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ARTES CêNICAS

Gianecchini e Casadeval criticam descaso com cultura em Campo Grande

Ator e produtor de Um Dia Muito Especial falou sobre a falta de teatros públicos, fascismo e a parceria com Maria Casadevall e Carolina Stofella

Por TERO QUEIROZ • 12/09/2026 • 15:22
Gianecchini e Casadeval criticam descaso com cultura em Campo Grande Foto: Tero Queiroz

O ator Reynaldo Gianecchini criticou a falta de teatros públicos durante coletiva de imprensa realizada na tarde deste sábado (12.set.26), no auditório do Bioparque Pantanal, em Campo Grande (MS). Ao lado de Maria Casadevall e Carolina Stofella, o artista falou sobre a importância da cultura, a formação do elenco e os temas abordados no espetáculo Um Dia Muito Especial.

A montagem, que tem Gianecchini também como produtor, apresenta sessões às 20h deste sábado e às 18h do domingo (13.set.26), na Capital.

Questionado pela TeatrineTV sobre o fato de Campo Grande ter apenas um teatro público, Gianecchini classificou a situação como triste e relacionou a falta de investimentos ao enfraquecimento das políticas culturais.

"É sempre triste, né, quando você pensa na cultura, no lugar onde as pessoas não dão importância, principalmente onde a gente vê um governo que teve um desmancho da cultura", afirmou.

Para o ator, a falta de incentivo compromete a circulação de espetáculos pelo país.

"Eu como artista, como profissional que trabalho, fazendo teatro que é uma loucura, ainda mais se levar o teatro do Brasil inteiro, é absolutamente impossível se a gente não tem incentivo". 

Foto: Tero Queiroz

Gianecchini também destacou a relação entre cultura e democracia.

"Um povo sem cultura é um povo muito fácil de manipular", declarou.

Segundo ele, a ampliação dos espaços culturais deve ser tratada como um direito da população.

"A gente tem que muito brigar como artista, é que a gente tem esses espaços, sem públicos, porque é um dever, né? A gente tem que ter cultura, ter que ter saúde, ter que enfim, todos os setores são importantes. Direito, é um direito da gente", definiu. 

O ator ainda defendeu que a cultura seja valorizada e incentivada no país.

"É uma pena que realmente não tenha mais teatros públicos e a gente tá sempre brigando muito para que a cultura seja levado a sério e seja incentivada e seja ampliada cada vez mais no nosso país", comentou.  

CULTURA NA LINHA DE FRENTE

Foto: Tero Queiroz

Maria Casadevall completou a fala do colega destacando que a companhia percorre o Brasil há quase um ano sem patrocínio. Para ela, a circulação da peça também representa uma forma de manifestar o poder das artes.

"Eu acho que faz parte também do movimento da gente querer criar público, da gente querer gerar movimento, gerar debates", afirmou.

A atriz relacionou a ausência de patrocínio aos temas políticos presentes na montagem.

"Muito provavelmente, a gente tá denunciando o fascismo, a gente tá falando que a cultura, ela é uma linha de frente, né, para denunciar o fascismo", observou.

Casadevall afirmou ainda que a equipe mantém a circulação do espetáculo pela dedicação dos profissionais envolvidos.

"Então, a gente está pela garra do nosso produtor, de toda a equipe envolvida, do nosso diretor que também é produtor, levando esse debate, levando essa peça e isso também é uma forma da gente manifestar o nosso desejo de que a cultura continue na linha de frente contra o avanço fascista". 

ENCONTRO DO ELENCO

Foto: Tero Queiroz

Gianecchini contou que foi o primeiro ator a entrar no projeto, inicialmente desenvolvido por outras pessoas. Após a queda do patrocínio, ele assumiu a produção e passou a buscar os demais integrantes do elenco.

A escolha de Maria Casadevall ocorreu quando o ator soube que ela pretendia retornar ao trabalho artístico após um período afastada. Os dois nunca haviam trabalhado juntos, mas Gianecchini já acompanhava a trajetória da atriz.

"Eu sempre achei ela uma atriz muito interessante, uma mulher muito interessante", salientou.

O convite foi aceito depois que Casadevall demonstrou interesse pelo projeto. Segundo Gianecchini, o primeiro ensaio também marcou o encontro presencial entre os dois.

"O primeiro dia de ensaio foi o dia que a gente conheceu. Primeiro dia de ensaio que a gente se cruzou pela primeira vez na vida e aí o nosso santo bateu para falar tanta coisa linda que a gente fala no dia a dia da gente da descoberta que é de uma parceria para além da arte, né, para a vida", afirmou.  

Carolina Stofella chegou ao elenco por indicação do diretor. Gianecchini já havia trabalhado com a atriz e aprovou a escolha.

"No primeiro dia a gente caiu de amores e o mais lindo é que nós três amamos contar essa história, nós somos apaixonados".

O ator também destacou o compromisso do elenco com a montagem, que segue em circulação pelo país.

"A gente está já um ano do que é muito raro, porque o elenco geralmente as pessoas começam a achar outro projeto, aí tem que ensaiar. A gente nunca teve isso, né? Nunca tivemos. A gente faz. É a nossa prioridade fazer essa peça". 

Casadevall afirmou que a convivência durante o processo de criação transformou a relação entre os artistas.

"Porque a gente também se transformou, assim como o Gabriele, a Antonieta e a zeladora que a Dona Nena, de alguma maneira se transformam ali durante a peça, a gente foi se transformando também nesse humano e hoje a gente tem uma parceria assim muito afetiva, né? Artística, afetiva e criativa".

A HISTÓRIA E O FASCISMO

Ambientado em Roma, em 6 de maio de 1938, o espetáculo acompanha Antonietta, dona de casa e mãe de seis filhos, e Gabriele, um homem gay demitido da rádio e ameaçado de prisão durante o regime fascista.

Enquanto Benito Mussolini e Adolf Hitler firmam uma aliança política, os dois personagens se encontram a partir de um incidente envolvendo o pássaro de estimação da protagonista. A conversa entre eles dá origem a uma amizade e a um amor platônico que transforma suas vidas.

Gianecchini afirmou que a peça o levou a refletir sobre a Itália fascista e sobre questões relacionadas à masculinidade, à vulnerabilidade e à empatia.

"Eu acho que eu nunca tinha feito uma peça assim que também que tocasse nesse ponto tão importante de se situar nesse período dessa Itália fascista", disse.

Para o ator, o trabalho também provocou uma análise pessoal sobre o que é ser homem em uma sociedade marcada por padrões de comportamento.

"A gente tem que repensar o que a gente teve que entubar como masculino. E repensar falar daqui para frente o que é, né, ser masculino, se ser masculino é ser bruto, ser fechado, ser insensível, não pode ser vulnerável, acho que tá tudo errado".

Gianecchini também ressaltou que a relação entre os personagens o fez refletir sobre a própria capacidade de acolher pessoas com opiniões diferentes.

"Às vezes é uma falta só da gente olhar com mais cuidado. Outras vezes é uma ideia muito diferente da sua, você pensa diferente, mas também tudo bem, você pode acolher pelo menos a pessoa". 

AUTONOMIA E EXPRESSÃO

Casadevall destacou a transformação de Antonietta ao longo da peça. Para ela, a personagem representa a retomada da autonomia feminina, especialmente em relação ao corpo, ao prazer e à ocupação dos espaços públicos.

"A coragem de ocupar os espaços, de ser quem se é. Acho que não só a questão da mulher em si, mas de uma forma humana, essas duas personagens nos ensinam que o único caminho é a gente encontrar uma forma de colocar a nossa expressão original em mim". 

A atriz afirmou que a experiência vivida por Antonietta ainda dialoga com questões presentes na sociedade atual.

"Ela vive aquele prazer de maneira integral naquela tarde. Provavelmente uma mulher que nunca teve um orgasmo na vida, ela tem aproximadamente lá quase 50 anos". 

Segundo Casadevall, a transformação da personagem ultrapassa a dimensão sexual e alcança a autonomia da mulher na sociedade.

"Então acho que de forma concreta para que cada mulher possa viver o prazer também, viver o seu orgasmo, seu prazer sexual, mas também de uma forma simbólica para que cada mulher vá recobrando a sua autonomia sexual, recobrar a sua autonomia ao seu lugar, ao seu espaço no mundo".

A atriz também relacionou o tema à participação feminina na vida pública.

"Quem tem realmente direito ao espaço público, quem tem realmente, quem tem escuta para fala pública", questionou.

Ao abordar o fascismo, Casadevall afirmou que a peça não trata apenas de um período histórico, mas também dos riscos de repetição de práticas autoritárias.

"Hoje a gente tá falando sobre isso como uma forma de denúncia. Olha, a gente corre o risco de que alguma coisa parecida aconteça novamente".

REFERÊNCIAS ITALIANAS

A construção dos personagens também passou por referências familiares e cinematográficas. Casadevall contou que buscou na própria família a musicalidade da fala e os gestos utilizados na composição de Antonietta.

"Eu fui buscar assim nessa origem, a forma de gesticular da minha avó, a coisa de uma musicalidade na fala".

A atriz também citou o filme Roma, de Pier Paolo Pasolini, como uma das referências para o processo de criação. Sobre a personagem, imaginou que Antonietta escolheria uma comida tradicional italiana, como espaguete à bolonhesa.

Gianecchini, que obteve a cidadania italiana recentemente, afirmou que o contato com o país também influenciou sua preparação para o espetáculo.

"Eu penso no Gabriele, para mim o Marcello Mastroianni é uma grande referência. Que ele já fez esse personagem".

O ator explicou que o figurino da montagem segue rigorosamente a estética do filme que inspirou a peça.

Na cozinha de Gabriele, a simplicidade também aparece nos alimentos.

"Na peça a gente cozinha uma omelete, é o que ele tem só, ele tem só dois ovos. Uma massa. Uma burrata. Qualquer massa italiana tá servindo para eles", descontraiu o ator ao serquestionado qual comida italiana típica seu personagem desejaria comer. 

Carolina Stofella, por sua vez, contou que tem ascendência italiana por parte dos avós, originários de Trento, e buscou referências familiares para interpretar a zeladora Dona Nena.

"Essa zeladora é uma matrona assim, veja que mulher pesada, como a minha avó era, sabe? Minha avó tinha aquele bração de italiana", comparou. 

Gianecchini elogiou a transformação física da atriz para o papel.

"Toda bonitinha, jovenzinha, ela faz a peça essa matrona, essa mulher pesada. As pessoas não reconhecem ela no final". 

A montagem Um Dia Muito Especial segue em cartaz neste fim de semana em Campo Grande, com sessões às 20h deste sábado (12) e às 18h do domingo (13).


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