Neste ano em que celebra 37 anos de atividades ininterruptas em Campo Grande (MS), o Teatral Grupo de Risco (TGR) decidiu ampliar a própria forma de circular o fazer teatral. O grupo veterano anunciou o lançamento do “TGR em Quadrinhos”.
O projeto transforma espetáculos do repertório em gibis — incluindo bastidores — e promove oficinas gratuitas de inteligência artificial (IA) e criação artística para jovens da periferia da Capital.
De acordo com a atriz, criadora e produtora Fernanda Kunzler, a proposta surgiu de maneira espontânea.
“Foi meio ao acaso. Estávamos numa viagem de trabalho e, no percurso, ao relembrar o texto da peça que íamos apresentar, começamos a brincar com o texto, fazendo falas como se fossem bonecos, desenhos animados, imitando alguns personagens de histórias em quadrinhos. E comentamos: vamos fazer um gibi do TGR, contando histórias engraçadas que vivenciamos nas apresentações. E daí fomos amadurecendo, e virou um projeto simples”, relatou.
À reportagem do TeatrineTV, Kunzler citou que o projeto surge no encalço do sucesso das peças teatrais que integram o repertório do grupo e que o gibi é uma forma de ampliar o alcance dessas histórias.
“Nós pensamos em aumentar o alcance com outra linguagem. E adaptar alguns textos que têm classificação etária, deixando-os acessíveis ao público geral”, detalhou.
A proposta foi aprovada em edital de R$ 40 mil da Fundação Municipal de Cultura (Fundac), com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Ministério da Cultura (MinC), no governo do presidente Lula (PT). A prova.
Ainda segundo Kunzler, os quadrinhos propõem uma “continuidade de pesquisa” do grupo.
“Sempre que inscrevemos projetos, pensamos que eles nos possibilitam a continuidade do nosso trabalho e, consequentemente, da pesquisa que envolve as peças de repertório do grupo e as que pensamos em produzir. Neste caso, investigar mais sobre a linguagem dos quadrinhos e de que forma poderíamos nos ver fisicamente nas histórias e situações que abordam os espetáculos escolhidos para compor essa primeira experiência”, disse.
Apesar do recurso limitado, a proposta completa do TGR, além do gibi, conta com seis apresentações teatrais gratuitas, em espaços públicos e na sede do grupo, e a realização do workshop “Minha quebrada em Quadrinhos”.
A oficina pretende oferecer possibilidades práticas para o uso criativo de ferramentas de IA, como o ChatGPT e geradores de imagem, para criar tirinhas inspiradas em histórias reais ou ficcionais sobre as comunidades participantes.
Programação do projeto
“Guardiões” (Lú Bigattão)
- Sede do Teatral Grupo de Risco (TGR) — Campo Grande
- ️ 4ª feira (22.abr.26)
- 8h30
- Participação da Escola Irene Szukala
- Classificação indicativa: 14 anos
- ️ Entrada gratuita
- Workshop “Minha quebrada em Quadrinhos” — 9h30
“Guardiões”
- Sede do TGR — Rua Trindade, 401, Jardim Paulista
- ️ 6ª feira (24.abr.26)
- 8h30
- Participação da Escola Estadual Aracy Eudociak
- Workshop “Minha quebrada em Quadrinhos” às 9h30
- Classificação indicativa: 14 anos
“A Princesa Engasgada” (Márcia Frederico)
- CRAS São Conrado — Rua Livino Godoy, 777, São Conrado
- ️ 3ª feira (28.abr.26)
- 8h30
- Classificação indicativa: Livre
- Workshop “Minha quebrada em Quadrinhos” — 9h30
“Do Jeito que é Hoje em Dia” (adaptação do texto de Virginia Menezes)
- CAPS III “Afrodite Dóris Contis” — Rua São Paulo, 70, Monte Castelo, em Campo Grande (MS)
- ️ 6ª feira (8.mai.26)
- 9h
- Workshop “Minha quebrada em Quadrinhos” às 9h45
- Classificação indicativa: 13 anos
“A Princesa Engasgada”
- Escola Arlindo Sampaio Jorge — Rua Pariris, 360, Moreninhas II
- ️ 2ª feira (11.mai.26)
- 13h30
- Workshop “Minha quebrada em Quadrinhos” às 14h30
“Do Jeito que é Hoje em Dia”
- Associação Católica Sagrada Família (ASFA) — Rua Presidente Delfim Moreira, 1721
- ️ 3ª feira (12.mai.26)
- 9h
- Classificação indicativa: 13 anos
- Workshop “Minha quebrada em Quadrinhos” — 9h45
Público, continuidade

Segundo Kunzler, a escolha de realizar o projeto com e para o público periférico é parte fundamental da proposta.
“Também é um ponto que tentamos reafirmar em nossos projetos: distribuir a produção para populações que possuem pouco ou nenhum acesso à produção cultural de Campo Grande”, afirmou.
Sobre a recepção desses públicos, Kunzler foi enfática.
“Na maioria das vezes, são pessoas que não assistem espetáculos teatrais porque não lhes é oferecido com frequência. Chegar nesses territórios é um desafio, e também um compromisso do grupo. Possibilitar o acesso à arte e cultura, na garantia de direitos, e ainda porque acreditamos que a arte colabora na formação do cidadão. Constrói relações mais humanizadas”, apontou.
De acordo com Kunzler, a formação de público e a chegada de demandas ao grupo são resultado de um trabalho continuado.
“Tentamos voltar aos lugares onde já fomos, para construir um processo continuado de acesso e formação. Em outros locais, é um movimento de chegada: grupos, coletivos e projetos sociais ficam sabendo do teatro por algum meio e entram em contato com a gente. Neste ano, temos alguns lugares novos que entraram em contato e estamos tentando inserir nos projetos”, comentou.
O resultado dessa escuta deve influenciar a estrutura do gibi, que ainda está em construção.
“Está sendo adaptado. É um estudo de texto e linguagem, pois precisa ficar mais reduzido sem perder a informação e o objetivo das peças, mantendo a essência de cada uma. Isso tem exigido um trabalho mais específico de leituras”, ressaltou.
Cerca de 100 exemplares do gibi do TGR serão entregues nos locais que assistiram às peças e participaram do workshop.
“A ideia é verem o trabalho por outra mídia e também acessarem aquilo de que participaram. Ver o grupo e tentar reconhecer os papéis, as histórias das peças”, explicou.
Sobre o uso de IA na criação artística, Kunzler reconheceu que se trata de uma ferramenta já presente no cotidiano.
“Pensamos que é algo que está aí, disponível para a maioria das pessoas, em especial jovens e adolescentes. Então, já que é quase irreversível sua existência, a ideia é incentivar esse público a utilizar o aplicativo para compor histórias usando a reflexão da realidade com criatividade”, argumentou.
Para ela, estética, narrativa e posicionamento são resultados esperados das oficinas.
“Já estivemos em duas oficinas, e foi algo muito interessante. Alguns estudantes puderam conhecer melhor a realidade de onde moram e estudam e produziram seus quadrinhos a partir desse olhar. E ainda houve o exercício de trabalhar em grupo, dialogar e compor de forma que refletisse o apontamento de cada integrante”, relatou.
Apesar da trajetória consolidada, Kunzler avalia que o teatro ainda não alcança todos os territórios da cidade.
“Diríamos que [o teatro] chega onde consegue chegar. Há muitos lugares que não têm acesso. Vimos isso inúmeras vezes quando trazemos grupos ao nosso espaço e perguntamos se já foram ao teatro — a maioria diz que não. Há muito campo para alcançar”, analisou.
Ela também aponta o principal entrave para a circulação de grupos independentes.
“A viabilização das circulações. Há muitos atrasos nos investimentos públicos para a cultura. E como chegar nas regiões mais carentes sem o mínimo de estrutura?”, questionou.
Para a atriz e produtora, projetos como o do TGR indicam possibilidades, mas não resolvem o problema estrutural.
“Desenvolver um trabalho contínuo e processual colabora para outra possibilidade, vislumbra caminhos possíveis e proporciona uma mudança”, afirmou.
O gibi e o workshop de IA, segundo Kunzler, abrem um novo canal de conexão com o público.
“Acreditamos que abre outra forma de comunicar com as pessoas. É uma experiência em curso, e acreditamos que pode ser muito boa. Já está sendo bem legal”, concluiu.







