Maio.2026 - Brô MC's e Katú Mirim realizam feat 'OKE' com Anitta.. Foto: TERO QUEIROZ | ARQUIVO PESSOAL
O 1º grupo de rap indígena do Brasil, o Brô MC’s, está em destaque no país após a popstar Anitta anunciar que lança amanhã (23.jul.26) a faixa OKE, que, além do grupo, conta com a participação da também rapper indígena Katú Mirim.
Tanto o Brô MC's — formado por Bruno Veron, Clemerson Batista (Tio Creb), Kelvin Mbarete e Charlie Peixoto (CH) — quanto Katú estiveram na 1ª Revoada Cultural, realizada nos dias 30 e 31 de maio, em Campo Grande (MS).
Naquela ocasião, destacamos aqui no TeatrineTV que os integrantes do Brô foram convidados pelo veterano GOG, mas também fizeram uma participação no show dos veteranos do rap de MS, Falange da Rima.
Já Katú Mirim foi convidada pela MC Anarandà, que encerrou sua turnê na Revoada Cultural mesmo após ter sido afetada pela queda de energia no palco por falta de combustível no gerador.
A FAIXA ‘OKE’
Antes de falarmos sobre a experiência do Brô MC's e de Katú na Revoada, na capital de MS, vamos ouvi-los acerca do lançamento da faixa “OKE”.
De início, perguntamos aos rappers como surgiu o convite para o feat com a Anitta. Bruno Veron disse:
“O convite surge do Papatinho. Ele já conhecia o nosso trabalho, que o Xamã apresentou para nós. Em certo dia, o Papato entrou em contato com a gente e soltou logo o convite, se a gente toparia fazer uma música com a Anitta. Ele falou que estava produzindo isso, saca? E, como sempre, a gente gosta de desafios novos, né? E falamos: bora”, introduziu.
Para Bruno, estar no álbum da artista top 1 do Brasil — e uma das maiores do planeta — é uma conquista artística importantíssima, mas é também um momento crucial para trazer à baila a realidade de como vivem os indígenas em MS.
“Estar no álbum da Anitta é mais um grande passo para nós, povos indígenas, saca? Principalmente aos povos Guarani e Kaiowá, que sempre estamos sofrendo com ataques do Estado e pelos ruralistas. Não tem como não lembrar da luta do nosso povo, da resistência, mas também levar um pouco dessa parada universal, dançante, saca? Estamos muito felizes e aguardando ansiosamente essa música e que possamos curar a alma das pessoas com a música”, declarou.
Também integrante do Brô MC’s, CH revelou detalhes da captação de 'OKE'.
“A gravação, a captação de áudio, foi aqui mesmo em Dourados. Foi super rápido, porque estava tudo muito corrido também. Tinha todo esse processo de fazer o videoclipe também, então foi tudo rápido, mas foi muito maneiro também por ela acreditar na música, no artista que é o Brô MC's. E também ao nosso parceiro, o Papato, ter acreditado nesse feat que rolou. Então, foi muito massa, cara, demais. Está sendo incrível. O projeto vai ser incrível”, disse.
A expectativa para o lançamento, conforme CH, é que o povo Guarani Kaiowá se sinta representado.
“Amanhã é o grande dia do lançamento da música. Eu garanto que o público vai amar essa participação nossa, essa música OKE. E, em especial, sempre trazendo essa força dos povos indígenas. Em especial os povos Guarani Kaiowá, que hoje a gente vê tanto massacre nas retomadas, e nunca é feito nada. Então, também trazendo essa voz artística na música. E a música traz essa ancestralidade. Então, por isso foi muito importante essa participação dos Bro MC's, também da Katu Mirim”, anotou.
CH apontou que o estado de Mato Grosso do Sul recebe o tratamento que merece nas letras do grupo.
“E o MS, como você perguntou, eu acho que nunca se encaixou na letra, na nossa letra ou em umas músicas que a gente fala, porque o MS sempre tratou o Brô com portas fechadas. Hoje a gente vê que não tem muito espaço no nosso Estado. Então, o Estado não foi citado na música. O que mais agrada a nós é o nosso povo, que foi citado, os povos indígenas, trazendo essa força, essa visibilidade dos povos indígenas”, adiantou.
O integrante comentou que o feat com Anitta é mais um grande marco nas quase duas décadas de carreira do grupo.
“Quando a gente fala de impacto na carreira do Brô MC's, eu acho que tudo que a gente faz sempre foi impactante, juntamente com essa galera grande com quem a gente tem formado essas parcerias. É muito importante esses artistas grandes, que sempre abrem as portas para o nosso povo indígena, em especial os Brô MC's, que estão há mais de 18 anos fazendo essa correria. E hoje a gente vê que está do lado desses grandes artistas. É uma honra e também um reconhecimento deles. Isso é muito importante. Acho que toda parada que a gente faz sempre impacta, de forma positiva ou negativa, mas aí depende de cada um. Depende de cada um que consegue entender a mensagem que a gente fala”.
CH também destacou a importância da parceria com Katú Mirim em 'OKE'.
“A gente sempre se encontrou, a gente sempre se encontra nesses lugares de eventos que rolam. A gente sempre troca essas ideias. E foi muito maneiro essa participação dela também. Ela também vem crescendo no cenário musical nacional. Então, isso é muito importante também. A gente vê também outros povos ganhando essa visibilidade. Acho que essa participação dela reforça a luta dos povos indígenas, nós como um todo. Quando uma pessoa fala dos povos indígenas, acho que isso é muito importante, principalmente quando a gente faz essas parcerias. Isso mostra que a gente está mais forte. Juntos, a gente fica mais forte para mostrar que vai muito mais além junto”.
Sobre o resultado da faixa, CH disse ter ficado extremamente feliz e espera que o público também fique.
“O resultado do projeto está incrível. Eu garanto que o povo vai amar a música. O álbum está sendo incrível. Então, é uma expectativa muito boa. A gente está aguardando ansioso por isso, porque amanhã já é o dia. Então, é isso. Acho que não tem muito o que falar. É só vocês aguardarem o resultado, que vocês vão ver como está incrível esse projeto, OKE. Amanhã, Equilíbrivm – Parte 2. Anitta, Bro MC's e Katu Mirim. Vai valer muito a pena”, prospectou.
Procurada na noite desta 4ª feira (22.jul), horas antes de 'OKE' ser lançada, Katú Mirim resumiu que, na faixa, está trabalhando com referências da música.
“Minha expectativa para o feat com a Anitta é trazer visibilidade para os artistas indígenas. Existimos e estamos trabalhando com grandes nomes da música. Precisamos ocupar nosso espaço. Eu admiro muito o Brô. Eu tenho 10 anos de carreira, mas eles têm 17. Eles são referência para nós, artistas indígenas, e eu fiquei muito feliz em ver que eles também estavam no feat. Uma honra poder dividir tudo isso com eles”, disse, brevemente.
“REVOADA DE DESPREZO CULTURAL”
Na cronologia real da entrevista, antes de os Brô comentarem o destaque da faixa ‘OKE’ com Anitta, eles fizeram questão de lembrar como o grupo se sentiu tratado na capital do estado em que vivem, durante um show há cerca de dois meses.
Para os Brô, o tratamento de desprezo aos artistas indígenas não é pontual, mas sim sistêmico em MS.
“Mato Grosso do Sul sendo Mato Grosso do Sul, um povo que sempre tratou mal os povos indígenas. Você vê hoje, nas retomadas, a galera só levando chumbo, levando bala, levando bombas, trator passando em cima das casas, sendo destruídas. É isso que a gente vê. E, quando eles fazem um festival desse, querem mostrar que se importam com os povos indígenas, mas, na verdade, não. É só uma maquiagem que o Estado sempre faz, que sempre vai fazer e sempre vai continuar enquanto não tiver ninguém se firmando, ninguém metendo a cara para dizer que é uma parada muito errada. A gente vê isso”, denunciou CH.
Conforme CH, apesar de os Brô apoiarem a realização do festival e a ocupação das ruas com arte, é preciso que haja pessoas qualificadas para trabalhar com artistas indígenas.
“Uma pena, porque o festival estava incrível, mas, como um todo, a gente vê essa fragilidade deles. Quando olham para os povos indígenas, o que a gente sente é desprezo. Eu acho que, quando você trabalha com cultura, tem que saber trabalhar com tudo. Não é só trabalhar com uma pessoa ou colocar uma pessoa em primeiro lugar que você vai fortalecer a cultura. Quando você trabalha com cultura, tem que entender que os povos indígenas também fazem parte dela. Tem que ter muito cuidado e respeito quando trabalha com a gente, porque nós somos diferentes”, salientou.
Ainda de acordo com CH, o tratamento dado pela produção da Revoada Cultural foi um dos momentos mais agressivos enfrentados pelo grupo ao longo da carreira.
“É uma coisa que eu nunca tinha visto nos festivais em que a gente já participou. Cara, a gente já foi para os Estados Unidos, já fez grandes festivais, e eu nunca vi um tratamento igual ao que foi dado para a gente. Foi o tratamento mais desprezível que a gente já recebeu. Mas o Estado é isso, sempre querendo maquiar esses festivais. Sempre quer. E, até hoje, a gente vê que o Brô está em casa, mas não vê o Brô nesses festivais. A gente não vê nenhuma das pessoas que fazem cultura sendo chamada para esses eventos culturais. Eu acho que deveriam sempre colocar os povos indígenas, não só o Brô, mas também outros povos indígenas em cima do palco. Mas, infelizmente, é o Estado. Enquanto a gente não lutar pelos nossos direitos, vai continuar como sempre foi: um Estado que sempre mata os povos indígenas de todo jeito. E a galera que trabalha com cultura não percebe isso. Mas eu acho uma pena ver isso acontecendo em pleno 2026”, lamentou.
As parcerias com artistas reconhecidos no Brasil e no mundo são a estratégia adotada pelos Brô MC’s para superar o racismo estrutural.
“Para nós, eu digo por mim, isso nunca vai abalar o nosso trabalho. O nosso trabalho sempre foi falar dos povos indígenas. Eu nunca parei para pensar em deixar de falar sobre os povos indígenas. Vai continuar sempre. Com essa força e com essas parcerias grandes, a gente consegue muito mais. Consegue ampliar a nossa voz indígena para fora do Estado, para o Brasil e para o mundo, mostrando como os povos indígenas são tratados dentro do nosso Estado e do nosso país".
Para ele, a música é o veículo de difusão das lutas, mas também das vitórias nesse território do Centro-Oeste do Brasil.
“Eu acho que a música não tem parada. Ela sempre continua caminhando. Acho que o nosso caminho é esse. O que deixa a gente mais forte é a nossa voz. O tratamento com os povos indígenas é sempre o mesmo. Mas a gente não pode abaixar a cabeça para tudo isso. Tem que levantar a cabeça. A gente é forte, a gente tem a nossa voz de reivindicação. A gente vai reivindicar, a gente vai falar, porque está na hora de as pessoas pararem para pensar que muitos já pisaram nos povos indígenas. Está na hora da gente se reerguer e falar para as pessoas certas”, completou CH.
Katú Mirim explicou à reportagem que só não foi “maltratada” por “ser de fora”.
“Eu não fui maltratada no Festival Revoada porque sou de fora. Sabe o que dizem, né? Tratam melhor os de fora do que os de dentro. O festival foi super desrespeitoso com o Brô MC's, sendo que eles são referência dentro do rap nacional e são os artistas que mais trazem visibilidade para o Estado de Mato Grosso do Sul. Então, não adianta me tratar bem sendo que trataram mal os de casa”, concluiu.
NOTA DE COERÊNCIA AO TTV
Além da denúncia sobre a produção, os Brô criticaram a falha na cobertura jornalística do TeatrineTV acerca da Revoada Cultural. Para o grupo, a reportagem omitiu o “problema” central do festival.
"Exaltou o Revoada e deu destaque à nossa participação, mas é importante que saiba que os artistas indígenas, que hoje fazem parte da cena nacional, se sentiram desresepeitados pela organização do festival”, finalizou.