Evento Jornada Diocesana, pago com recurso cultural, é usado por governador e aliados a 8 dias da eleição. Foto: Tero Queiroz
A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) destinou R$ 760 mil para seis apresentações musicais contratadas para a Jornada Diocesana da Juventude (JDJ) em setembro de 2026. Os shows foram realizados em Campo Grande, Três Lagoas, Naviraí e Corumbá.
Os contratos foram firmados por inexigibilidade de licitação, com fundamento no artigo 74, inciso II, da Lei Federal nº 14.133/2021, mecanismo utilizado para contratação de artistas por inviabilidade de competição.
Os seis contratos preveem apresentações de 1 hora e 30 minutos. Somados, os shows representam nove horas de música contratada pela FCMS, ao custo médio de aproximadamente R$ 84,4 mil por hora de apresentação.
PALANQUE ELEITORAL
A crítica central da reportagem está no fato de que os shows para jovens com médias de 16 anos, aptos a votar, foram relacionados à imagem do governador Eduardo Riedel e do deputado federal Beto Pereira, ambos candidatos à reeleição. Os políticos foram filmados no palco do evento religioso neste domingo (27.set.26), dentro de um espaço esportivo que pertence à estrutura da Igreja Católica.
Vale lembrar que as restrições eleitorais começaram em 4 de julho, visto que a eleição ocorre em 4 de outubro. Ou seja, os candidatos subiram ao palco do evento religioso durante o período de três meses que antecede a eleição.
A Lei das Eleições, no art. 75, proíbe, nesse período, a contratação de shows artísticos pagos com recursos públicos para inaugurações de obras públicas. Ou seja, a vedação não é para qualquer show público contratado nos três meses anteriores à eleição.
Porém, a Lei nº 9.504/1997, no art. 37, § 4º, estabelece que templos, ginásios e estádios são considerados bens de uso comum para fins eleitorais, ainda que sejam de propriedade privada. Nesses locais, é vedada a propaganda eleitoral de qualquer natureza.
Nesse sentido, o TSE já analisou casos envolvendo candidatos em eventos religiosos e reconheceu que a participação em atos de promoção de candidatura dentro de templos ou outros bens de uso comum pode caracterizar propaganda eleitoral irregular.
O Tribunal também já considerou que o candidato que deixa de ser mero espectador, sobe ao palco e participa diretamente do evento, aumentando sua exposição, pode responder pela promoção de sua imagem. A análise, porém, depende das circunstâncias e das provas de cada caso.
Também não existe na legislação uma figura autônoma chamada simplesmente de “crime de abuso do poder religioso”. O TSE entende que situações envolvendo a utilização de estruturas ou influência religiosa podem, conforme o caso, ser analisadas como abuso de poder econômico, abuso de poder político ou uso indevido dos meios de comunicação.
No caso analisado pela reportagem, como os shows foram pagos pela FCMS, a presença dos candidatos no palco de um evento religioso durante o período eleitoral levanta questionamentos que podem ser analisados à luz dos arts. 37 e 73 a 78 da Lei das Eleições.
A Resolução TSE nº 23.735/2024, que trata dos ilícitos eleitorais, inclui entre eles abuso de poder, captação ilícita de sufrágio e condutas vedadas a agentes públicos em campanha.
A reportagem, portanto, não afirma que a presença dos candidatos, por si só, configura crime ou abuso de poder. A questão é saber se a utilização de recursos públicos para a realização dos shows, associada à exposição dos candidatos em um evento religioso e às circunstâncias de sua participação, pode ter produzido promoção eleitoral ou benefício às candidaturas em desacordo com a legislação.
ROSA DE SARON
Entre as contratações, o maior valor acumulado está com a banda Rosa de Saron, que recebeu dois contratos de R$ 140 mil cada.
Uma apresentação foi marcada para 5 de setembro, em Corumbá (MS). A segunda ocorreu em 20 de setembro, em Três Lagoas (MS). Os dois contratos foram firmados com a Rosa de Saron Produções Artísticas Ltda., apontada nos documentos como empresária exclusiva da banda.
Com origem em Campinas (SP), o Rosa de Saron surgiu em 1988 dentro do movimento de Renovação Carismática Católica e construiu carreira nacional no segmento de música cristã.
Assim, somente as duas apresentações da banda representam R$ 280 mil dos R$ 760 mil destinados pela FCMS aos seis shows da JDJ.
Ao longo de 2026, a banda tem R$ 405.000,00 reservados pela a FCMS de Eduardo Riedel para pagamentos de shows.
OUTROS QUATRO SHOWS
Em Campo Grande, a FCMS contratou a banda Colo de Deus por R$ 130 mil para apresentação de 1 hora e 30 minutos no Ginásio Poliesportivo Dom Bosco, neste dia 27 de setembro. O show na Capital de MS deveria ter iniciado às 19h.
A Colo de Deus, que atua sob o CNPJ 23.352.122/0001-42, foi fundada em junho de 2015 em Maringá (PR). O atual diretor da entidade é Guilherme Martins de Sousa Ferreira.
Ao longo do governo de Eduardo Riedel a Colo de Deus abocanhou quase R$ 400 mil em contratos na FCMS sem concorrência.
Não localizamos qualquer registro de que de fato a banda tenha se apresentado no referido evento que foi encerrado antes das 21h.
Para se apresentar também neste dia 27 no Ginásio Dom Bosco, a banda Gerados pela Imaculada foi contratada por outros R$ 130 mil. O show também tem duração prevista de 90 minutos.
A Comunidade Gerados pela Imaculada mantém sede em Araraquara (SP), onde foi fundada em 2015. A empresa atua sob o CNPJ: 22.977.644/0001-77 e tem como presidente Andre Luiz da Costa Oliveira. A Gerados detém dois contratos de R$ 130 mil cada ambos em setembro.
Em Três Lagoas, a banda Fraternidade João Paulo II foi contratada por R$ 140 mil para uma apresentação de 90 minutos, em 20 de setembro.
A banda é representada pela Summer Produções, empresa fundada em 03/07/2024 atua sob o CNPJ 55.779.207/0001-06 com sede em São Paulo (SP). Conforme apurado, o nome fantasia da é Sb Produções, tando como único sócio proprietário Antonio Cerqueira Junior.
Apesar de jovem, seis meses após sua fundação, a Summer já abocanhou um contrato na FCMS. A empresa foi contratada pela primeira vez em fevereiro de 2025. A banda recebeu R$ 110.000,00 pra um show no Parque das Nações Indígenas, na Capital sul-mato-grossense.
Desde então, a Summer conquistou outros dois contratos de R$ 140 mil cada. O governo deve R$ 390 a Summer, dos quais já pagou R$ 110 mil.
Já em Naviraí, o cantor Diego Fernandes foi contratado por R$ 80 mil para um show de 1 hora e 30 minutos, também em 20 de setembro.
Juntos, esses quatro contratos somam R$ 480 mil.
O "CASE" JARISTON
O artista Diego Fernandes foi representado pela empresa Jariston Pereira Lima, CNPJ 43.563.970/0001-08, cujo nome fantasia é “A Promessa”, fundada em setembro de 2021, em Campo Grande (MS). A empresa apareceu como contratada pela FCMS pela primeira vez em abril de 2023, com cachê de R$ 15 mil.
No período entre a fundação da empresa e setembro de 2026, Jariston faturou contratos que somam R$ 899.500,00. Desse montante, já recebeu dos cofres da FCMS R$ 633.557,52 por shows musicais destinados ao público católico.
No Spotfy, Jariston soma 22 ouvintes mensais. Ele lança músicas na plataforma desde 2017. No Youtube ele conta com pouco mais de 700 inscritos.
Natural de Campo Grande, Jariston se define em seu material de apresentação como cantor gospel e “Ministro do Evangelho”, tendo cerca de uma década na música.
No portfólio oficial, ele afirmou "transitar entre o pop gospel, o country e o estilo worship, mirando apresentações que vão de templos religiosos a eventos governamentais.
Apesar da pouca tração nas redes e nos tocadores de streaming, o documento lista uma discografia extensa iniciada em 2008 com Jesuscidência, passando pelo lançamento do projeto A Promessa, em 2017 — mesmo nome batizado em sua empresa —, até trabalhos recentes como Acalma aí (2024) e Aviva MS (2025).
O cantor também inclui entre suas credenciais a ação de rua “Quer Melhorar o Seu Dia?”, em que aborda pedestres com fones de ouvido em praças e parques da Capital para cantar ao vivo.
Respaldado por esse pacote e pelo discurso de “servir ao Reino de Deus”, Jariston transformou o CNPJ em canal direto para a realização de shows financiados com verba pública estadual.
Chama atenção o nome escolhido para a empresa: “A Promessa”. A estratégia parece ter dado certo, ao menos financeiramente, para Jariston, que se tornou uma espécie de success story da música católica, impulsionado pelos cachês pagos pela FCMS.
SEM CONCORRÊNCIA
Os contratos têm como fonte de recurso o Programa de Trabalho 13.392.2223.6226.0001, com Natureza da Despesa 339039 e Fonte 0150000001. Nos documentos, a FCMS afirma que os preços seguem valores praticados no mercado artístico.
A contratação dos artistas está vinculada ao projeto Ações Culturais Para o Fortalecimento de Mato Grosso do Sul. Os documentos também registram que os pedidos partiram de dioceses e estruturas da Igreja Católica responsáveis pela realização das jornadas nos municípios.
Os contratos não passaram por disputa entre fornecedores. A FCMS utilizou a inexigibilidade de licitação prevista na legislação para contratação de profissionais do setor artístico por meio de empresário exclusivo.