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'PARALELOS TRÁGICOS'

Pesquisador comprova existência de cópias do 1º filme ficcional de MS e cobra restauração

O catálogo reúne matérias publicadas ao longo de cinco décadas em 54 veículos de imprensa de cinco estados e do Distrito Federal

Por TERO QUEIROZ • 02/05/2026 • 18:42
Imagem principal (29.abr.26) - Rodrigo Teixeira apresenta catálogo Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos no Museu da Imagem e do Som (MIS) de Campo Grande (MS). Foto: Tero Queiroz

O tempo estava bom no início da noite de 29 de abril. Os freios do veículo soam. O carro para. A reportagem do TeatrineTV desce.

À frente está o prédio do Memorial da Cultura e da Cidadania Apolônio de Carvalho, localizado na Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559, no Centro de Campo Grande (MS).

Além de abrigar as pastas de cultura (secretaria e Fundação), no 3º andar o prédio abriga o Museu da Imagem e do Som (MIS) desde 28 de dezembro de 1998.

A equipe sobe a escadaria. Abaixo da varanda, antes da porta de entrada, há a escultura do busto do militar e político comunista corumbaense Apolônio de Carvalho — ele faleceu em setembro de 2005, no Rio de Janeiro. Desde 11 de outubro de 2006, seu memorial ocupa o antigo Edifício das Repartições Públicas (Erpe), construído em 1976. O ex-Erpe agora carrega o nome de Carvalho e é símbolo da cultura sul-mato-grossense.

Passando pelas portas, no hall de entrada do prédio há dois elevadores. A reportagem aciona um deles, que logo abre.

O equipamento se conduz para o terceiro andar, à sala de exibição do MIS.

DENTRO DO MIS

(29.abr.26) - Público assiste a apresentação do catálogo 'Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos', no MIS. Foto: Tero Queiroz 

No espaço, há cerca de 20 pessoas sentadas nas cadeiras estofadas azuis. Dentre elas há cineastas, um professor e alguns alunos do curso de Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

O público aguarda o início da exibição do catálogo Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos. O projeto aborda o longa-metragem de ficção realizado em 1965, considerado perdido após o incêndio do Cine Acapulco, em 2000, que destruiu sua principal cópia em 35 mm.

À frente do público, em pé e aparentemente tranquilo, está o autor do catálogo, o artista e jornalista Rodrigo Teixeira. Ele veste uma camiseta branca listrada e uma calça jeans preta.

Na primeira fileira, a cerca de um metro de Teixeira, está sentado Bernardo Elias Lahdo. Ele é autor do livro homônimo que originou o filme Paralelos Trágicos e também produtor da obra. Ele veste roupa social: calça bege, blusa azul e blazer branco.

(29.abr.26) - Bernardo e a esposa, Mary, assistem a exibição do catálogo 'Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos', por Rodrigo Teixeira. Foto: Tero Queiroz

Ao lado de Bernardo está sua esposa, Mary Selma Mortágua Lahdo. Ela veste uma blusa azul e uma calça preta. Ali o casal acompanhará cerca de 3 horas de apresentação da pesquisa, que reúne 215 páginas de matérias publicadas desde 1965.

O diretor do filme e irmão de Bernardo, Abboud Lahdo, não pode comparecer devido a estar com um forte resfriado. E hoje com 89 anos, a família e Abboud optaram por ele ficar recolhido para recuperação.  

1º FILME DE FICÇÃO DE MS

(29 abr. 2026) – Teixeira explica como executou o projeto do catálogo Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos. Foto: Tero Queiroz

Por meio de apresentação usando um projetor, Teixeira iniciou contextualizando Paralelos Trágicos, lançado em 13 de janeiro de 1967, em Campo Grande.

(29.abr.26) - Teixeira destacou cena de 'Alma do Brasil', em que militares visitam túmulos de soldados que morreram na Retirada da Laguna. Foto: Tero Queiroz

Segundo o pesquisador, trata-se do primeiro longa-metragem de ficção do então sul de Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul. Ele contrapôs a obra ao filme de Líbero Luxardo, Alma do Brasil, de 1932, que, embora retrate a Retirada da Laguna durante a Guerra do Paraguai (1864 a 1870), é caracterizado como uma produção de ficção documental, muda e de viés pró-militar.

(29 abr. 2026) – Teixeira argumentou que 'Paralelos Trágicos' é o primeiro longa-metragem de ficção realizado em MS. Foto: Tero Queiroz

A investigação inédita de Teixeira revelou que existem duas cópias passíveis de restauração na Cinemateca Brasileira e que uma cópia em 16 mm, mantida por Bernardo, também pode ser restaurada.

(29.abr.26) - Teixeira revelou que há cópias de 'Paralelos Trágicos' passíveis de restauração, apesar de primeiras informações da Cinemateca Brasileira terem sido de que uma das cópias estava como a chamada 'síndrome de vinagre' (degradação química de películas cinematográficas e fotográficas de acetato de celulose). Foto: Tero Queiroz.  

Em sua apresentação, Teixeira traçou um paralelo entre o autor literário Bernardo e o filme Paralelos Trágicos.

(29.abr.26) - Obra literária de Bernardo Lahdo deu origem ao primeiro filme de ficção de MS. Foto: Tero Queiroz

Ao longo da pesquisa, recompõe, com base documental, o percurso do longa dos irmãos Lahdo — Bernardo como produtor e Abboud como diretor e ator protagonista. 

O catálogo reúne matérias publicadas ao longo de cinco décadas em 54 veículos de imprensa de cinco estados e do Distrito Federal. Confira grande parte da apresentação na galeria abaixo:

Segundo Teixeira, esse conjunto de registros permite revisar a narrativa de que o filme teria desaparecido.

“O filme está vivo”, afirmou Teixeira, ao destacar que a obra não deixou completamente o espaço público após 1967.

Durante a apresentação, o pesquisador detalhou evidências de preservação.

“A Cinemateca Brasileira possui dois materiais do filme. Havia a ideia de que não poderiam ser utilizados, mas identificamos outro material que pode ser aproveitado”, explicou.

Além disso, uma cópia em 16 milímetros permanece no acervo pessoal de Bernardo.

“A grande confirmação é que existe uma cópia em 16 mm que pode ser restaurada, o que torna essa possibilidade concreta”, afirmou Teixeira.

Em seguida, acrescentou:

“Foi um desafio muito grande realizar esse levantamento, porque a maior parte dos acervos não está digitalizada e o acesso às informações ainda é limitado em Mato Grosso do Sul”.

RESTAURAÇÃO

(29 abr. 2026)  Bernardo Lahdo detém cópia em 16 mm do primeiro filme de ficção de Mato Grosso do Sul, que pode ser restaurada. Foto: Tero Queiroz(29 abr. 2026) – Bernardo Lahdo detém cópia em 16 mm do primeiro filme de ficção de Mato Grosso do Sul, que pode ser restaurada. Foto: Tero Queiroz

Produzido entre 1965 e 1966 e lançado em 1967, Paralelos Trágicos é considerado o primeiro longa-metragem de ficção realizado no então sul de Mato Grosso. A ideia de que o filme teria sido perdido ganhou força após o incêndio do Cine Acapulco. A pesquisa busca confrontar essa versão, demonstrando que outros materiais permaneceram preservados.

“Esse catálogo vem para ocupar uma lacuna na área da memória audiovisual do estado”, afirmou Teixeira.

Ao longo da apresentação, o pesquisador também criticou a falta de atenção institucional à obra.

“A gente conseguiu mostrar que o filme pode ser revisto. Agora, isso depende também de vontade das instituições”.

Em outro momento, reforçou:

“O Bernardo precisa ser mais reconhecido. Essa obra precisa ser resgatada. A gente precisa reunir esses livros, levar para festivais, para eventos, fazer com que ele seja chamado pelas instituições, pela academia, pelo Instituto Histórico, pela UBE. É preciso recolocar essa história no lugar certo”.

Para o pesquisador, a ausência de políticas estruturadas contribui para lacunas na memória audiovisual.

Ele também destacou o papel do catálogo como fonte:

“É um material que pode servir para estudantes, professores, jornalistas e todos que quiserem conhecer essa história”.

Ao final, Teixeira citou a importância do financiamento via Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), mas criticou a ausência de apoio local.

“É preciso financiamento e interesse das instituições locais. Esse filme e a trajetória do Bernardo são de interesse público”.

FORMAÇÃO CULTURAL

(29.mai.26) - Bernardo Lahdo e Rodrigo Teixeira no MIS de Campo Grande. Foto: Tero Queiroz

Bernardo Lahdo, por sua vez, ressaltou a importância da cultura.

“Sem cultura não há desenvolvimento, e ela está nos livros e nas obras cinematográficas”.

Ele defendeu maior investimento:

“O Mato Grosso do Sul precisa dar um passo adiante”.

Após a apresentação, anunciou a transformação do Cine Acapulco em centro cultural.

“Estamos transformando o Cine Acapulco em um espaço com cinema e atividades artísticas”.

Segundo ele:

“Serão cursos totalmente gratuitos, voltados à formação de jovens”.

Sobre o Cine Campo Grande, criticou a possível venda:

“Sou contra. Ou se transforma em centro cultural ou deve ser direcionado à cultura”.

Confira, abaixo, a cobertura em vídeo da agenda:

 

 

O catálogo Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos foi lançado anteriormente na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e é um projeto realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo do presidente Lula (PT), por meio do Ministério da Cultura (MinC), com edital operacionalizado pela Fundação de Cultura de MS (FCMS). A prova


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