Exposição no Museu da Língua Portuguesa, 'Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade', foi censurada após denúncia politiqueira. / Foto: Wellington Almeida
A exposição 'Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade', em cartaz desde novembro de 2025 no Museu da Língua Portuguesa, na Capital de São Paulo, foi encerrada por censura.
Segundo apurou a reportagem do TeatrineTV [TTV], o militante de extrema direita, deputado estadual Tenente Coimbra (Matheus Coimbra Martins de Aguiar), do Partido Liberal (PL), que não entende absolutamente nada de arte esteve no museu com intuito apenas de "capitalizar" censura à obras de arte, e fazer disso uma plataforma de campanha neste ano eleitoral.
Conforme artistas, a movimentação do militante levou o Ministério Público paulista (MPSP) a agir num ato de censura a exposição cobrando realocação de obras, o desligamento de vídeos e a possibilidade de encerramento antes do previsto. O prazo original de permanência da exposição era até agosto de 2026, porém a exposição foi encerrada no domingo, dia 31 de maio.
A mostra reunia 473 obras, dentre pinturas, fotografias, vídeos e registros audiovisuais sobre a trajetória do funk nas periferias brasileiras.
Conforme apurado, a primeira edição da exposição ocorreu no Museu de Arte do Rio (MAR), onde ficou um ano e meio em cartaz e bateu recorde de público, trazendo uma perspectiva cultural sobre o funk do Rio de Janeiro, tendo como curadores Taísa Machado, Dom Filó, Amanda Bonan, Marcelo Campos, e consultoria de Tamiris Coutinho, Deize Tigrona, Celly IDD, Glau Tavares, Sir Dema, GG Albuquerque, Marcelo B Groove, Leo Moraes, Zulu TR. Antes de chegar a São Paulo, chegou a passar pela França.
Já em São Paulo, ela teve curadoria assinada pela pedagoga e pesquisadora do funk há mais de uma década, Renata Prado, onde conta com patrocínio da Petrobras, Motiva e Vale, tendo realização do Governo do Estado de São Paulo e do Ministério da Cultura.
O ataque veio acompanhado de publicações nas redes sociais com discursos de ódio, desinformação e linguagem inflamatória contra a exposição, a curadora, os artistas e a própria instituição. O padrão é conhecido por quem pesquisa ou vive dentro da cultura funk.
Tamiris Coutinho é doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, autora do livro 'Cai de Boca' e há anos investiga a criminalização do funk e do trap no Brasil. Para ela, o que acontece no Museu da Língua Portuguesa é a versão contemporânea de um processo que não para desde os anos 1990.
"A gente estava fazendo um trabalho sério, embasado, com pesquisa, trazendo dados, trazendo as pessoas que trabalham com funk nas variadas manifestações artísticas: da dança, da pintura, da fotografia, do audiovisual. É muito triste ver pessoas que não têm ligação com a manifestação cultural utilizando o funk de uma forma tão maldosa. O funk não é uma coisa só, é um movimento complexo, plural. Esse processo de criminalização não é de hoje, opera desde os anos 90 e vai se reinventando. Hoje, a rede social é um dos caminhos mais efetivos que a direita tem utilizado para inflamar o ódio contra as manifestações pretas, periféricas, faveladas e, em especial, o funk que é o ator central dentro desse processo mais contemporâneo, que começou com o samba, com a capoeira".
A criminalização do funk tem raízes profundas, desde os anos 1990, o gênero nascido nas periferias e favelas cariocas enfrenta restrições, estigmatização midiática e perseguição desde a dança, as festas de rua, a música, e no audiovisual. Até que em julho de 2024, o Governo Federal sancionou a lei que instituiu o Dia Nacional do Funk, celebrado anualmente em 12 de julho. Sendo assim, a extensão da exposição no Museu da Língua Portuguesa era parte desse processo de legitimação histórica.
P0CKET é funkeira, atriz e psicóloga formada pela Universidade Federal de Mato Grosso, e acompanhou a exposição no Rio de Janeiro, no Museu de Arte do Rio, e viu de perto o impacto que a mostra causou no público e na comunidade funk. Diante do ataque em São Paulo, ela aponta o que está por trás do gesto.
"Nessa tentativa de censura, eles estão comunicando que nossa cultura não pertence a esse espaço, e mais uma vez querendo determinar onde devemos estar e o que podemos alcançar enquanto corpo, presença, intelectualidade, espiritualidade e manifestação cultural."
Para os artistas visuais que participaram da mostra, a conquista de ter obras num espaço como o Museu da Língua Portuguesa não foi pequena. O funk tem presença histórica na música e na dança, mas é muito recente sua entrada no circuito das artes visuais institucionais. Um dos artistas com obra na exposição, que pediu para não ser identificado por receio de represálias, fala sobre o que está em jogo.
"O funk vem sendo atacado, perseguido e censurado há muitos anos, em diversas linguagens: na dança, nas festas de rua, na música, no audiovisual. É muito recente termos exposições que discutam essa temática em espaços tão importantes como o Museu da Língua Portuguesa. Foi uma grande conquista. Mas tenho medo de que essa perseguição se estenda e coloque em risco as vidas dos artistas e dos trabalhadores da cultura como um todo".
Breno Brandão, fotógrafo e multiartista da zona leste de São Paulo, território que produziu parte significativa do funk paulistano e é um dos artistas com trabalho em destaque na exposição. Para ele, ser censurado por uma denúncia política ressoa com opressões que já fazem parte do seu cotidiano fora do museu.
"Como artista da zona leste, cresci vendo o funk ser tratado como problema em vez de expressão cultural legítima. Participar dessa exposição era um ato de orgulho e resistência. Agora, com a censura imposta por uma denúncia política, me sinto silenciado exatamente por aquilo que sempre me negaram: a voz. O funk é minha realidade, meu território, minha forma de existir e denunciar as opressões que já vivo no cotidiano, desde a falta de recursos, na violência estatal e no preconceito de classe. Ser censurado assim, sem diálogo, sem debate, me faz reviver a sensação de que minha arte e minha vida não importam, de que podem ser caladas por uma acusação arbitrária".
A reportagem do TTV questionou o Museu da Língua Portuguesa acerca da denúncia. Por meio de resposta sucinta via e-mail, o Museu sustentou que a exposição teve período "padrão" de permanência.
"A exposição "FUNK: Um grito de ousadia e liberdade" foi encerrada em 31 de maio a fim de possibilitar a realização de duas novas mostras ainda este ano no Museu da Língua Portuguesa. "FUNK" ficou em cartaz por seis meses, tempo médio de exibição das mostras temporárias da instituição", disse.
O Museu deixou de responder aos seguintes questionamentos:
- Na avaliação do Museu, o MPSP não estaria atuando como uma espécie de "censor" do que é ou não é possível se expor em um espaço fechado de arte?
- Como é de conhecimento público, o deputado em tela não possui qualquer qualificação para analisar uma exposição de arte. O que o Museu acha de uma pessoa sem qualquer credencial atacar uma exposição de arte?
- Por fim, podem nos explicar qual é o fundamento legal usado pelo órgão para promover essa "alteração" na exposição? Isso de fato ocorreu?
O QUE DISSE O MPSP
A reportagem do TTV procurou o MPSP para saber se de fato a instituição está agiu de maneira a censurar uma exposição de arte na Capital paulista. Por meio de nota, o MP disse:
"O MPSP informa que o procedimento está em fase preliminar de apuração e tem por objeto verificar notícia de possível exposição de crianças e adolescentes a conteúdo eventualmente incompatível com a classificação indicativa atribuída à mostra, especialmente diante da informação de realização de visitas escolares. Até o momento, a providência adotada pelo MPSP foi a expedição de ofícios ao Museu da Língua Portuguesa, à Secretaria Municipal de Educação e à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, para solicitação de informações sobre o conteúdo da exposição, os critérios de classificação indicativa, as medidas de controle de acesso, a eventual realização de visitas escolares, as advertências ao público e a orientação de monitores".
Questionado sobre a desqualificação do deputado para avaliar uma exposição de arte, o MP argumentou o seguinte:
"A atuação do MPSP não envolve juízo artístico, curatorial, político ou cultural sobre a exposição. O objetivo é verificar o cumprimento das normas de proteção integral de crianças e adolescentes e de classificação indicativa, sem prejuízo da liberdade de expressão artística e da vedação constitucional à censura".
Provocado a comentar a atuação do deputado nesse ano eleitoral, o MP disse:
"O MPSP também não se pronuncia sobre motivações político-partidárias atribuídas a terceiros. Qualquer pessoa pode encaminhar notícia de possível violação de direitos de crianças e adolescentes. Cabe ao MPSP analisar tecnicamente os fatos, com impessoalidade, dentro de suas atribuições constitucionais e legais. Assim, com base nos atos praticados até o momento e nos documentos constantes nos autos, não há determinação do MPSP para alteração, interrupção, censura ou encerramento da exposição. O procedimento encontra-se em fase inicial, voltada à colheita de informações. Eventuais alterações realizadas pelo Museu, caso tenham ocorrido, devem ser esclarecidas pela própria instituição", completou.







