ele tinha uma alma leve. Poxa, o cara deixa um filho, corta o coração da gente... Ele vai fazer muita falta, uma lenda da nossa cidade, porque, como pessoa e como artista, ele era incrível. Não tem ninguém que vai falar mal do Pedro", garantiu.
Ela sentenciou que a arte visual sul-mato-grossense amanheceu sem cor diante do acidente trágico.
"A cena está em luto, estamos arrasados. Hoje está um dia cinza, porque não tem mais o jacaré colorido dele", declarou Pedraza.
O também artista visual Leo Mareco, conhecido pela sua técnica de lambe-lambe, comentou sobre a singularidade do trabalho de Pedro.
"Para mim, Campo Grande perdeu um dos melhores grafiteiros que já tivemos. Pedro conseguiu sintetizar a riqueza do nosso estado em um personagem que, para mim, foi o mais representativo do graffiti campo-grandense", apontou.
Mareco também citou a grande personalidade que foi Pedro para além das artes e apelou para que seus grafites sejam preservados pela cidade.
"Ele tinha um olhar diferenciado, além de ser um ser humano ímpar. Sempre me ajudou e abriu muitas portas para mim. Perdemos um artista e ser humano incrível. Ao menos ainda temos muitas de suas artes pelas ruas da cidade. Peço, encarecidamente, que a população cuide dessas artes", apelou.
Outra artista visual sul-mato-grossense, a também grafiteira Thalya Veron, contou que conheceu Pedro em 2017, "quando ele nem pintava os jacarés".
Veron disse que "Pedro era um cara extremamente engraçado, animava os rolês e sempre topava qualquer movimento".
Ela narrou como foi uma das últimas conversas que eles tiveram pessoalmente.
"Quando fomos pintar o parque, ele estava falando sobre a vida, o quão o filho era importante, sobre o elo deles. Falou sobre a arte e que este ano ia voltar a pintar mais e que queria começar trabalhos diferentes. Tínhamos combinado de pintar telas, e eu ia dar umas dicas para ele sobre tattoo, mas não conseguimos".
A amiga e colega de profissão também reforçou a grande personalidade de Pedro e o quão foi e é valiosa sua contribuição artística para MS.
"Sempre me dava conselhos. Não nos víamos sempre, mas nossas trocas sempre foram reais e sinceras. Era impossível ficar do lado dele e não rir. Engraçado, autêntico, criativo, ele era único. Representou a cena do graffiti de MS dentro e fora do nosso estado, sempre com seu personagem jacaré, o que marcou muito a cidade e sua construção como artista. Foi e sempre será uma grande inspiração, não só na arte, mas como forma de viver. Estava no corre, mas estava sempre sorrindo".
De acordo com Veron, ela recebeu a notícia sobre o falecimento do amigo enquanto estava no trabalho.
"Estava dando aula. Para mim, foi um choque. Estou devastada, inconformada e triste. Sinto que a vida é uma linha fina e que a gente não sabe quando ela vai arrebentar. Não sabemos o dia de amanhã, e o falecimento dele é uma tristeza profunda. Não caiu minha ficha até agora".
Veron citou o simbolismo da obra produzida por Pedro em seu último dia de vida.
"Pedro amava a arte e acredito muito que esse era o sonho dele: espalhar isso como forma de amor, de conexão e até de encontro com ele mesmo por meio disso. No último dia de vida, ele fez o que amava: grafitou um pássaro livre com uma auréola na cabeça. Ele jamais será esquecido. A arte dele vai ecoar muito... Uma das melhores pessoas que já conheci na minha vida!", completou.
O velório do artista terá início às 16h desta 2ª feira (3.ago.26) na Capela Campo Grande (da Pax Nacional), em frente ao Comper do Bairro São Francisco. O sepultamento deve ocorrer às 9h da 3ª (4.ago).